Marina foge de rótulos em entrevista à TV

Candidata do PV à Presidência nega papel de opositora e rejeita ser 'inimiga' do agreonegócio, das petroleiras e das hidrelétricas

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Contraponto, mas sem oposição. Durante cerca de uma hora e meia de entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, a candidata do PV à Presidência, Marina Silva, tentou pontuar os problemas dos últimos 16 anos de governos do PSDB e PT e ao mesmo tempo fugir do rótulo de opositora e “inimiga” de questões como exploração de petróleo, agronegócio, hidrelétricas, Irã, homossexualidade e evolucionismo.

AE/MONICA ALVES
A pré-candidata à Presidência pelo PV, durante entrevista

“Não quero trabalhar com rótulos porque eles acabam reduzindo as coisas. Quando se diz que é oposição parece que está contra tudo. Estamos à frente, nem à direita nem à esquerda”, disse ela, ao responder sobre se faria oposição ao governo Lula, do qual foi ministra do Meio Ambiente, durante a campanha. A estratégia de se colocar como opção sem representar a ruptura foi usada durante quase toda a entrevista, a primeira de uma série que o programa fará com os presidenciáveis nas duas próximas semanas.

Mais de uma vez ela afirmou que os avanços obtidos nas administrações anteriores serão mantidos, mas não em um caminho “linear”. Ela evitou fazer críticas diretas ao presidente Lula, disse ser legítimo que ele participe da campanha de Dilma Rousseff – “desde que observe a legislação” – e voltou a dizer que saiu do PT, após 30 anos, porque não acreditava que o partido estivesse comprometido com a “transformação” necessária nas áreas da educação e no processo de desenvolvimento de uma matriz energética limpa. “Pelo processo normal, não vamos conseguir mudar isso”, disse ela, ao citar o fato de que quase a metade das crianças de baixa renda do País não consegue terminar sequer a oitava série.

Em crítica indireta aos dois últimos presidentes, disse que “um sociólogo não conseguiu fazer a reforma política e um operário não realizou a reforma trabalhista”, mas prometeu dialogar “com o que tem de melhor do PT, do PSDB, do PV” e da sociedade civil. Mais à frente, porém, disse que nenhum partido está imune a “questões éticas”.

Energia

Ao falar sobre geração de energia, um dos temas mais abordados por ela durante a entrevista, admitiu “o petróleo é ainda um mal necessário” e defendeu a exploração do óleo em águas profundas, caso do pré-sal. Disse, porém, que o acidente com uma plataforma petrolífera no Golfo do México, nos EUA, deva servir de alerta para o País. “Não temos como abrir mão dessa fonte de geração de energia”, disse ela, que defendeu, em outros momentos, a geração de energia segura e limpa.

Questionada sobre quais alternativas ela colocaria sobre projetos como a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, um dos maiores empreendimentos para geração de energia elétrica do governo federal e já criticado por ela, disse não ser contra esse tipo de energia, mas à forma como o projeto foi desenvolvido. Segundo ela, Belo Monte está na agenda há 20 anos, e a licença ambiental, recentemente concedida pelo Ibama, não levou em conta problemas sociais, ambientais, os prejuízos que a usina causará às populações indígenas da região.

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Marina Silva na entrevista ao Roda Viva, da Cultura
Ela citou o exemplo do complexo hidrelétrico do rio Madeira, em Rondônia, que teve a construção autorizada sob sua gestão no ministéiro após ser levada em conta a solução de problemas relacionados a mercúrio, malária e mortandade de peixes. “Quem ia salvar a pátria eram as usinas do rio Madeira, agora é Belo Monte. Daqui a pouco vai ser outro”, ironizou a candidata, para quem a questão denota falta de planejamento para o setor, que, disse ela, há 16 anos vive sob iminência de um “apagão” – numa crítica indireta à adversária Dilma Rousseff (PT), ex-ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, que coordena o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) do governo federal.

Em relação ao projeto de partilha dos recursos provenientes dos royalties do petróleo aprovado no Congresso, que prevê a distribuição de verbas para todos os Estados da federação, em vez de beneficiar apenas Estados produtores, a candidata criticou somente o fato de que a questão tenha sido discutida no período pré-eleitoral, com congressistas dando “lances em favor de sua base eleitoral”. A solução, segundo Marina, seria adiar o debate, para evitar “distorções”. Sobre a questão, disse que os Estados produtores têm uma “lógica que não pode ser quebrada”, mas defendeu, ao mesmo tempo, que seja levado em contado o benefício para todo o País, já que a exploração não acontece no continente, e sim nas águas – áreas, portanto, pertencentes à União.

Incômodo

Durante a entrevista, Marina demonstrou desconforto ao negar que defenda o ensino do criacionismo nas escolas públicas. Queixou-se por já ter respondido às questões inúmeras vezes, e negou que em algum momento tenha feito tal proposta. Defendeu que pessoas que constituem vidas e patrimônio juntas não podem ser privadas de benefícios como planos de saúde conjunto, mas voltou a dizer que pessoalmente é contra o casamento entre homossexuais. Sobre o aborto, reiterou que é uma questão “complexa” que deve ser discutida por meio de plebiscito.

A senadora tentou afastar também o rótulo de inimiga do agronegócio ao dizer que o setor é “fundamental” para a economia brasileira, mas disse que o governo não pode ser complacente ou oferecer subsídios a quem não faz o “dever de casa”. Perguntada, porém, sobre se aceitaria doação de recursos para a campanha provenientes de empresas que não se adequam a essa filosofia, disse apenas que fará um processo “transparente” e que espera receber “pouco de muitos”.

Irã e Banco Central

Na entrevista, ela defendeu também o diálogo com países como Cuba e Irã desde que a mediação não se transforme em “espaço de audiência” para países que cerceiam as liberdades políticas e individuais.
Ao ser questionada sobre política econômica, disse que, no lugar do presidente, sancionaria o aumento de 7,7% aos aposentados já aprovado pelo Congresso, mas que vetaria o fim do fator previdenciário. Sobre a autonomia do Banco Central, disse que ela não precisa ser institucionalizada, como aconteceu na Argentina, onde discordâncias em relação à política econômica causaram atritos com as autoridades locais.

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