Pesquisa de opinião e eleitoral

No Brasil, as pesquisas começaram em 1934. Na política, seu precursor foi o presidente Juscelino Kubitschek

Marcus Figueiredo, cientista político, professor do Iuperj |

O uso de pesquisas de opinião “data do século 19 na Europa, sendo que o seu aprimoramento se deu nos Estados Unidos da América na década de 30 do século 20. Será apenas nos anos 60 que se popularizará em diversas regiões do globo”. ( ver artigo de Fernando Kleiman )

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JK foi o pioneiro no uso das pesquisas de opinião na política
No Brasil, como nos informa Orjan Olsen, a primeira pesquisa de opinião foi realizada em 1934 por Francisco Orlandi e Charles Dulley, para uma empresa de propaganda. Em 1942 surgiu o Ibope, que era praticamente o dono do mercado. Suas pesquisas de audiência deram origem à expressão “deu Ibope”, sinônimo de sucesso. Na política, as pesquisas de intenção de voto passaram a ser usadas regularmente e JK foi precursor no uso sistemático das pesquisas de opinião. Nem mesmo durante o regime militar as pesquisas de opinião deixaram de ser realizadas. Mas nos anos 80 o mercado de pesquisas se ampliou e hoje temos um extraordinário acervo de pesquisas pré-eleitorais, de intenção de voto, tanto acadêmicas quanto de mercado, disponível para consultas no Centro de Estudo de Opinião – Cesop, da Unicamp.

Temos, portanto, uma longa história de pesquisas de opinião e de intenção de voto. A qualidade das pesquisas que temos hoje não deixa nada a desejar em comparação com os outros países. A qualidade dessas pesquisas depende do uso de regras científicas na construção de amostras da população e do uso de técnicas estatísticas para o estabelecimento do grau de confiança de seus resultados e das margens de erro de suas estimativas.

Amostra da População

A idéia de se fazer uma amostra da população, em bases científicas, permitiu aos centros acadêmicos e empresas de pesquisas agilizar e popularizar as pesquisas de opinião. Hoje se faz pesquisa sobre tudo. Desde preferência por uma marca, audiências a rádios e programas de TV, avaliação de políticas públicas, até atitudes morais da população, passando por preferências políticas e eleitorais. Empresas de produtos de varejo usam regularmente pesquisas para definir estratégias de vendas, o impacto de um comercial para cativar consumidores e até a escolha do melhor ponto para suas lojas. Governos, partidos e políticos, da mesma forma, também usam pesquisas regularmente para saber as demandas da população, avaliar seu desempenho e definir suas estratégias. E até mesmo, pasmem, para escolher o “melhor” candidato para disputar uma eleição: porque o PSDB escolheu Serra e não Aécio? Se os dois são igualmente considerados bons para o cargo, melhor ainda o tem maior popularidade e aceitação pelo público. Esta idéia de melhor candidato é inferida por meio de uma pesquisa com uma amostra da população.

O processo de realização de uma pesquisa implica em primeiro lugar na definição de uma amostra que seja representativa da população. Existem vários tipos de amostras. Os mais comuns são as amostras probabilísticas e as de cotas. Na primeira, a escolha do respondente do questionário é feita probabilisticamente. Ou seja, seguindo o censo populacional feito pelo IBGE sabemos a probabilidade de um habitante ser escolhido para compor uma amostra, o qual representa todos os demais semelhantes não escolhidos. Assim uma amostra é a miniatura, destacada, de uma população. Ou seja, é como se fosse um imagem reduzida, mas fiel, dessa população.

O segundo método, a amostra por cota, segue nas suas etapas iniciais o mesmo roteiro de escolhas probabilísticas sucessivas em todos os passos, exceto no último onde são definidas cotas para a escolha do respondente. O processo inicia com a escolha probabilística dos municípios que comporão a amostra e dentro deles os setores censitários onde existem domicílios. A escolha do respondente, no entanto, não segue o critério probabilístico, mas cotas relativas às diferentes características sociais, tais como nível educacional, gênero, renda etc. de acordo com a proporção dessas características na população total do país.

A diferença entre esses dois métodos é tema de permanente controvérsia entre os teóricos da estatística e as empresas de pesquisa que atuam no mercado em geral e no mercado de pesquisa de intenção de voto, as pesquisas pré-eleitorais. As empresas argumentam que as amostras por cota representam a população porque a composição das cotas reproduz a composição da população. De fato em geral isto ocorre. Basta pegarmos os relatórios das pesquisas pré-eleitorais (disponíveis nos sites das empresas) e comparar as proporções das características sócio-demográficas das cotas com as proporções das mesmas características obtidas com o censo do IBGE. Uma amostra com estas características é considerada uma boa amostra. E seus resultados são confiáveis. Mas essa controvérsia não terá fim.

As principais vantagens e, portanto, a principal razão para o uso de pesquisas por cota é de natureza prática. Em primeiro lugar, ela é três vezes mais barata e, em segundo, muito mais ágil no trabalho de campo. Hoje, as empresas fazem pesquisas pré-eleitorais em dois ou três dias, o que seria impraticável seguindo-se o roteiro probabilístico de ponta a ponta.

Nível de Confiança e Margem de Erro

Uma amostra pode ser altamente representativa de uma população, mas é necessário ainda que ela seja confiável e garantidora do menor erro de estimativa das proporções observadas, depois de colhidas as opiniões dos eleitores.

O nível de confiança é a probabilidade de que em n amostras feitas sucessivamente um determinado percentual dessas amostras obterão os mesmos resultados, dentro da margem de erro de estimativa. Este percentual é estipulado, a priori . Nas ciências sociais o mínimo é 95%, isto é, em cem sucessivas amostras 95 delas apresentarão resultados iguais. Ciências ditas mais hard , como farmacologia trabalham com nível de confiança de 99%.

O erro é inerente ao método amostral, sendo, portanto, aleatório, involuntário. Independentemente do rigor no procedimento usado para a realização da pesquisa haverá um erro amostral que provem de várias fontes.

As maiores empresas de pesquisas pré-eleitorais trabalham com níveis de confiança de 95%, isto é, em cem amostras feitas sucessivamente em pelo menos 95 delas obterão os mesmos resultados – dentro da margem de erro de estimativa, erro que é inerente ao método amostral.

A margem de erro é, pois, um valor percentual estimado que subtraí-se ou adiciona-se à proporção dos respondentes que, por exemplo, indicam intenção de voto a um candidato. Assim, quando a pesquisa indica que o candidato A tem 30% de intenção de voto, na amostra, a regra estabelece que na verdade ele deve ter, na população, aqueles 30% mais ou menos o erro estimado. As empresas de pesquisa trabalham com margens de erro que varia de 2% a 3% em função de vários fatores, notadamente o tamanho da amostra, a cobertura espacial, geográfica, e a cobertura dos segmentos sócio-demográficos.

O tamanho da amostra é muitas vezes tomado como decisivo para os resultados da pesquisa. Para o Brasil, estima-se que para se obter uma boa amostra por cota devem ser realizadas cerca de 2 mil entrevistas, enquanto uma amostra probabilística pode ter cerca da metade dessas entrevistas. O aumento desse patamar mínimo de entrevistas só é necessário se a pesquisa tiver por objetivo captar opiniões em segmentos geográficos e sociais mais específicos para aumentar a representatividade desses segmentos. Caso contrário, aumentar muito o tamanho da amostra torna a pesquisa muito mais cara e o incremento na confiabilidade é negligivel.

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