Marina só arrecadou 10% do previsto para o caixa de campanha

Com discurso otimista, Capobianco diz ver 'descasamento' entre decisão de doar e o efetivo repasse dos recursos ao partido

Rodrigo Rodrigues, iG São Paulo |

Apesar da militância aguerrida na internet e do discurso sustentável, a campanha presidencial da senadora Marina Silva (PV) ainda não conseguiu empolgar uma parte do eleitorado essencial para qualquer político: os doadores de campanha. Mesmo tendo como vice o empresário Guilherme Leal, sócio da Natura, a campanha verde conseguiu arrecadar até agora apenas 10% dos R$ 90 milhões que planeja gastar até o 1° turno das eleições.

O coordenador geral da campanha de Marina, João Paulo Capobianco, admite que a arrecadação está abaixo do esperado para essa fase da campanha. Apoiado num discurso otimista, ele afirma que tem recebido sinais positivos dos empresários interessados em ajudar o projeto presidencial da candidata. “Há uma percepção muito grande que Marina é a única que pode forçar a eleição no segundo turno. O que ocorre nesse momento é um certo descasamento entre a tomada de decisão e a efetiva contribuição”, diz Capobianco.

Empresários e especialistas ouvidos pelo iG , por outro lado, enxergam na dificuldade de arrecadação o reflexo do baixo desempenho da candidata nas pesquisas eleitorais. Com apenas 8% das intenções de voto na última pesquisa Vox Populi e 10% na sondagem do Datafolha, a presidenciável do PV terá ainda de lidar com o tempo escasso na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, que começa no dia 17 de agosto.

AE
Campanha de Marina, que tem o reforço de Guilherme Leal, aguarda impulso nas doações

Nos bastidores, representantes do empresariado apontam como outro motivo do desinteresse a falta de palanques consistentes que garanta a melhora da performance de Marina nos Estados. Embora o PV seja o partido que mais lançou candidatos para governos estaduais -  11 no total - apenas dois deles conseguiram superar a barreira de 1% dos votos, segundo as últimas pesquisas.

“A opção de Marina em rejeitar alianças com outros partidos compromete seu desempenho nas urnas. As empresas preferem, neste momento, apostar nos candidatos com chances reais de vitória”, diz um representante da construção civil, setor que tradicionalmente despeja milhões na política em doações de campanha.

Apesar da dificuldade de arrecadação, o coordenador da campanha presidencial do PV garante que as principais atividades de campanha, como gravação de programas de TV, deslocamentos e impressão de material de divulgação, ocorrem normalmente. “Estamos trabalhando com uma disponibilidade de recursos apertada nesse momento, mas estamos bastante tranqüilos e seguros de que iremos captar tudo que imaginávamos”, relata.

Sobre as dificuldades enfrentadas por Marina nas pesquisas, Capobianco avalia que o problema é compartilhado com os outros candidatos. Ele investe na versão de que os adversários Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PT) também estacionaram nas pesquisas de intenção de voto. “Muitos especialistas falam que essa é uma campanha morna, diferente de outras que ocorrem no Brasil. Nosso maior problema é o desconhecimento. As pessoas ainda não conhecem Marina e não conhecem suas propostas. Mas estamos trabalhando para que isso ocorra e temos uma expectativa que o ponteiro vai mexer e criar um cenário mais positivo para arrecada recursos”.

Plano

Além de Marina, o candidato ao governo do Rio, Fernando Gabeira, admite que enfrenta dificuldades de arrecadação nessa primeira fase de campanha. Ele analisa, porém, que a crise é reflexo do baixo interesse da população pela corrida estadual até agora. “A eleição está apenas no início. À medida que a eleição de aproxima, doadores e eleitores passam a se interessar mais pelo pleito. Só agora os partidos iniciaram a emissão dos recibos e a abertura do CNPJ para receber recursos. Só daqui vinte dias será possível avaliar se há uma crise de arrecadação ou não”, argumenta Gabeira.

O problema de arrecadação, segundo o presidente nacional do PV, José Luiz Penna, não se restringe apenas às campanhas do partido. De acordo com ele, o desafio de arrecadar recursos aumentou em virtude da pressão popular por mais transparência nas campanhas para evitar o caixa 2.

“Com a pressão por transparência, as empresas estão mais expostas e se recusam a doar para qualquer que seja o partido ou candidato”, diz Penna. “O mesmo ocorre com os políticos, que receiam serem taxados como representantes da indústria da bala ou qualquer outra atividade polêmica”, completa.

A campanha de Marina tem recusado doações da indústria armamentista e de empresas poluidoras e responsáveis por ações de desmatamento, segundo Alfredo Sirkis, presidente do PV do Rio e auxiliar da campanha de Marina. “É uma orientação do partido e todos os candidatos estão cumprindo”, afirma ele.

A dificuldade de arrecadação do PV ajudou a alimentar na sigla o discurso em favor do financiamento público de campanha. “Quando sobram apenas os grandes doadores, com bancos e empreiteiras, falta espaço para que outros candidatos apresentem suas plataformas para a sociedade. Algumas dessas empresas estão interessadas apenas em fazer negócios com o governo e não se comprometem com consciência ambiental e agenda programática”, diz o candidato do partido ao Senado por São Paulo, Ricardo Young.

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