Novata nas urnas, Dilma teve sua candidatura construída por Lula

Do jantar em que anunciou sua escolha aos comícios da campanha, o presidente acompanhou passo a passo sua sucessora

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Em outubro de 2009, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu para um jantar no Palácio da Alvorada o atual presidente do PT, José Eduardo Dutra, seu antecessor Ricardo Berzoini, os ministros da Comunicação Institucional, Franklin Martins, e da Casa Civil, Dilma Rousseff, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, o então prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, e o chefe-de-gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho. Lá pelas tantas, em tom solene, encarou Dilma e verbalizou o que todos já esperavam: “Agora pela primeira vez vou dizer: Dilma, você vai ser a nossa candidata”.

Estava formalizada a pré-candidatura de Dilma à Presidência. Depois de um rápido brinde, Lula passou a dar as ordens práticas e distribuir tarefas para os próximos meses. Na verdade, o projeto começou quase três anos antes, ainda no início do segundo mandato de Lula, em 2007. Em meados daquele ano ele revelou em tom maroto a um dirigente do PT: “Não quero repetir o JK. Vou fazer meu sucessor... ou sucessora”.

Lula se referia ao ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), que deixou o Palácio do Planalto como um dos presidentes mais populares da história, mas não conseguiu eleger seu sucessor, o marechal Henrique Lott, derrotado por Jânio Quadros nas eleições de 1960.

Desde o início do segundo mandato, observou de perto alguns nomes, todos do PT, como o governador da Bahia, Jaques Wagner, e o ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias, responsável pelo Bolsa Família. Antes de bater o martelo, Lula ainda esperou a eleição municipal de 2008 para ver se algum nome do partido se destacava.

A escolha de Dilma para o lugar do todo-poderoso José Dirceu na Casa Civil, em 2005, já indicava a predileção de Lula, mas os primeiros sinais de que ela era a escolhida começaram somente em 2007.
No início daquele ano, quando ia de seu gabinete para o almoço, o presidente comentou com Gilberto Carvalho: “Estou pensando na Dilma para a sucessão”. Gilberto registrou e transmitiu o recado a Dilma. A então ministra, que nunca havia disputado uma eleição, reagiu com espanto. “Gilberto, você está ficando doido?”.

Os motivos que mais pesaram na escolha foram a eficiência administrativa, a ausência de escândalos e suspeitas de corrupção e, principalmente a fidelidade e o fato de Dilma não ter um projeto político pessoal, ao contrário de nomes como José Dirceu e Antonio Palocci. Lula chegou a confidenciar a pessoas próximas que Dilma lhe devolveu o governo sobre o qual já não tinha controle total devido ao avanço de Dirceu e Palocci. “Dilma é alguém que de maneira alguma faz sombra a Lula. Ele tem uma dívida de gratidão com ela e a considera responsável pelo sucesso do governo”, disse um petista.

Consulta ao PT

Antes de anunciar formalmente a escolha de Dilma no jantar do Alvorada, Lula consultou pessoalmente várias pessoas e incumbiu o presidente do PT, Ricardo Berzoini, de ouvir o partido. “Ouvi mais de 100 pessoas entre dirigentes, parlamentares, governadores, prefeitos, líderes sindicais e de movimentos sociais. Sem contar os dirigentes de outros partidos como PMDB, PDT, PSB e PC do B”, recordou Berzoini.

De acordo com ele, não houve resistência, apenas desconfiança. “Algumas pessoas duvidaram se ela conseguiria migrar do papel de uma executiva eficiente para a tarefa de vencer uma eleição”, disse. A ação rápida de Lula, no entanto, evitou que as disputas internas do partido contaminassem a escolha.
“Como o presidente se antecipou em 2008, não se cogitou outros nomes”, afirmou Berzoini.

A única voz dissonante foi a do então ministro da Justiça, Tarso Genro – citado como alternativa a Lula no PT desde 1998 –, que deu entrevistas dizendo que o nome de Dilma ainda não estava decidido. A unidade petista foi confirmada no Processo de Eleições Diretas (PED) de 2009, quando todas as chapas inscritas defenderam explicitamente em suas teses o nome de Dilma, e reiterada no 5º Congresso Nacional do PT, instância máxima do partido, quando a candidata foi ovacionada por todos os segmentos partidários.

