Partidos mantêm desempenho ao municipalizar discurso, avalia especialista
06/10 - 14:16
Sarah Barros, Último Segundo/Santafé Idéias
O primeiro turno das eleições municipais trouxe poucas mudanças na distribuição dos partidos pelo número de vagas disputadas em prefeituras e câmaras de vereadores das cidades brasileiras neste ano. A avaliação é do professor Alberto Carlos Almeida. Para ele, o PT seria o principal derrotado, embora tenha obtido melhor resultado que em 2004. Por outro lado, o partido do presidente Lula foi o carrasco do Democratas, que continua perdendo espaço.
As eleições deste ano mostraram, de acordo com Almeida, que o PT tem se fortalecido na esfera municipal. Na primeira etapa, o partido elegeu 33% de seus candidatos a prefeito. Há quatro anos, o percentual em todo o pleito foi de 21% e, em 2000, 14%. Na última década, o partido evoluiu 23%, uma vez que, em 1996, foram eleitos apenas 10% candidatos petistas. "Os três partidos principais, PMDB, PSDB e DEM, elegem, em média, 45% de seus candidatos, ou seja, o PT está chegando lá", avalia.
Entretanto, o PMDB continuou sendo a sigla que mais elegeu vereadores e prefeitos. O PSDB também manteve o desempenho, sendo que o PT apresentou um aumento abaixo da expectativa. "A exceção é o Democratas, que está perdendo carne. Mas, se o Kassab ganhar [na disputa do segundo turno contra a ex-prefeita petista Marta Suplicy], vai se fortalecer em São Paulo, que é uma cidade grande e importante", destacou. Almeida participou nesta manhã de chat promovido pelo Portal iG em parceria com a Santafé Idéias.
O professor acrescenta que a entrada do PT na região Nordeste é um dos motivos para o enfraquecimento do DEM. "O PT demorou a entrar no Nordeste, mas, quando entrou, espremeu o DEM por causa do discurso do social e o atendimento ao social', explicou.
O discurso local é para Almeida o principal instrumento para o sucesso nas eleições municipais. Embora as consequências dos resultados possam refletir sobre o cenário nacional, com posterior vitória, em 2010, dos recém eleitos para deputados federais, por exemplo, nacionalizar o pleito é um erro.
"[Gilberto] Kassab (DEM) surpreendeu porque falou, na maior parte do tempo, em saúde em nível local", disse. "Com isso, Kassab inverteu o favoritismo, que era de Marta", completa. Para Almeida, o PT se apoiou em uma premissa errada ao concluir que a vinculação da imagem de Lula poderia fortalecer campanhas como a de Marta. "A expectativa [de crescimento do PT] estava errada, baseada numa premissa errada, a de que presidente elege prefeito", afirmou.
Alberto Almeida acredita que o tema Saúde, de modo geral, foi o que mais sensibilizou os eleitores. "É um problema sério que não foi resolvido", destaca. Segundo ele, o sinal da relevância do tema é que, nas localidades onde o sistema público de saúde tem melhores resultados, os prefeitos foram reeleitos. "Não é coincidência que os prefeitos de Foz do Iguaçu (PR) e de Alfenas (MG) se reelegeram. Lá, a saúde não é o principal tema", destacou.
O especialista também defendeu o voto obrigatório no Brasil. Segundo ele, se o voto fosse facultativo no país, os pobres se auto-excluiriam. Almeida pontua ainda que, de modo geral, quanto menor a renda menor é qualquer tipo de participação, inclusive a eleitoral. "A abstenção e os votos brancos e nulos são sempre mais elevados junto aos mais pobres", exemplificou.
E envolver os mais pobres será o desafio, por exemplo, do deputado federal Fernando Gabeira (PV), que foi para o segundo turno após vencer o senador Marcelo Crivella (PRB). O candidato do PMDB, Eduardo Paes, obteve o maior número dos votos na capital carioca. "Gabeira cresceu muito na zona sul e nas áreas mais ricas e escolarizadas da cidade que tem desejo de mudança", avalia.
Sobre o impacto dos resultados das eleições municipais sobre o pleito nacional de 2010, Almeida destaca que vai depender dos arranjos políticos pós-eleitorais. O foco das atenções estará sobre Minas Gerais, onde o governador Aécio Neves pode interferir na disputa pela sucessão de Lula, caso o acordo para o lançamento de José Serra pelo PSDB seja conturbado.
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