'Não sou candidato da oposição', afirma Serra

Tucano diminui o tom das críticas ao PT e volta a fazer elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Adriano Ceolin, iG Brasília |

O candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, rejeitou nesta quinta-feira o rótulo de “candidato de oposição” ao participar de entrevista no programa 3 a 1, da TV Brasil. “Não sou candidato da oposição. Sou um candidato do pode mais e do dá para fazer”, disse. Ao contrário do que fez nos últimos dias, o tucano diminuiu o tom das críticas ao PT.

Apresentado por Luiz Carlos Azedo, o programa contou com as participações dos jornalistas João Bosco Rabello, do jornal “O Estado de S. Paulo”, e Tereza Cruvinel, da “TV Brasil”. Serra também aproveitou a oportunidade para voltar a fazer elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“A atual política internacional projetou bem o Brasil e o Lula contribuiu para isso”, disse. Em outro trecho da entrevista, ressaltou: “Nos últimos 25 anos, o Brasil melhorou muito Quero pegar o bastão onde está e melhorar mais ainda”.

O tucano, no entanto, não deixou de criticar governo. “Acho que todos os presidentes, sem exceção, subestimaram sua força perante o Congresso”, disse. “O governo é forte pelo prestígio do presidente, mas é fraco no Congresso. A CPMF não foi aprovada porque um deputado segurou [a votação] até ter nomeado um diretor de Furnas”, completou.

O deputado citado é Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O PMDB é o partido que, desde o ano passado, fechou uma aliança com a candidata governista Dilma Rousseff (PT). O partido não abriu mão de indicar o nome do vice na chapa: o deputado e atual presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP).

Ao criticar a relação com o Congresso, Serra voltou a falar sobre o loteamento de cargos do governo para satisfazer a base aliada. “Compartilhar [os cargos de governo] é eufemismo. Quando um deputado quer colocar um diretor financeiro de uma empresa, ou o diretor de compras de um hospital. É para pegar dinheiro”, disse.

O tucano disse ainda que “no Brasil tem uma doença do patrimonialismo”. “Usar o Estado para benefícios próprios”, disse. Nesse ponto, fez sua crítica mais forte ao PT: “O PT tem uma gula infinita para controlar tudo [os cargos e instituições governamentais]”.

A candidata do PT, Dilma Rousseff, participou do programa na noite desta quarta-feira. As entrevistas foram marcadas por sorteio. A vez de Marina Silva será nesta sexta-feira, quando participará do programa ao vivo, a única que topou nesse formato. Confira os principais pontos da entrevista de Serra, a ser exibida na TV Brasil hoje a partir das 22 horas.

Por que é candidato
Tenho dito que o Brasil pode mais. Pode mais avançar em segurança. Pode mais em saúde e na educação no ensino profissionalizante. Na área de infra-estrutura também. Precisamos continuar melhorando o padrão de vida do brasileiro.

Democracia
Deixa muito a desejar. É problema de governo de quem está no poder. Você pode fazer instituição. Outra questão é das instituições. O Brasil tem sistema eleitoral obsoleto e mal feito e cria problemas para o funcionamento. Principalmente nas eleições legislativas.

Reforma política
Estou disposto a enfrentar. Minha proposta é começar pela reforma política. Instituir eleições distritais puras nos municípios com mais 200 mil eleitores. A campanha vai baixar o preço. O meu primeiro objetivo é diminuir custo de campanha, pois isso está na raiz da corrupção. [No sistema atual] há bairros inteiros sem representação. Ele [o cidadão] não controla o exercício do mandato.

Relação com o Congresso
Acho que todos os presidentes, sem exceção, subestimaram sua força perante o Congresso. Quando estive o Legislativo comigo, como prefeito e governador, eu consegui. No Ministério da Saúde também, foi o Ministério que mais aprovou projetos estratégicos. Liberava emendas para todos os partidos.

Carga tributária
É mesmo altíssima. Se pegarmos os países em desenvolvimento, o Brasil tem disparado a maior carga. Dá para cortar desperdício. Pobre no Brasil paga o dobro de imposto que paga o rico. É importante não onerar os investimentos. Quem não sonega não paga nada. Quem não sonega paga o dobro. Um bom combate à sonegação se permite reduzir a carga tributária.

Economia brasileira
Acho que nós estamos bem. O problema é o filme. O dever do governante é antecipar os problemas. Se correr atrás dos problemas, você não é um bom governante. No Brasil está se investindo muito pouco. Para crescer é preciso investimento. No Brasil, se importa demais e se exporta de menos. O que eu estou dizendo é hoje consensual. Tem gente em nível de ministério que pensa como eu.

Câmbio
O câmbio tem a ver com muita coisa. É um conjunto. É a relação entre a nossa moeda e o dólar. O Brasil é o país é que tem a moeda mais sobrevalorizada. O Brasil está com déficit cada vez maior. Não tinha motivo para a moeda se valorizar. Isso encarece nossa produção. Os chineses têm um projeto nacional de desenvolvimento. China, Índia. Precisa de equipe homogênea. Hoje tem diferenças entre os ministérios da Fazenda, do Planejamento e o Banco Central. Tem de ser time harmônico. Esse critério de política econômica que o governo Lula copiou veio do governo Fernando Henrique Cardoso. É idêntico.

Política Internacional
A atual política internacional projetou bem o Brasil e o Lula contribuiu para isso. Eu não faria carinhos nas ditaduras, como a do Irã, que persegue jornalistas e manda enforcar opositores. [O governo brasileiro] Está praticamente doando estradas para Bolívia. Aceitou tirasse Petrobras de lá. [O governo] dá uma série de colher de chá para Bolívia. Devia pressionar para aumentar o combate à exportação de drogas para o Brasil.

Segurança pública
Tem de tomar conta das fronteiras. Tem de criar uma força nova das fronteiras. O combate ao tráfico é tarefa federal. Introduzir de maneira eficaz o combate à droga.

Aborto
Do que depender de iniciativa do Executivo, não proporei mudança na lei. O SUS (Sistema Único de Saúde) dá assistência quem pratica aborto.

União de homossexuais
Já virou xodó de entrevista. É um assunto que o Estado não entra. A Igreja não casa. Não é questão do Estado.

Loteamento de cargos
Compartilhar é eufemismo. Quando um deputado quer colocar um diretor financeiro de uma empresa, ou o diretor de compras de um hospital, é para pegar dinheiro. Não faria o loteamento. Não ficaria entregando o Estado a aparelhos. O que aconteceu na Receita Federal.

Congresso x Governo
O governo é forte pelo prestígio do presidente, mas é fraco no Congresso. Você sabe que a CPMF não foi aprovada porque um deputado segurou até ter nomeado um diretor de Furnas.

Ataque ao PT
Evidentemente quebrou o sigilo para usar na campanha. Isso depende da gula. O PT tem uma gula infinita para controlar tudo. Num torneio, a candidata governo perde disparado em matéria de más companhias.

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