Na Rocinha, candidatos de raiz investem em trajetória de vida

Três moradores concorrem a uma vaga e protestam contra os rivais 'Copa do Mundo', que só aparecem de quatro em quatro anos

iG Rio de Janeiro |

William da Rocinha, 38 anos, passou 200 dias preso, entre fevereiro e outubro de 2005, suspeito de associação com o tráfico. Livre, elegeu-se presidente da associação de moradores da Rocinha em 2007, com 2.500 votos. Encontrou-se com o presidente Lula – que o abraçou e brincou que não podia usar gravata cor-de-rosa – e com o governador Sérgio Cabral (PMDB) no Palácio Laranjeiras. Hoje tem o apoio de Cabral para ser candidato a deputado estadual pelo PRB e ganhou justamente dele todo o material para sua campanha, entre placas e o impressos que distribui.

André Durão
William da Rocinha recebe um abraço da eleitora Cristina de Souza. Os moradores locais são exigentes e tendem a apoiar candidatos com história na favela
O ex-DJ de bailes funk, atividade que deixou ao entrar para a Igreja Universal, William conta ainda com a contribuição de famosos, como a cantora e apresentadora Preta Gil – que gravou depoimento de apoio – e de sua mãe, Flora, madrinha de sua filha e mulher do músico e ex-ministro (Cultura) Gilberto Gil. Foi assessor da vereadora Andrea Gouvêa Vieira e dispõe de 20 pessoas contribuindo para ele na Rocinha, “tudo no amor, na fé”.

Nas ruas, William recebe de pedidos desde vaga como cabo eleitoral, a compra de cachaça (por um homem claramente alcoolizado) e ajuda para pagar prestações de óculos para uma criança, R$ 61 mensais.

A foto com Lula e Cabral tem lugar de destaque em seu comitê na Rocinha, ao lado de cartaz de Marcello Crivella, senador candidato à reeleição, bispo licenciado da Universal. Candidato estreante – com campanha em outras favelas e municípios do Rio – e com apenas 6 segundos na TV, William tem planos ambiciosos: espera se eleger com 110 mil votos, quase o mesmo que o terceiro mais votado em 2006 (o apresentador de TV Wagner Montes, 111.802).

A um morador que lhe diz não poder votar porque está sem título, ele responde: “Vota na próxima, para senador”. Ao repórter, revela: “Quero ser o primeiro presidente da República negro. Está aí o Lula, que só tem quarta série. Quero fazer faculdade de Políticas Públicas. Experiência eu já tenho, só falta o diploma. Precisava trazer um carro do TRE aí para as pessoas fazerem o título.”

Menos confiante na disputa por uma cadeira na Câmara dos Deputados, Xaolin da Rocinha (PCdoB), 59, também foi presidente da associação e é metroviário aposentado. Está feliz com a campanha, mas espera conseguir se eleger na carona da correligionária Jandira Feghali, que já concorreu ao Senado e deve ter votação expressiva.

André Durão
Xaolin faz campanha na Rocinha com um carro, oito cabos eleitorais e um megafone
Pegou emprestado o Gol de um amigo e instalou o sistema de som, que toca seu jingle, entoado pelo intérprete Guiguinho, da Acadêmicos da Rocinha. Pelas vielas, sem o automóvel, Xaolin usa a simpatia e um megafone para fazer propaganda. “Sinto muito mais receptividade do que da outra vez, quando tive 3.000 votos e só fiz campanha aqui. Agora estou virando celebridade, estão até me pedindo autógrafo!”, ri o candidato.

Cumprimenta moradores sempre com um sorriso de olhos apertados que de fato faz lembrar um chinês. “Tendo alguém de dentro da comunidade pode ser que mude. Estamos juntos!”, disse a ele o motoboy Edilson Rodrigues Lima.

A campanha mais pobre dentre os moradores é do porteiro Adelson Guedes, que sobe e desce a Rocinha com um carrinho de mão equipado de uma caixa de som, que apelidou de “veículo da Nasa”, e prega o voto de nordestinos em nordestinos. “Nossa campanha está subindo a Rocinha a galope”, disse ao iG .

O líder comunitário Martins diz que “Adelson é pouco conhecido”, mas pode se beneficiar da grande presença de nordestinos na comunidade. “Ele faz campanha sozinho, sem cabos eleitorais, com sua caixa de som, e diz que antes do Lula, o Brasil não era respeitado nem no Paraguai, portanto vote no nordestino que dá certo”, diz. Para Martins, “Entre os daqui, William é o mais forte, mas ainda assim não acredito que ganhe”.

Adelson se notabilizou por atacar André Lazaroni. “André é da comunidade de Copacabana, da Atlântica, não tem nada a ver conosco. Chegou para investir dinheiro aqui, arrumou cabos eleitorais, pegou a turma do Claudinho e quer ser o herdeiro. Mas agora a campanha desandou, e os votos dele caíram pelo ralo. Ele vai se decepcionar. Eu sou a força nordestina!”.

André Durão
Adelson Guedes usa o fato de ser nordestino em uma comunidade formada majoritariamente por migrantes
Para uma ex-assessora de Claudinho da Academia, que se identificou apenas como Liliane, os candidatos locais poderiam ter se unido para ajudar a associação. “Tinha um monte de desempregados e ninguém para socorrer, quando apareceu o André [Lazaroni]. Ninguém daqui abraçou, por que os outros candidatos não se uniram em prol comum? Por que precisou vir alguém de fora?”, questionou.

Os cabos eleitorais frequentemente não votam nos candidatos de fora para qual fazem propaganda. “Eu nem conheço este homem, não”, disse uma cabo eleitoral de Sávio Neves. Outro disse que também desconhece o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, mas trabalha para ele por indicação de Valdemar do Gás, principal fornecedor de gás da favela, que cedeu o imóvel onde funciona o comitê de Reis. “Voto é secreto”, nega-se a responder Marilene Mendes, autointitulada ”Xuxa” apesar de não ter cabelos louros.

A população é crítica. Até o presidente Lula, popular na Rocinha por causa das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com previsão de aplicar mais de R$ 700 milhões na favela, tem seus críticos. “Lula é muquirana, safado, traíra. Eu voto no Serra para presidente, Cabral para governador, Lindberg e Picciani para o Senado, Garotinho para federal e William Oliveira para estadual”, gritou a moradora Cristina de Souza, conterrânea de Lula, de Pernambuco.

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