Mais uma família Silva

Criado no seringal, pai de Marina Silva diz que ninguém ouvia falar de política e carreira da filha surpreendeu

Rafael Gomide, enviado especial ao Acre |

Arleir Silva, 44 anos, e único irmão homem de Marina Silva explica como chegar a sua casa, em Vila Acre, um bairro no subúrbio de Rio Branco: “ao lado do viveiro Floresta, entra em uma rua de asfalto, é a primeira casa na esquina à esquerda, com uma área de lazer e dois pés de jambo à direita.”

Professor de auto-escola, motorista de ônibus, servente de pedreiro, seringueiro são algumas de suas atividades, segundo ele mesmo. “Faço tudo.” Dos oito filhos de Pedro Augusto da Silva e Maria Augusta da Silva nenhum tem cargo com vínculo do Estado. Duas irmãs ainda vivem na área em que nasceram, Seringal Bagaço, que de seringal hoje só mantém o nome. A região foi devastada, deu lugar a pastagens para gado, e a floresta fica tão distante que Sr. Pedro já não pode passear por lá, como gostaria.

A filha mais velha, Deusimar, vai uma vez por semana a Rio Branco para vender verduras e legumes, produto de seu trabalho no campo. É ela que tem maior ascendência sobre os irmãos, mais até que a senadora. “Ela está mais perto”, explica Eudes, sobrinho de Marina.

A senadora mantém fortes vínculos e consulta sempre a família para decisões complexas, como a saída do PT. Na ocasião, fez uma reunião com o pai, irmãos e sobrinhos mais velhos para conversar sobre o assunto. “Não foi aceito o trabalho dela, tem de sair”, disse o pai. “Aconselho até hoje. O conselho que dou é para ser firme. A gente vê escândalo... Nem precisa, ela já está madura.”

A família se orgulha da irmã, mas como qualquer um se orgulha de ver alguém que trabalha bem, explica o irmão, sem deslumbramentos.

Todos nasceram no seringal, e a escola, transformadora na vida de Marina, não esteve disponível na floresta. “Eles são todos mais ou menos parecidos: magros, morenos, sérios e determinados. Se criaram cortando seringal. Têm formação moral sólida e muita disposição para trabalhar, é uma família com orgulho do trabalho”, define Toinho Alves, amigo de 30 anos.

“Cada um sobrevive da maneira correta. Não é humildade de aparência, não, a gente é assim mesmo”, disse Arleir.

nullSr. Pedro tem 82 anos, mas já conta 83, a completar em junho. Parece ao menos 10 anos mais novo, com seus cabelos só levemente grisalhos. Fisicamente forte, sofre agora de uma dor no joelho que incomoda principalmente nos dias de mudança de tempo, como na semana passada, quando esfriou em Rio Branco. É fruto da gota. Aposentado, deixou o corte da seringueira e a floresta há 32 anos e vive desde então na cidade.

“Eu estou há quase 30 anos sem trabalho, quem me sustenta é ela. Sou mais dependente dela que ela foi de mim. Ela reformou minha casa, é quem me sustenta. Muito justo, só que ela está me sustentando há mais tempo que eu a sustentei”, diz o cearense bem-humorado. O neto Eudes corrige: “Todos os filhos ajudam, na medida da possibilidade”, diz, para a concordância do ancião.

Sr. Pedro chegou ao Acre em 1946, fugindo do Ceará sem água. Trocou pela floresta, onde acordava às 4h, caminhava por 40 minutos até o seringal e trabalhava com a família até as 18h, quando ainda tinha de defumar os 26 litros de látex diários por 2h. Mas nunca reclamou, nem da morte de três filhos e da mulher, Maria Augusta. “[A morte e doença dos filhos] no seringal é coisa que nego tinha que suportar. Falavam: ‘Sai dessa colocação [lugar onde fica a casa no seringal], que está azarada!’ Que nada, o Deus é o mesmo da outra colocação para onde eu for.”

Ele demorou a acreditar quando a filha virou política. “Foi uma surpresa, porque fazia trabalho em comunidades. Não tinha essa pretensão [de ter uma filha política], nunca imaginamos isso. Ninguém ouvia falar em política no seringal. Nunca vi um vereador, jamais um deputado no Ceará. No seringal ninguém trata de política, não se conversa sobre isso. Depois até foto com Lula tirei. Veio de uma situação humilde, quase de pertinho da gente”, disse.

Mas ele tem uma mágoa da política. Em algumas campanhas no início da carreira de Marina, opositores falavam ter visto sua mãe – morta quando a senadora tinha 15 anos – pedindo esmola para insinuar que ela não ligava para a família. “Eu nunca vi. [Diziam isso] Para ganhar o quê? Morreu aos 31 anos, de doença estranha, que ninguém sabe o que foi. Passou mal, trouxe para Rio Branco, ficou roxa, deram injeção, e faleceu no outro dia. Nunca mais me casei.”

Para ele e a família, diz, a vida não mudará muito se a filha se eleger presidente. “Muda como quando foi ministra, senadora. Ela sendo presidente fica na mesma. Não muda nada para mim. A gente já é acostumado há muitos anos, ninguém estranha mais.”

Sr. Pedro vai votar mais uma vez em outubro na filha. “Gosto muito de votar. Desde que cheguei à cidade, antes de Marina se candidatar. No seringal, nunca votei. Meus filhos sempre me obedecem. Eu digo: vamos votar em fulano, todos fazem igual.”


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