Marina Silva foi colega de quarto de Dilma em 1976

Senadora foi aspirante a freira ao lado de homônima de petista, mas saiu por 'não ter vocação'. O iG visitou lugar onde ela viveu

Raphael Gomide, enviado especial ao Acre |

Muita gente não sabe, mas Dilma foi amiga e dividiu o quarto com Marina Silva e as dúvidas sobre uma possível carreira religiosa das duas, por quase um ano, em 1976. A amizade nasceu na Congregação das Irmãs Servas de Maria Reparadoras, em Rio Branco (AC), depois de Marina sair do Seringal Bagaço (a 70km de Rio Branco) para estudar na cidade, com o intuito de ser freira.



Dilma Alves Omar era uma moça de 19 anos de Rio Branco, 12 irmãos, que também queria ser da Igreja e estava em seu segundo ano na casa das religiosas, junto com Valdenice Carvalho. Nenhuma das três seguiria adiante.

A companheira de quarto tinha o mesmo prenome da hoje adversária de Marina na disputa pela presidência da República, Dilma Vana Rousseff (PT). Dez anos mais velha, nessa época a ex-ministra da Casa Civil já tinha passado três anos presa (entre 1970 e 1972) por sua militância na Colina (Comando de Libertação Nacional) e na VAR Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), organizações de luta armada contra o Regime Militar. Em julho de 1977, quando Marina deixou a ordem religiosa, Dilma Rousseff tinha uma bebê de quatro meses e acabava a faculdade de Economia, no Rio Grande do Sul, para onde se mudara depois de sair da prisão.

No governo Lula, Dilma Rousseff foi uma das principais responsáveis pelo enfraquecimento e desgaste político da então ministra do Meio Ambiente, até sua saída, em maio de 2008.

Do seringal ao convento

Maria Osmarina da Silva, a Marina Silva, chegou à casa das irmãs em 19 de fevereiro de 1976, 11 dias depois de completar 18 anos. Tinha apenas a quinta série, feita em supletivo. Morando na floresta, trabalhando no seringal com a família e sem ir à escola, era analfabeta até os 16. “Não tinha escola nem perto nem longe do seringal”, disse seu pai, Pedro Augusto da Silva.

Já perdera a mãe Maria Augusta da Silva, de aneurisma, e três irmãos, para as doenças da mata, como conta o Livro de Registro das Aspirantes a freira da congregação, a que o iG teve acesso, na quarta-feira. “Possui oito irmãos vivos e três falecidos.”

Em texto escrito a mão, em duas caligrafias distintas, a passagem de Marina pela ampla casa de oito quartos é registrada em 15 linhas, que ocupam menos de meia página do caderno pautado com dados a partir de 1971.

“É a primeira vez que vive com as irmãs”, afirma o documento, guardado no arquivo da entidade. O registro da senadora é um dos poucos em que não há fotografia 3 x 4. A irmã Eva Gomes, que recebeu a reportagem, buscou mas não encontrou outras fotos dela, nem em grupo.

No período de um ano e cinco meses em que ficou lá, Marina ocupava uma das três camas do quarto 07, de cerca de 25 metros quadrados ao final de um amplo corredor de paredes verde-claras que liga a sala aos quartos das aspirantes. O cômodo mantém a decoração: alguns dos móveis simples de madeira e até as colchas daquela época.

Raphael Gomide, do iG Rio de Janeiro
Irmã Eva caminha pelo jardim onde Marina Silva costumava passar seus dias no convento, quando era aspirante a freira, no Acre, na década de 70

Contemplação no jardim

O casarão com varandas é amplo e fresco nos dias de brisa da incomum “friagem” (período de queda de temperatura) da equatorial Rio Branco. Tem oito quartos – para quatro moradoras e visitantes –, cozinha e copa espaçosas e um grande terreno gramado, com seringueiras e um pomar com pés de enormes laranjas e de cupuaçu. Era o seu canto favorito. “Ela era muito voltada à contemplação, gostava de ficar no quintal, junto às árvores, talvez um ambiente parecido com aquele em que vivia antes”, diz a irmã Eva, repetindo relatos.

O restante do tempo dividia entre as aulas no Instituto Imaculada Conceição – hoje com cerca de 700 alunos e ainda mantido pela ordem – e os estudos religiosos. “Ela entrou para a família religiosa com o intuito de ser irmã, mas chegou o momento em que não se encaixou e, depois de conversas, decidiu sair. A pessoa entra, conhece a estrutura e o jeito de viver, mas às vezes não se encaixa, é comum. É uma vida muito rigorosa, difícil. Hoje ela tem outra religião [evangélica], mas tem muita estima pelas irmãs, por D. Moacyr (arcebispo de Porto Velho, RO, também da ordem). Essa passagem dela contribuiu na formação dela”, opina irmã Eva.

As Irmãs Servas de Maria Reparadoras tiveram origem na Itália, em 1900, voltada a ajudar e educar crianças órfãs. Chegou em 1921 ao Brasil e se instalou em Sena Madureira (AC). É da corrente progressista da Igreja Católica e atua na educação, saúde e contra violações de direitos humanos. “Uma moça sem ligação com educação não fica. Talvez tenha inspirado Marina, depois professora, não sei o que ela pensa disso, mas acho que influenciou nas suas opções”, disse irmã Eva, que não deve votar na ex-companheira. “Não fiz a opção ainda. Talvez a opção seja outra.”

Os sinais da saúde frágil já apareciam, mostra o livro. “Em 29/7/76, estando com gripe acompanhada de tosse, foi consultada pelo Dr. Silvestre; este solicitou uma radiografia dos campos pulmonares, a qual foi tirada no mesmo dia. Resultado: normal.”

Em julho de 1977, Marina desistiu da vida religiosa. “A própria candidata disse não ter vocação” é a anotação do livro. O pai, Pedro, tem outra versão. “Ela queria emprego para ajudar nossa família, mas lá o dinheiro fica na comunidade. Aí desistiu.” A companheira Dilma também não seguiu no convento. Segundo o livro, ela “não preenchia os requisitos para a vida religiosa”.

A irmã Maria Juliana de Souza, que aos 98 anos continua a cuidar das crianças do Instituto Imaculada Conceição, convivia com Marina na escola, mas afirmou que ela era discreta e conversava pouco. “Ela veio com a intenção de ser freira e ficou uma temporada. Depois foi professora aqui. Era uma criatura normal, nada de extraordinário, mas uma menina inteligente”, disse.

A pedagoga Jorgete Miguéis, hoje diretora da escola, lembra-se bem da jovem professora da 8ª série, em 1984. “A gente a admirava pela inteligência. Ela explicava muito bem. Não me esqueço da aula sobre feudalismo: ela falava e desenhava no quadro. Lembro bem dessa aula até hoje. Só falava em ‘feudos’...”, contou. “Ela era exigente. Todo mundo era bem comportado, ninguém bagunçava na aula dela”, ri ela, eleitora convicta de Marina.

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