`Lula é responsável pelo insucesso de Dilma¿, diz Roberto Jefferson

Presidente nacional do PTB diz que precisou 'engolir sapo' para apoiar José Serra, mas que Dilma é 'um sargentão que bota o dedo no nariz de todo mundo'

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro |

Depois de confirmar o apoio ao candidato do PSDB à Presidência , José Serra, o presidente nacional do PTB, deputado cassado Roberto Jefferson, disse que tomou a decisão depois de “engolir sapo” e para não ser “incompreendido”. Jefferson diz que não perdoa o “constrangimento” com que Serra disse ter recebido seu apoio, mas afirma que preferiu manter a aliança – selada e rompida no primeiro turno – em troca de um único desejo: “Quero que o Serra derrote Lula e o PT. Só isso”.

Sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do PTB diz que ele “plantou ódio” e “desafiou as forças de Deus”, o que o teria transformado no responsável pelo “insucesso que Dilma está encontrando agora”. Embora classifique a presidenciável do PT, Dilma Rousseff, como uma “burocrata honrada e séria”, o petebista afirmou que a ex-ministra é “um sargentão que grita e bota o dedo no nariz de todo mundo”.

Para Jefferson, além do presidente Lula, foram as declarações de Dilma e do PT sobre o aborto que mudaram os rumos da campanha neste segundo turno. Embora comemore a ascensão do candidato tucano apontada nas últimas pesquisas, o ex-deputado diz ter medo da “digressão fundamentalista” que toma conta dos debates porque “gera dependência e provoca dificuldade” no futuro, seja quem for o vencedor nas urnas.

A seguir, Roberto Jefferson aprofunda a parceria recém-retomada com Serra e fala sobre as mágoas que mantém com o PT, partido do qual foi aliado até eclodir o escândalo do mensalão – do qual foi pivô – e ver seu mandato cassado por “quebra de decoro” e seus direitos políticos suspensos até 2015.

iG - O senhor postou no twitter que foi convencido por companheiros do partido a manter o apoio a Serra...
Roberto Jefferson – Foi para não criar conflito. Vamos engolir o sapo e deixar como está. Senão, seremos incompreendidos.

iG - Que ações do Serra provocaram descontentamento?
RJ –
Essencialmente ter nos tratado com constrangimento. Ele disse “recebo constrangido o apoio do PTB”. Foi a pior coisa do mundo, o que fez o trem descarrilar. Nos tratou como pessoas que você tem que tapar o nariz para receber o apoio.

iG – Como o senhor recebeu essa declaração?
RJ –
Não quero entrar nisso. Achei que o constrangimento foi ruim. Aquele negócio de dizer que eu nunca fiz pedido espúrio a ele... Ele tinha que ter dito a verdade. Nunca pedi nada, nem legal nem ilegal, quando ele era ministro. Ao afirmar que nunca fiz nenhum pedido espúrio, ele não está me elogiando. É a mesma coisa que eu chegar de manhã cedo virar para minha mulher e dizer “hoje você não está tão feia não, hein! Botou roupa preta, está mais magra...”. É um elogio destrutivo.

iG – O senhor ainda está chateado?
RJ -
Ele podia ter dito a verdade: “Eu não conheço Roberto Jefferson, não sei se ele é do bem ou do mal. Quem o trouxe para minha campanha foi o Geraldo Alckmin, que é amigo do peito dele. Então, perguntem ao Geraldo, eu não tenho como responder”.

iG - E o que o senhor espera do Serra? Caso ele vença, o PTB vai querer cargos?
RJ –
Eu te falo de coração: quero que ele derrote o PT. Só isso. Que derrote o PT e o Lula para deixar o País democraticamente aberto, acabar com esse negócio que estava havendo aí... Lulismo, culto à personalidade. Sobre cargos, estou fora. Não vou tratar desse assunto.

iG – E como será sua participação na campanha?
RJ –
O Sérgio Guerra (presidente do PSDB) quer conversar comigo, vamos ver o que ele vai pedir de mim. A todos os companheiros de partido que me consultam eu oriento a pegarem firme na campanha.

iG – E a quê o senhor está disposto?
RJ –
Não sei... Tenho de ter cuidado, porque sou polêmico. Quero saber se agrego ou se vou ser tratado com preconceito. Vou continuar escrevendo no twitter a favor da candidatura do Serra, como venho fazendo. Vamos ver se ele vai querer usar minha imagem, se associar em evento público comigo... Eu não tenho veleidade de querer aparecer para faturar prestígio.