AE
Presidente acompanhou cada passo da montagem da candidatura


A candidata repaginada

Com o PT pacificado, Lula partiu para outras duas tarefas: consolidar a aliança que sustentaria a candidatura e treinar a candidata inexperiente para enfrentar os palanques. O primeiro teste foi no Fórum Social Mundial de Belém, em 2009, quando Dilma encarou sozinha uma platéia formada por líderes camponesas e de movimentos sociais altamente politizadas na mesa sobre Mulheres no Poder. A performance foi considerada apenas razoável.

Em alguns eventos, como uma entrega de obras do PAC em Campinas, Lula observava o desempenho da pupila no palanque e depois a corrigia em público. Em seguida, vieram as cirurgias plásticas, mudanças no penteado e no guarda-roupa, que culminaram com a versão apresentada na propaganda eleitoral. O cabelo passou a ser assinado por Celso Kamura. A campanha ensaiou ainda um acordo com o estilista Alexandre Herchcovitch, que acabou não vingando.

Em meados de maio, quando Dilma avançava sobre José Serra (PSDB) nas pesquisas, a maioria dos petistas já admitia que a petista não empolgava no palanque, mas também não dava vexame. Mesmo assim ainda pairavam dúvidas quanto à sua capacidade eleitoral. O desempenho na entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura e no primeiro debate entre os presidenciáveis da TV Bandeirantes acalmaram as preocupações.

Ciro fora e PMDB dentro

Paralelamente, no campo político, Lula e o PT agiam para atrair o PMDB e desestimular outras candidaturas dos partidos aliados, principalmente a de Ciro Gomes (PSB). Em relação a Ciro o primeiro passo foi convencê-lo a transferir o título eleitoral para São Paulo, abrindo a possibilidade para que ele disputasse o governo do Estado com apoio do PT. O desfecho foi traumático, com Ciro destilando mágoa em entrevista ao iG, na qual disse que Lula estava “viajando na maionese”, mas não causou maiores prejuízos.

Em relação ao PMDB, o enfraquecimento da chamada ala do Senado, liderada por José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), foi providencial. Tanto Sarney quanto Renan chafurdaram durante meses em denúncias de corrupção e, quando estavam prestes a cair, contaram com a boia salvadora de Lula e do PT.

Enquanto os dois caciques concentravam a energia para salvar as próprias cabeças Lula negociava com a ala da Câmara, liderada por Michel Temer, oferecendo em troca de um PMDB unificado a vaga de vice. O ponto culminante desta negociação foi a ajuda do PT a Sarney no processo que o maranhense enfrentou no Conselho de Ética do Senado, cuja única voz discordante foi o senador Aloizio Mercadante (SP).

Lula ainda tentou empurrar o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles (PMDB-GO), para a vaga de vice depois que o iG revelou a presença do nome de Temer em uma planilha da empreiteira Camargo Corrêa, mas o deputado ganhou a queda-de-braço.

Montada a aliança dos sonhos, restava a Lula transformar sua enorme popularidade em votos para Dilma. Ao contrário do que pregava a maioria dos analistas políticos, a transferência aconteceu quase naturalmente, apoiada no trabalho do publicitário João Santana e em diversas multas por propaganda eleitoral fora de época, frutos da superexposição à qual a candidata foi submetida.

Câncer e denúncias

Na medida em que deixou de ser apenas uma técnica competente para se tornar a possível herdeira de Lula, Dilma passou a ser alvo de ataques. O primeiro foi em março de 2008 quando a até então anônima Erenice Guerra, secretária executiva da Casa Civil e braço direito de Dilma, foi acusada de preparar um dossiê com os gastos exóticos do casal Fernando Henrique e Ruth Cardoso com cartões corporativos do governo. Investigação da Polícia Federal apontou um subordinado de Erenice, José Aparecido Nunes, como responsável pelo vazamento dos dados.

Em junho do mesmo ano, a diretora da Agência Nacional de Aviação Denise Abreu acusou Dilma de fazer pressão em favor de empresários brasileiros na venda da Varig. Em 2009, a ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira denunciou ter sido vítima de pressões vindas da Casa Civil em favor de integrantes da família Sarney.

