Marina agora tentará capitalizar prestígio conquistado na eleição

PV fala em aproximação com o PSDB, mas senadora tende a optar pela neutralidade

Rodrigo Rodrigues, enviado ao Acre |

Bem antes de o resultado das urnas ser conhecido, o Partido Verde já discutia o futuro político da senadora Marina Silva (AC). A ex-petista, que surpreendeu ao sair da eleição com quase 20% dos votos válidos, ajudando a levar José Serra (PSDB) ao segundo turno contra Dilma Rousseff (PT), perde em 1º de janeiro sua cadeira de senadora. Ainda assim, o plano traçado por ela e por seu partido é o de aproveitar o resultado da eleição para ganhar projeção na cena política nacional.

Amigos próximos da senadora investem na tese de que ela sairá desta eleição com um elevado cacife político. Embora a aliança entre PV e tucanos seja dada como praticamente neste segundo turno, prevalecia nos últimos dias a versão de que Marina permanecerá neutra justamente para não desperdiçar o capital político acumulado nas urnas.

O PV agora terá o desafio de manter Marina em evidência até o pleito de 2014 ou mesmo 2012, já que nem a hipótese de ela concorrer a uma prefeitura de capital está descartada. Alguns integrantes do partido defendem que ela assuma a presidência do partido no próximo período, outros planejam a presidência de uma ONG parceira para manter a candidata na crista da onda das questões ambientais. A hipótese de criação de uma fundação ambiental própria para as questões ambientais também não é descartada.

“O entendimento de grande parte do partido é que Marina seja catalisadora dos anseios da sociedade civil organizada, se diferenciando do projeto petista. Independente do segundo turno ou não, a postura é se manter neutro e rejeitar qualquer possibilidade de aproximação com o futuro governo”, disse um dos principais candidatos do Partido à Câmara dos Deputados.

“A única coisa que se tem de concreto é que Marina deve descansar alguns meses após a apuração, já que a campanha foi extremamente desgastante para uma pessoa de saúde tão frágil como ela”, completou.

A avaliação da senadora verde Marina é que a aliança formal com Serra a deixaria amarrada demais ao tucano, prejudicando pretensões eleitorais futuras. Depois de uma tensa campanha com críticas ferrenhas ao modelo econômico do PSDB, a equipe da senadora também prefere não soar incoerente. O argumento é que alinhar-se aos tucanos e democratas seria negar todas as teses defendidas no primeiro turno.

AE
A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, vota na sede do Incra, no Acre, neste domingo
Embora não esconda de ninguém o carinho que tem pelo PT, onde militou durante 30 anos e adquiriu toda a experiência política que tem, Marina também tem descartado internamente a aproximação formal com o partido, apesar do assédio liderado pelos irmãos Tião e Jorge Viana (PT-AC), seus colegas de militância no Acre. Ao mesmo tempo, circula a tese de que os irmãos Viana considerariam traição aproximação a aproximação da senadora com o tucanato.

Bilhete azul

Independentemente do apoio formal de Marina, o PV deve embarcar em peso no barco tucano. O presidente nacional do PV, José Luiz Penna, admitiu ao iG na última quinta-feira que dificilmente a Executiva Nacional do partido se manterá neutra. “O PV deve sair muito forte dessas eleições. Desprezar esse capital acumulado seria desperdício. É a chance que o partido tem de impor algumas teses consideradas importantes para o meio ambiente, mas desprezadas por Dilma e Serra durante a campanha”, diz Penna.

Apoiado em Marina, o PV deve fazer sua maior bancada de deputados este ano, conquistando até 19 cadeiras na Câmara, patamar nunca antes atingido pelo partido. A expansão da bancada deve fragmentar a decisão do partido e qualquer decisão deve passar pela Executiva Nacional, composta por 50 integrantes. A maioria deles é a favor da manutenção do casamento que PV e PSDB já têm em São Paulo, onde os verdes ocupam cargo na administração do prefeito Gilberto Kassab (DEM) e do governador Alberto Goldman (PSDB).

O sinal mais claro de que a parceria entre tucanos e verdes deve prevalecer aconteceu ainda durante a campanha. Após a retirada da candidatura ao Senado de Orestes Quércia (PMDB) por motivos de saúde, o tucano Aloysio Nunes, eleito para o Senado por São Paulo, tratou de negociar uma aliança branca com o verde Ricardo Young, a fim de minimizar o avanço da aliança entre PT e PC do B. Assim como ele, diversos candidatos proporcionais do PV seguiram por essa linha, mesmo os caciques do partido.

Na avaliação do presidente estadual do PV em São Paulo, Maurício Brusadin, o PV deve se dividir na escolha das posições a partir desta segunda. Além dos que defendem a aliança com os tucanos, há uma parte grande do partido que defende a aliança com Dilma. As avaliações internas do partido indicam que pelo menos 30% dos votos de Marina devem migrar para Dilma em caso de segundo turno.

Brusadin afirma ainda que a eleição comprovou a viabilidade eleitoral de Marina, inclusive na disputa pelo Palácio do Planalto. “Com a ausência de Lula nos próximos pleitos, Marina é a única liderança política que veio de baixo e tem identificação com os pobres desse país. O resultado que ela atingirá nas urnas neste ano é maior de tudo aquilo que o PV sonhou para essas eleições. Independente do resultado, ela já emergiu com a grande liderança nacional para o próximo pleito”, disse.

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