Minas Gerais tem eleição estadual mais acirrada em duas décadas

Desde 1994, mineiros não viam eleição com candidatos tão equilibrados nas pesquisas de intenção de votos

Eduardo Ferrari, iG Minas Gerais |

A disputa eleitoral de 2010 entre o tucano Antônio Anastasia e o peemedebista Hélio Costa já é a eleição ao governo de Minas mais disputada em quase duas décadas no estado. Desde que o próprio Costa disputou e perdeu em 1994 para o também tucano Eduardo Azeredo, os mineiros não viam uma eleição tão equilibrada. Isso está obrigando os candidatos a um acirramento da campanha pouco comum em Minas. Nas duas últimas eleições, com Aécio Neves liderando as intenções de voto e candidaturas de oposição com pouco apelo, as campanhas tiveram poucas denúncias de repercussão. Assim como Aécio, Itamar Franco também venceu com facilidade ainda no primeiro turno, em 1998.

Nesta eleição, todavia, Hélio Costa e Anastasia têm disputado voto a voto. Se Costa esteve à frente em praticamente todas as pesquisas de intenção de votos realizadas este ano, a mais recente, realizada por Ibope/Estado/TV Globo, divulgada no sábado (28), mostrou o primeiro empate técnico entre eles, uma vez que a margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Anastasia tem 35% das intenções de voto contra 33% de Costa.

Assim, o clima esquentou desde o início da disputa. Antes mesmo do lançamento oficial das candidaturas, Hélio Costa fez duras críticas à política de salários dos professores da rede estadual - que passou mais de 40 dias em greve neste ano. Anastasia respondeu com um pedido de impugnação da candidatura de Costa denunciando a manipulação de pesquisa de intenção de votos divulgada pelo Instituto Sensus, que dava ampla vantagem ao peemedebista, ainda no mês de junho. O TRE não viu sentido na denúncia e arquivou o caso.

O cientista político Ruda Ricci, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, acredita que o “estilo” Hélio Costa obriga Anastasia a fazer uma campanha mais agressiva do que se poderia esperar dele. “Hélio tem Patrus, tem o PT, tem Lula, tem Dilma e tem um nome conhecido. Já Anastasia tem Aécio e um nome menos conhecido. Assim Hélio pode ser menos agressivo e Anastasia tem que partir para o ataque se quiser provocar um segundo turno”, explica o cientista político.

Para Ruda, caso Anastasia consiga manter a linha ascendente nas pesquisas de intenção de votos e provocar o segundo turno pode ter chances reais de vitória sobre o adversário do PMDB. “Anastasia demorou muito a subir nas pesquisas, mas se vencer, mesmo no segundo turno, será uma das maiores vitórias políticas da história de Minas Gerais e até do país”, diz.

Costa diz que a coordenação da campanha de Anastasia faz “campanha suja”

A campanha de Anastasia tem mesmo demonstrado bastante agressividade em relação ao adversário. Logo no primeiro debate entre os candidatos, promovido pela Rede Bandeirantes no início do mês de agosto, acusou Hélio Costa de corrupção durante sua gestão no Ministério das Telecomunicações. O peemedebista defendeu o ex-presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, demitido pelo presidente Lula devido à denúncias de corrupção. Costa respondeu que Anastasia fazia parte de um “lobby paulista mal informado que procurava apenas desestabilizar o Governo Federal”.

Depois disso, foi a vez do candidato ao Senado, o ex-governador Aécio Neves (PSDB), da coligação de Anastasia, acusar Hélio Costa de oportunista pelo fato de ter seu coligado ao Partido dos Trabalhadores que, no passado, teria feito oposição ao peemedebista, chegando a "pedir impugnação da candidatura dele ao governo”, na campanha de 1994.

Recentemente, Hélio Costa reclamou que a coordenação da campanha de Anastasia de fazer uma “campanha suja” com denúncias falsas, coação de prefeitos e de “plantar” informações falsas na imprensa. A partir de um processo apresentado pela coligação de Anastasia, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) reabriu a representação de denúncia por suposto gasto ilícito de recursos de campanha contra uma decisão do desembargador Antônio Carlos Cruvinel - que havia determinado a extinção de uma representação que denunciou Costa e seu vice Patrus Ananias por suposto gasto ilícito de recursos de campanha. Costa respondeu que “eles (referindo-se à coligação de Anastasia) deviam estar ‘morrendo’ de rir da denúncia”. “Aquele babaca (referindo a como deveria ser citado pelos adversários) vai ter que ficar o dia inteiro explicando o que é caixa dois”, afirmou.

Até o presidente estadual do PSDB e coordenador da campanha de Anastasia, Nárcio Rodrigues, entrou na disputa e tornou público um processo de Costa no TRE que pedia a prisão de Gabriel Azevedo, autor do blog “amigosdeanastasia.blogspot.com”, porque ele desrespeitou uma decisão judicial do tribunal eleitoral que determinava que blogueiro retirasse do ar um link para um vídeo onde o candidato e Fernando Collor apareciam juntos.

Mais uma vez, Costa defendeu-se afirmando que os advogados de sua coligação solicitaram a prisão do blogueiro sem consultá-lo e que ao “tomar ciência do procedimento dos advogados”, determinou o cancelamento do pedido junto ao TRE-MG por considerá-lo “uma atitude excessiva”. O ex-ministro, entretanto, não perdeu a oportunidade de relembrar que já havia se manifestado publicamente, no início da campanha eleitoral, contra o baixo nível do debate pela Internet, e que “lamentava que as redes sociais estivessem sendo usadas como instrumento de uma campanha espúria contra ele”.

“Disputa de liminares é normal”, diz Anastasia

Hélio Costa e Anastasia travam uma batalha de liminares que teve seu auge com o início do horário eleitoral gratuito. O TRE proibiu, a pedido de ambas as coligações, a veiculação de vídeos de Lula no programa de Hélio Costa e de Aécio no programa de Anastasia. As liminares foram revogadas pelo próprio tribunal.

A cientista política Eucimara Telles, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, explica que para não parecer que as coligações estão fazendo uma "campanha suja", ambas as coligações optaram pelo que chamou de “judicialização” da disputa. “Os candidatos entraram com inúmeros pedidos de liminares e deixaram nas mãos da Justiça a decisão de qual candidatura está cometendo algum crime eleitoral”, diz. “Essa postura objetiva enfraquecer a imagem do adversário junto à opinião pública, constranger os candidatos e até causar a perda de eleitores que acompanham a eleição pela mídia”.

Ambas as coligações já acumulam mais de dez pedidos de processos contra o adversário e pedem à Justiça Eleitoral, inclusive, a cassação do registro da candidatura adversária. Costa acusa o tucano de uso da máquina administrativa, enquanto Anastasia entrou com ação por suposta formação de caixa dois. Estes dois processos ainda tramitam no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.

Anastasia afirmou à reportagem do iG que considera normal a “disputa de liminares”. “Isso ocorre pelo Brasil afora porque a legislação eleitoral é muito complexa. Ela sendo complexa, ela gera dúvidas e dá a oportunidade de debates judiciais. Eu vejo isso com muita naturalidade”, disse.

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