77% dos projetos feitos e aprovados por vereadores de SP são irrelevantes, diz estudo
24/09 - 19:13, atualizada às 20:58 25/09
Redação
No rádio e na televisão, durante o horário eleitoral gratuito, os atuais ocupantes de uma cadeira na Câmara dos Vereadores de São Paulo listam uma série de projetos que teriam apresentado durante seu mandato, todos supostamente muito úteis à cidade. A Transparência Brasil, organização dedicada ao combate à corrupção, resolveu tirar a prova e descobriu que a regra é outra. Há muitos mais projetos a exemplo do "Dia do Cão Amigo" ou "Dia do Orgulho Heterossexual" do que propostas para saúde ou educação.
- Veja a lista dos vereadores e os seus projetos
- Leia o estudo completo
- Antes de votar, conheça o perfil do seu parlamentar no Projeto Excelências
- 86,7% dos projetos feitos e aprovados por vereadores do Rio são irrelevantes, diz estudo
Durante cinco meses, membros da organização envolvidos com o Projeto Excelências, o mais completo perfil dos parlamentares brasileiros, analisaram cada um dos 3021 projetos apresentados pelos legisladores entre 2005 e o começo deste mês: cerca de 40% das propostas é irrelevante para a cidade. Dos 892 projetos apresentados pelos vereadores e aprovados pelo plenário, 686, ou 77% do total que se tornou lei, têm pouco ou nenhum impacto na vida dos paulistanos.
A organização usou critérios objetivos para definir o que é irrelevante. Todos os projetos que versam sobre homenagens, fixação de datas comemorativas, nomes de ruas e de outros bens públicos, por exemplo, foram colocados nesse item. São considerados projetos relevantes para a população propostas para a saúde, meio ambiente, comércio, trânsito e educação, entre outros.
A "obra em construção" dos vereadores da maior cidade do País inclui, por exemplo, uma homenagem à Associação Okinawa, projeto de Ushitaro Kamia (DEM). Russomano (PP) e Agnaldo Timóteo (PR) queriam dar as honras da Casa Legislativa ao humorista Ronald Golias. Timóteo também propôs mudar o nome da rua Itapaiuna, na Vila Andrade, para rua Jurado Pedro de Lara.
A vereadora Myryam Athiê (PDT) fez um projeto para oficializar a bandeira do distrito da Água Rasa. Claudete Alves (PT) sugeriu que São Paulo fosse declarada cidade-irmã, o que, em tese, fomentaria a formulação de projetos conjuntos, de municípios como Chicago (EUA), Santiago de Cuba, Caracas (Venezuela), La Paz (Bolívia), Nairóbi (Quênia) e Bulawayo (Zimbábue). Teve sucesso com Chicago.
Um capítulo à parte trata das datas comemorativas. Farhat (PTB) conseguiu aprovar o "Dia do Atleta da Sinuca e Bilhar". Claudete Alves propôs o "Dia da Mulher do Samba Paulistano". Graças a Myryam Athiê, o "Jornalista de Bairro" agora também tem seu dia. "Sommeliers, Enófilos, Enólogos e Baristas" não ficaram de fora _obra de Russomano.
Os anões também são lembrados em um dia, proposta vencedora do vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR). O "Cão Amigo" ainda não tem um dia para latir como seu, mas a proposta já foi feita pelo vereador Claudinho de Souza (PSDB). Adolfo Quintas (PSDB) fez com que o "Grito de Carnaval Reggae" também tivesse um dia só para si na capital paulista. Carlos Apolinário (DEM) ainda não obteve sucesso com o "Dia do Orgulho Heterossexual".
Produtividade dos vereadores
A Transparência Brasil fez um índice de produtividade dos vereadores. Ao todo, 91,4% da atividade dos vereadores de São Paulo é irrelevante para a cidade.
Os cinco vereadores que mais apresentaram e conseguiram aprovar projetos relevantes são Tião Farias (PSDB), Roberto Tripoli (PV), Atilio Francisco (PRB), Noemi Nonato (PSB) e Jorge Borges (PP). Na outra ponta da tabela estão Claudete Alves (PT), Ricardo Teixeira (PSDB), Edivaldo Estima (PPS), Eliseu Gabriel (PSB) e Ademir da Guia (PR). Veja ranking completo aqui.
A Prefeitura de São Paulo se sai melhor na comparação. Diz o estudo da Transparência Brasil: "O Executivo submeteu 137 projetos de lei à Câmara de Vereadores, todos relevantes, obtendo aprovação de 85% deles, ou seja, 62%".
A Transparência Brasil também questiona a relação custo/benefício do Legislativo paulistano.
"A Câmara Municipal de São Paulo, com um orçamento de R$ 310 milhões (o que significa R$ 5,64 milhões por vereador), é uma das Casas legislativas mais caras do mundo para o bolso dos cidadãos", informa a organização. "A Constituição de 1988 prevê importantes funções a serem exercidas pelos vereadores. Além de fiscalizar o Executivo municipal _algo que as Câmaras Municipais de modo geral não fazem, porque são cooptadas pelo prefeito por meio de loteamento da administação entre os partidos políticos_, o vereador deve legislar sobre tributos locais (IPTU, ISS, taxas), orçamentos anuais e plurianuais e concessões de serviços públicos, entre outras responsabilidades."
Em outro ranking feito pela Transparência Brasil, a organização mostra quais são os vereadores que mais apresentaram e aprovaram projetos irrelevantes, em proporção ao total de propostas feitas por cada um.
O líder é Ademir da Guia (PR). De todos os projetos apresentados por ele, 40,6% são irrelevantes. Entre as propostas aprovadas, de autoria de Guia, 93,3% não têm impacto na vida concreta dos paulistanos.
Logo em seguida vem Edivaldo Estima, José Américo, Ricardo Teixeira e Eliseu Gabriel.
Quanto mais irrelevante, mais chances de sucesso
O estudo também mostra quais projetos têm mais chances de ser aprovados.
No período analisado pela organização, foram apresentadas 379 propostas de homenagens: 346 foram promulgadas, um índice de 91,3% de sucesso. No mesmo espaço de tempo, saúde foi o tema de 192 projetos, sendo 30 aprovados, o que significa 15,6% do total. Veja a lista dos vereadores e os seus projetos.
No quesito "datas comemorativas", os vereadores apresentaram 147 projetos. Ao todo, 104 foram aprovados, ou 70,7% do total. Os legisladores também fizeram 104 propostas para o trânsito, mas só aprovaram 10 delas (9,6% do total).
A Transparência Brasil também notou que, dos 3021 projetos apresentados pelos vereadores paulistanos, nenhum menciona termos como "corrupção" ou "propina". Diz a ONG: "Em apenas três aparece a expressão 'improbidade' _dois deles, de passagem. A exceção foi o PL 359/2005, de autoria de Tião Farias, que torna obrigatório o afastamento do funcionário público que exerça cargo de confiança e que venha a ser réu em ação penal aceita pelo Poder Judiciário, em virtude da prática de atos de improbidade. O projeto não foi aprovado".
O próprio conceito de "transparência" só aparece, claramente, em três projetos, especificando meios para implementá-la. Todos são de autoria de Carlos Neder (PT). Nenhum foi aprovado.
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