iG - E se a Dilma vencer, como se posiciona o PTB?
RJ –
Eu, pelo menos, me posicionarei ao lado do Aécio (Neves, senador tucano eleito por Minas), com o Alckmin. Essa é minha turma.

iG – Pesquisas recentes mostram avanços do candidato José Serra?
RJ –
O Serra ganha a eleição. Não há dúvida. A virada de expectativa é mortal.

iG – A polêmica em torno do tema aborto foi decisiva?
RJ –
Não são os escândalos na Casa Civil com a Erenice Guerra que abalam a campanha da Dilma. É a Igreja. Virou a eleição. Esse trabalho da Igreja Católica já quase me derrotou, quando fui o relator do projeto da Marta Suplicy (PT) sobre o casamento gay. Os bispos da minha região colaram uma lista na porta das igrejas com nomes de políticos nos quais os católicos não deveriam votar. Caí de 60 mil votos para 30 mil na eleição subsequente. Estou vendo isso de volta. Há 20 dias eu comecei a twittar sobre o assunto e o pessoal do PT me arrebentou de cacete “bandido, você está inventando”. Não estou não.

iG – E o que o senhor acha de questões religiosas pautarem o segundo turno?
RJ –
Tenho medo disso, não queria que nós tivéssemos essa digressão fundamentalista. Toda religião é intolerante.

iG – Mas Serra e Dilma tentam capitalizar em cima do tema...
RJ –
E isso é ruim. Quando você abre espaço para que essa ação fundamentalista se avulte, você gera uma dependência desse tipo de apoio e depois haverá dificuldades para ajustar isso.

iG – Dilma assinou um documento em que afirma que é contra o aborto...
RJ –
Desespero. Desespero. Não surte efeito mais. É a mesma coisa que você pegar um baterista e mandar tocar pistom, não tem embocadura de trompetista. Está habituada a bater baqueta, não adianta. Soa falso, vai ficar horrível. Tinha de ter sido no primeiro turno.

iG – O senhor publicou em seu blog que o Lula sumiu da campanha da Dilma e não respondeu a temas como aborto.
RJ –
Parece que Lula desafiou as forças de Deus. O Lula, com 80% de aprovação, se achou mais que Deus. Soberba. Achou que podia naqueles desabafos de palanque levar a campanha para onde quisesse e errou. Lula é responsável pelo insucesso que a campanha da Dilma está encontrando agora.

iG – Como o Lula errou, na avaliação do senhor?
RJ –
No ódio. Isso não é conduta de vencedor. Todo campeão é magnânimo, ele foi mesquinho, rancoroso. Troço pequeno. Voltou contra ele.

iG – O senhor, em março, afirmou que a Dilma seria a “Rubens Barrichello” desta campanha...
RJ –
E é verdade. Ela tem o melhor carro, os melhores patrocinadores, a melhor máquina, que é a máquina federal, e o melhor chefe de equipe que é o Lula. Mas ela tem vocação para Rubens Barrichello, não adianta.

iG – Como o senhor vê a Dilma?
RJ –
Ela é uma burocrata honrada, séria. Eu vejo a Dilma como uma mulher séria, ideológica... Só que é um sargentão, ela não tem nenhum sentimento de democracia. Nem tradição de respeitá-la. Ela grita com todo mundo, é de botar dedo no nariz de todo mundo.

iG – O senhor fala isso pela proximidade que ela tem com o ex-deputado José Dirceu, de quem o senhor é desafeto? O senhor acredita que se ela for eleita o Dirceu volta?
RJ –
O Dirceu voltaria com força total. Ele é o principal articulador desse movimento dentro do PT.

iG – E que problema o senhor vê nisso?
RJ –
É uma corrente muito antidemocrática, né? Censura à imprensa, avanço na presença do Estado na economia, né? Cada vez mais cercear o Estado reduzindo as liberdades individuais. Eu não gostaria de ver esse grupo no poder, não. É um grupo muito chavista, muito Evo Morales.

iG – Sobre a cassação do senhor. Ainda faz planos de participar de eleições?
RJ –
Minha cassação vai até 2015, como a eleição de 2016 é municipal, só posso voltar em 2018. Não sei para que cargo, tem muito tempo. Oito anos é quase uma década. Mas eu nunca me afastei, continuo na atividade política.

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