AE
Câncer diagnosticado em 2009 abalou candidatura antes mesmo do inicio oficial da campanha
O golpe mais duro, no entanto, não veio dos adversários. No dia 1º de maio de 2009, Dilma reuniu a imprensa no auditório do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para confirmar notícias veiculadas pelo jornal Folha de S. Paulo sobre a descoberta de um câncer linfático. Em setembro do mesmo ano, os médicos anunciaram que ela estava livre da doença.

A face mais visível da doença foi a peruca usada por Dilma, que tomou a iniciativa de raspar o cabelo antes dos efeitos da quimioterapia. Assessores próximos viram o lado mais doloroso. Um deles chegou a carregar Dilma de camisola, enrolada em um lençol, desfalecida, do avião que a trouxe a São Paulo até o carro que a levaria ao hospital em uma das crises mais agudas.

Recuperada, Dilma voltou a ser alvo, primeiro do fogo amigo do PT, com a revelação da existência de um suposto grupo de espionagem na campanha que teria, entre outras ilegalidades, violado o sigilo fiscal da filha de Serra, Verônica.

Depois com as denúncias de nepotismo e tráfico de influência envolvendo Erenice, sua sucessora na Casa Civil, que a fizeram oscilar nas pesquisas, mas não abalaram a certeza de que ela seria eleita ainda no primeiro turno. “Veja você, meu caro Osmar Dias, vou deixar o governo com mais votos do que tive quando entrei”, disse o presidente em um comício ao lado do então candidato ao governo do Paraná, em Curitiba.

Retomada

Ninguém tem coragem de verbalizar publicamente, mas em conversas reservadas muitos petistas creditam a Lula boa parte da responsabilidade por Dilma não ter vencido no primeiro turno. Em certo momento, quando a candidata beirava os 60% nas pesquisas com o dobro das intenções de voto do tucano José Serra, Lula simplesmente parou de pedir votos para Dilma e passou a se concentrar nos candidatos ao Senado. Além disso, comprou briga desnecessária com a grande imprensa e exagerou no tom dos ataques aos adversários.

O segundo turno pegou a campanha de Dilma desprevenida. Não havia plano B. Exemplo disso foi o aumento em R$ 15 milhões da previsão de gastos da campanha. No dia 3, no palco preto do anfiteatro de um hotel em Brasília, Dilma e a cúpula da campanha não escondiam o abatimento. Embora tenha recebido 57 milhões de votos, ela nem sequer pronunciou a palavra vitória. Lula submergiu.

Publicamente, o PT culpou uma onda de boatos espalhados pela internet nas duas últimas semanas antes da eleição. Para piorar, temas como o aborto tiraram os avanços obtidos no governo Lula do centro do debate eleitoral e ajudaram a alimentar a onda de ataques que marcou a segunda etapa da eleição.

O clima na campanha petista só voltou a melhorar uma semana depois, mais uma vez em um debate da Band, quando Dilma saiu das cordas e partiu para o contra-ataque, levantando suspeitas de corrupção no governo de São Paulo e acusando a esposa de Serra, Mônica, de espalhar mentiras a seu respeito. A subida no tom do discurso teve paralelo na campanha tucana. Aos poucos, a campanha do segundo turno transformou-se na mais agressiva das últimas décadas, com direito a tumultos nos compromissos públicos, troca de ataques entre os candidatos nos confrontos diretos e por meio da imprensa.

As pesquisas publicadas na semana seguinte também ajudaram a melhorar o moral da equipe dilmista. Diante do tropeço do primeiro turno, a aversão ao clima de “já ganhou” deixou de ser mera retórica. A candidata, que chegou a deixar a campanha de lado para acompanhar o nascimento do neto, intensificou a agenda. Finalmente foi à região Norte, e chegou a passar por vários Estados no mesmo dia, como em 26 de outubro, quando esteve no Ceará, Pernambuco e Bahia. Naquele dia, em comício na Praça Barão de Rio Branco, em Vitória da Conquista, Dilma voltou a dar sinais de confiança e alegria. Quase afônica e depois de uma maratona extenuante, ela pegou o microfone e cantarolou “Dilma Lá”, versão de Wagner Tiso para o jingle da campanha de Lula em 1989.

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