Para partidos, militância fará diferença nas eleições

Em um mês, legendas colocarão seus exércitos nas ruas para divulgar o nome e as propostas dos candidatos aos eleitores

iG São Paulo |

Durante meses os militantes políticos escutaram, debateram e levaram os anseios e as necessidades dos brasileiros das mais diferentes regiões para as cúpulas dos partidos. Daqui a cerca de um mês, esse movimento estará no sentido contrário: as legendas colocarão seus exércitos nas ruas para divulgar o nome e as propostas dos candidatos aos eleitores para tentar convencê-los de que seus indicados são os mais bem preparados para administrar o País. E é esse movimento, segundo avaliação dos próprios políticos, que poderá fazer a diferença nas urnas.

Os três partidos com candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto - PT, PSDB e PV - são unânimes em apontar o papel fundamental de suas militâncias. "Para ganhar uma eleição é preciso que pessoas façam campanha. E o militante é quem defende as ideias do partido e que faz essas ideias chegarem aos simpatizantes", afirma André Régis, cientista político e responsável pelo programa do PSDB para a formação de lideranças tucanas, o Comunicar.

A mesma opinião tem Marco Antonio Mroz, um dos coordenadores nacionais da campanha da pré-candidata Marina Silva, do PV. "É a única maneira de fazer a diferença. Seria impossível atingir os 12% das intenções de voto que temos hoje sem a nossa militância. Não temos estrutura para isso tudo, nem dinheiro e nem tempo de TV", afirma.

Já o secretário Nacional de Comunicação do PT e deputado federal, André Vargas (PR), vai além. Para ele, esse exército de defensores é o que "dá vida" a uma legenda política. "Nossa estratégia central é basicamente fazer a ideia correr, fazê-las serem transmitidas. E esse é justamente o papel da militância", explica.

Cada partido ao longo de sua história formou militâncias com características diferentes. Para o cientista político Rubens Figueiredo, o PT tem uma militância concentrada nos grandes centros urbanos, aguerrida e muito bem preparada para discutir as bandeiras do partido. Já a militância tucana, no seu entender, se concentra basicamente na classe média e adota um perfil mais light. O PV tem um quadro mais novo, do século 21, com um discurso sofisticado, avalia Figueiredo, complementando que às vezes esse perfil não condiz com as preocupações do eleitorado mais pobre.

O cientista político do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Roberto Romano aprofunda esse retrato. De acordo com ele, a militância do PT é formada por três grupos fundamentais: os católicos progressistas, que operam nas paróquias e ONGs locais; os militantes tradicionais de esquerda, trotskistas e marxistas e os dissidentes, que podem dar apoio à pré-candidata Dilma Rousseff apenas num eventual segundo turno. "São pessoas que têm relação com deputados, prefeitos e outros políticos, sem o compromisso ideológico", explica.

Romano afirma que o PSDB não é conhecido como um partido de militância, apesar de ter um total de filiados muito próximo ao número do PT - 1,31 milhão e 1,39 milhão, respectivamente, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "É composta basicamente pela classe média escolada que não tem a forma agressiva de militância do PT. São mais contidos", afirma. Para ele, a atuação dos tucanos tende a se dirigir a formas mais sofisticadas de militância, como redes sociais e blogs.

Entre tucanos e petistas, esclarece Romano, se encontra o PV, com 273 mil filiados segundo o site do TSE. "É um partido com uma militância de tradição liberal que hoje tem uma posição neutra." Porém, alerta de que à medida que o partido cresce - e a filiação de Marina Silva dá um novo impulso - a legenda amplia sua visão ideológica. "Hoje o PV está muito atrelado à causa ambiental", diz.

Marra

A assessora Miriam Hermógenes, que trabalha com um vereador do PT, é uma assídua militante desta legenda. Ela conta que se formou militante "na marra", no fim da década de 90, ao integrar a União dos Movimentos de Moradia (UMM). Em 2000 acabou se filiando ao PT e, logo depois, foi convidada a participar de trabalhos dentro da legenda. Hoje sua função é justamente fazer a ponte entre as ações e ideias dos movimentos em todo o Estado com o partido, ou seja, a intermediação entre a legenda e a sociedade. Segundo ela, trabalha para que o partido assuma as bandeiras debatidas por esses movimentos.

Essa aproximação do militante com o eleitor e deste com o partido não acontece somente em período eleitoral. São inúmeros eventos durante o ano em que o militante é instigado a discutir e defender as ideias da sigla. São debates, palestras, manifestações, encontros em instituições, grupos de trabalho e as mais diversas discussões para a solução de problemas que estão visíveis ou ainda latentes nas diversas regiões do País.

Esses programas, aliás, tomam boa parte da rotina dos membros - filiados ou não - dos partidos. É o caso de Roberta Moreno, que está há quatro anos no PV. Apaixonada pelas suas atividades políticas, ela define sua atuação como uma "doação". "(As atividades) consomem tempo da minha vida e dinheiro, que gasto para ir aos eventos e manifestações, mas as pessoas precisam entender que a política é uma oportunidade para fazermos parte de uma mudança de toda a sociedade", diz.

Buscar dentro desse engajamento melhorias para a sociedade também é a bandeira de Aparecida Almeida, militante que faz parte dos quadros de fundação do PSDB. Cidinha, como é chamada, hoje organiza o Tucanos de Fogo, grupo que se reúne uma vez por mês para uma confraternização entre os militantes da sigla e para discutir propostas políticas e pensar soluções para os diversos problemas do País. "Política para benefício próprio não vira", destaca.

Virtual

Apesar da força da militância numa campanha, Rubens Figueiredo alerta de que a vitória de um candidato nas urnas não está vinculada exclusivamente a esse trabalho de campo. Hoje as chamadas mídias de massa - rádio e televisão - atingem muito mais pessoas e têm papel fundamental num pleito, sobretudo no vasto território brasileiro. Além disso, o fenômeno e popularização da internet abriu espaço para um outro tipo de militância: a virtual.

Segundo Figueiredo, para isso é necessário fazer a equação do custo/benefício. "O que me parece é que a mídia digital diminuiu o custo da militância. Hoje, é possível atingir muita gente com pouco custo pessoal, de tempo e dinheiro, por meio do marketing viral, dos sites e, principalmente, das redes sociais", diz.

Os partidos estão atentos a essa nova ferramenta, tanto que André Vargas, do PT, afirma que a militância na internet fará o grande diferencial nesta eleição. Só na web, ele estima que poderá contar com cerca de cem mil participantes. "Estamos cadastrando, buscando contatos e procurando os militantes nos diretórios para que eles possam trabalhar online, assim como já vêm militando offline, para o debate político e a interação com o eleitor", explica.

"O mundo da internet revalorizou o papel do militante. E é preciso preparar essa pessoa para que ela saiba postar conteúdo, discutir propostas e interagir com o eleitor", afirma o tucano André Regis. "A internet multiplica as ações e não temos como segurar", complementa Mroz, do PV.

Na avaliação de Roberto Romano, contudo, apesar da força dessas novas ferramentas, é importante destacar que o militante tradicional tem um poder muito grande junto ao eleitorado, pois ele é capaz de, no boca-a-boca, traduzir o discurso nacional para a realidade local.

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