Lula escolhe cenário histórico para estreia na campanha de Dilma

Escolhido para o primeiro comício da dupla, trajeto da Candelária à Cinelândia marcou várias manifestações democráticas no País

Andréia Sadi, iG Brasília |

O cenário escolhido para a estreia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no palanque da candidata petista ao Planalto, Dilma Rousseff, já foi palco de grandes eventos políticos no Rio de Janeiro. Uma passeata sai da Candelária, percorre a avenida RIo Branco e chega à Candelária, onde ocorrerá um comício na noite desta sexta-feira. Nesse trajeto foram protagonizadas algumas das maiores manifestações democráticas na história do País.

Foi esse o caminho percorrido por milhares de pessoas que se reuniram em 16 de fevereiro de 1984, para a primeira passeata das Diretas Já, pelo direito de votar para presidente. “É quase um lugar místico. Por ser no centro do Rio, tem grande apoio popular, é um local de passagem de milhares todos os dias. É simbólico em termos políticos”, disse ao iG o cientista político Humberto Dantas, consultor do Voto Consciente.

O roteiro foi usado diversas vezes na luta pelas Diretas Já, que começou em 1983 e ganhou força no ano seguinte. Os manifestantes voltaram ao local em 21 de março pelo apoio à votação da proposta de Emenda Constitucional Dante de Oliveira no Congresso, que foi derrotada. Mas, em 10 de abril, em frente à Igreja da Candelária, ocorreu a maior manifestação popular da história do Brasil, com 1 milhão de pessoas. Na ocasião, a musa das Diretas, a cantora Fafá de Belém, conseguiu fazer com que o autor da emenda subisse ao palanque. Ele havia sido barrado pela segurança, mas Fafá o apresentou como membro do seu grupo musical.

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Policiais tentam conter manifestação de estudantes na Avenida Presidente Vargas, em 9 de agosto de 1968; ao fundo a Igreja da Candelária
Foi na Cinelândia, em 1989, que Leonel Brizola, então candidato à Presidência pelo PDT, fez um comício com cerca de 500 mil pessoas. Brizola liderava as pesquisas, mas acabou em terceiro lugar na eleição. Perdeu para Fernando Collor de Mello, que derrotou no segundo turno o presidente Lula.

“A Candelária consagrou o comício das Diretas. Por muito tempo, lá era a ‘Brizolândia’, onde se reunia um pessoal fanático pelo Brizola”, relembrou o historiador Marco Antonio Villa, da Ufscar. Dilma deu início a sua carreira política no PDT de Brizola, um dos fundadores do partido. Foi só em 2000 que a ex-ministra entrou no PT.

Recentemente, a Rio Branco foi palco de uma caminhada pelos royalties do petróleo organizada por Cabral. A manifestação seguiu o mesmo percurso que será percorrido hoje e encerrado com um ato na Cinelândia.

Estratégia

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A Passeata dos Cem Mil, ocorrida em 26 de junho de 1968, na região da Cinelândia, no centro do Rio
A aposta em grandes comícios é um dos principais pontos da estratégia traçada pela campanha petista. Antes da estreia no horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, em agosto, Lula deve acompanhar Dilma em eventos do gênero no Paraná e em São Paulo. “Se o presidente e Dilma subirem no palanque no Anhangabaú, em São Paulo, fica clara a intenção de remeter a população aos tempos da luta pela democracia”, avaliou Dantas.

Lula participou, em janeiro de 1984, de comício pelas Diretas Já na Praça da Sé, região central de São Paulo. Em Curitiba, a ideia é que o presidente leve a candidata para a região da Boca Maldita, no centro da cidade, onde em janeiro de 1984 o movimento nacional da campanha pelas Diretas Já começou.

Embora tenha sido palco de diversas manifestações democráticas nos anos 80, a Candelária também deu abrigo a outros movimentos. Em abril de 1964, a Marcha de Familia com Deus pela Liberdade reuniu os que comemoravam a queda do então presidente João Goulart. O movimento foi marcado por uma série de passeatas de setores conservadores da sociedade contra Jango.

Em junho de 1968, a passeata dos Cem Mil contra a ditadura militar tomou conta do trajeto. A manifestação contou com a participação de intelectuais, estudantes e artistas e reuniu 100 mil pessoas, o número que dá nome ao ato. Foi em frente à igreja da Candelária que o movimento parou para ouvir o líder estudantil Vladimir Pereira cobrar o fim do regime e violência policial.

A passeata durou cerca de três horas e terminou em frente à Assembléia Legislativa. Meses depois, o governo baixou o AI-5, intensificando a represessão. Entre os participantes da caminhada estavam, entre outras pessoas, os músicos Caetano Veloso e Chico Buarque,  e o deputado federal do PV, Fernando Gabeira.

Mas é num massacre de jovens que reside boa parte da memória recente desse ponto do centro do Rio. Trata-se da Chacina da Candelária, ocorrida em julho de 1993. “Hoje, a Candelária remete ao massacre. As pessoas associam a história do local ao triste episódio”, disse Villa.

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