Vítimas de preconceito, políticos reprovam ataques pessoais em campanhas

17/10 - 07:39

Lívia Machado

SÃO PAULO - Luiza Erundina brinca que só falta ser negra para resumir os preconceitos mais frequentes no País. Nordestina, mulher e solteira, ela foi prefeita de São Paulo entre 1989 e 1992. Embora não tenha sofrido preconceitos durante a disputa contra Paulo Maluf (PP), chegou a receber papel higiênico com fezes, em um pacote anônimo, durante o tempo em que esteve à frente da maior metrópole do Brasil. A deputada é uma das inúmeras personagens da política brasileira que teve sua vida privada utilizada de forma negativa.

 

Kátia Born, do PSB de Alagoas, teve de enfrentar o preconceito, que saiu dos palanques e chegou à Justiça. Quando era candidata à Prefeitura de Maceió, em 1996, foi processada por “conduta sexual atípica”. A autora da ação foi a então petista Heloísa Helena, que disputava a eleição contra ela.

Nestas eleições, o padrão “família de comercial de margarina” voltou a ser usado contra um candidato. O prefeito e candidato à reeleição pelo DEM, Gilberto Kassab, foi questionado pela campanha de sua adversária, a petista Marta Suplicy, sobre a sua vida pessoal. O anúncio pergunta se Kassab é casado e tem filhos. O candidato a comandar a capital paulista é solteiro. 

“A lógica do marketing político abre mão do conteúdo, desqualifica o debate e submete o caráter do candidato à briga por votos”, explica Erundina, que, embora seja aliada de Marta, reprovou o anúncio. A deputada foi prefeita pelo PT e hoje está no PSB.

Para Kátia, isso é absolutamente irrelevante e jamais deveria ser usado como arma em campanha. “Também moro sozinha, é uma questão de independência. Ninguém precisa saber com quem eu me relaciono”. Kátia também não é casada. Ela tem um filho adotivo e um neto. 

Erundina analisa o cenário com certa rispidez. Na opinião da deputada, a política no Brasil ainda é moralista e patriarcal. Ela explica que tomou uma decisão radical, casou-se com as causas em que acredita por opção e convicção. “Não precisava reeditar a lógica familiar de casar e ter filhos. Amo minha família e faço tudo por eles. Eles me completam e me abastecem de afeto”.

Kátia comenta que, embora tenha ficado perplexa com a atitude de

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Kátia Born, ex-prefeita de Maceió
Kátia Born, ex-prefeita de Maceió
Heloísa Helena, não permitiu que o caso se prolongasse. “Fiquei indignada, mas eu não usei isso como forma de julgá-la, simplesmente passei por cima. O preconceito era dela, não meu.”

Entretanto, tal postura “zen” não impediu que Kátia tirasse satisfações com Heloísa. “Na época, eu fiquei chocada e quis entender. Ela se defendeu falando que foi o advogado que me processou por livre e espontânea vontade. Ainda perguntei, ‘mas como? Você não leu o processo, não tomou conhecimento?’ Heloísa disse que leu, mas não viu direito.”

Segundo Kátia, a história só foi encerrada dois anos depois, quando o ex-governador de Alagoas, Ronaldo Lessa, pediu que ela apoiasse a candidatura de Heloísa Helena ao Senado. “Aceitei desde que ela retirasse o processo. O advogado dela retirou.”

Embora façam análises duras sobre o “jogo político”, Erundina e Kátia demonstram certo otimismo. “Consegui me impor e ser respeitada. Hoje, o preconceito está mais mitigado”, conclui Erundina.

Na lista de vitimas masculinas, Kassab é o mais recente, mas não o único. Ronaldo Lessa também teve a vida pessoal explorada. Em 2002, Fernando Collor de Mello, durante disputa pelo governo de Alagoas, questionou a sexualidade de Lessa.

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Ronaldo Lessa conversa com Lula
Ronaldo Lessa conversa com Lula
Lessa afirma que Collor promoveu um festival de baixarias. Segundo o ex-governador, nesse caso, a estratégia não era apenas ideia de marqueteiro. "Era uma coisa sistematizada, planejada pelo Collor contra mim. A questão, nesse caso, não é nem preconceito, é falta de caráter e ética, dois valores que o Collor desconhece." 

Ele conta que já tinha visto a sua vida pessoal ser escrachada nas eleições para a Prefeitura de Maceió, em 1992. Zé Bernardes (PTB), candidato lançado por Collor, afirmava que Lessa, já divorciado da primeira mulher, não pagava a pensão da filha.

Fernando Gabeira até hoje sofre com o preconceito. A campanha de Eduardo Paes (PMDB) tem vinculado a imagem do candidato do PV ao consumo de drogas, mais especificamente de maconha. Procurado pela reportagem, Gabeira preferiu não comentar o assunto.

A linha “família feliz” foi explorada pela atual governadora do Rio Grande do Norte, Wilma Faria (PSB). Em 1996, ela usou a imagem de mulher tradicionalista, casada, com filhos, para combater a solteira Fátima Bezerra, atual deputada federal pelo PT. Hoje, Faria é divorciada e aliada de Fátima.

Heloísa Helena e Fátima Bezerra foram procuradas pelo iG para dar depoimentos. Até a publicação desta reportagem, nenhuma das duas tinha se manifestado. O portal também tentou entrevistar Wilma Faria. Em seu segundo mandato, a governadora decidiu tirar férias e, de acordo com informação da assessoria, não poderia ser incomodada.

AE

Luiza Erundina assevera:
"Marta deveria ter pedido desculpas ao Kassab e a sociedade".

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