'Lula é fenômeno a ser analisado no futuro', diz Aécio

Em entrevista ao iG, ex-governador de Minas afaga presidente e defende uma 'agenda mínima' capaz de unir petistas e tucanos

Adriano Ceolin, enviado a Belo Horizonte |

nullCandidato ao Senado por Minas Gerais nas eleições deste ano, o ex-governador Aécio Neves (PSDB) investe no discurso sobre sua proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista concedida ao iG na última terça-feira, o tucano descreve o presidente é um "fenômeno" a ser analisado no futuro.

Embora reserve algumas críticas ao PT, Aécio defende a criação de uma "agenda mínima" que reúna a sigla adversaria e o PSDB após a ida às urnas em outubro.

Ao falar sobre os planos para o caso de vencer a eleição, Aécio diz prever uma boa interlocução com a oposição, mesmo que a petista Dilma Rousseff leve a melhor na eleição presidencial.

"Por mais que isso não possa ser bem compreendido por alguns companheiros, eu tenho muito afinidade com alguns setores do PT. Mais até que com alguns aliados que circunstancialmente possam estar ao nosso lado", diz Aécio. Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Aécio ao iG .

iG - Qual campanha está mais agradável de fazer, esta ou a de 2006?

Aécio Neves – Nesta campanha estou vivendo algo que nunca imaginei na vida que poderia viver. Que é você andar por Minas Gerais e, antes de dizer o que vai fazer e pedir o voto, você receber o agradecimento, o reconhecimento das pessoas. Então, isso para mim é algo único.

iG – E o que é mais difícil? Convencer o eleitor votar no Antonio Anastasia (candidato ao governo) ou no Serra?

Aécio – São duas coisas distintas. O Anastasia significa a continuidade de um projeto que deu certo em Minas Gerais. Serra é um outro tipo de convencimento. Porque também no plano nacional as pessoas vivem hoje - e é uma bobagem não reconhecer - e têm um sentimento de bem-estar. Têm um sentimento de que o Brasil está avançando. No caso do Serra, nós temos é que demonstrar que esse momento de crescimento, expansão da nossa economia, da melhoria dos indicadores sociais, não é fruto de uma administração apenas. É um processo que se inicia lá trás.

iG – Mas como o Serra pode fazer isso?

Aécio – Existem diferenças muito claras entre um e outro. O PT não avançou muito na qualificação da gestão do Estado. Ao contrário. O governo federal optou por construir a sua base muito em função do aumento do Estado. Cria-se um ministério aqui. Criam-se alguns milhares de cargos ali.

iG – Mas como desvincular a imagem que o presidente Lula tem do governo dele nessas críticas que o senhor faz?

Aécio - O presidente Lula é algo diferente. É um fenômeno para ser analisado no futuro. Porque ele independe do êxito do seu governo para ter uma grande avaliação por parte da população. Outro dia me perguntaram se eu faço alguma comparação por ter índices parecidos aqui em Minas. Eu dizia que é muito diferente. Porque o Lula por si só já é este fenômeno. Ele é a representação, no imaginário das pessoas, da ascensão social que qualquer cidadão gostaria de ter.

iG – O senhor sente afinidade com o Lula no sentido de fazer política? Não na forma de governar...

Aécio – Acho que em parte sim. Eu sou amigo do Lula. Tenho uma relação com o Lula que começa muito antes de ele imaginar ser presidente. Talvez ele próprio já imaginava, mas eu não imaginava que ele seria presidente. E eu tão pouco pensava em ser governador. Conheço ele deste a Constituinte. Lula era um reserva de luxo do meu time. Ele era um lateral esquerdo que só deixava entrar no segundo tempo. Tenho com ele uma relação de amizade. Lula é um sujeito que gosta da vida. Eu tenho essa afinidade com ele. É sujeito de bem. Acho que seu governo é falho em muitas coisas. Mais um governo do PT não faria bem ao País.

AE
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iG – O fato de, em 2008, o senhor ter costurado uma aliança com o PT e o PSB (para disputar a Prefeitura de Belo Horizonte), ter na sua chapa um segundo suplente do PSB, não dificulta para o eleitor ver quem é oposição?

Aécio – É uma questão que a legislação eleitoral tem de corrigir. No momento em que ela quebra a verticalização, ela permite que as alianças se construam diante da realidade regional. O PSB e o PDT estão conosco não porque eu os cooptei. Eles participam do nosso governo há oito anos. A incoerência maior seria agora, por uma imposição nacional, contrariarem as lideranças desses partidos.

iG – O PT nacional não fez isso com o PT de Minas, ao impor a aliança com o PMDB?

Aécio – No caso do PT, foi algo muito grave. Muito diferente do que ocorreu conosco. No nosso campo, as direções estaduais do partido livremente optaram por estar conosco. As direções nacionais respeitaram. No caso do PT, o partido tinha posição diferente, que era lançar uma candidatura, que era até legítimo. O que fizeram com o PT ( de Minas ) foi uma grande maldade. O que fizeram com o PT terá danos não apenas nesta eleição. Porque um partido político que representa um ideário, uma proposta. Então para aqueles que fizeram a intervenção no PT o objetivo foi alcançado. Foi o do tempo da televisão. Da mesma forma que foi dado para a Dilma.

iG – Se eleito, como o senhor pretende atuar no Senado para olhar 2014?

Aécio – Não faço política pensando em ganhar uma eleição agora como degrau futuro. Se eu tivesse essa obsessão pela Presidência, eu teria enfrentado essa disputa dentro do partido por muito mais tempo. Quem sabe até ganhando a disputa interna. Eu fui até o momento que deveria ir. No momento em que segmentos importantes do partido caminhavam numa outra direção. Optei por não ser um instrumento da discórdia, da divisão. Acho até que tive um gesto de generosidade. Estou muito confortável. Acho que o Congresso fraco só interessa ao poder Executivo. Temos de fazer uma profunda reforma política na largada do próximo governo.

iG – Seria acabar com a reeleição?

Aécio – Acho que não. A reeleição já está enraizada. Isso ( a ideia de acabar com a reeleição ) surgiu num determinado momento como moeda de troca. Eu sempre rejeitei muito isso. Você não acaba mais com a reeleição no Brasil.

iG – O presidente Lula e o PT focaram na estratégia de fazer uma bancada forte no Senado. O senhor não teme fazer parte de uma oposição menor do que ela já é, num eventual governo Dilma Rousseff?

Aécio – Digo para você com muita franqueza, por mais que isso não possa ser bem compreendido por alguns companheiros, eu tenho muito afinidade com alguns setores do PT. Mais até que com alguns aliados que circunstancialmente possam estar ao nosso lado. E acho que, até na reforma política, eu vou encontrar em setores importantes do PT uma interlocução que compreenda que é preciso que nós avancemos.

iG – É possível, no futuro, o PT e o PSDB juntos?

Aécio – Acho que nos vamos que viver algumas etapas para chegar até lá. Mas eu acho possível sim. A começar pela defesa de uma agenda comum. Se fosse candidato à Presidência da República estaria propondo uma agenda mínima em torno da qual nós teríamos compromisso de aprovação independentemente de quem vencesse. O PT e o PSDB sabem quais são os nossos gargalos.

iG – O senhor que a campanha se polarizou demais logo no inicio?

Aécio – O que separa o PT e o PSDB é o projeto de poder. Não é mais a visão do Estado brasileiro. Pode ser até que na campanha um puxe para cá e outro para lá. Mas na essência, enquanto governo, a diferença não é profunda. E cada vez vai ficando mais caro manter esse rol de alianças. Caro no que se refere aos espaços no governo, na forma destes grupos agirem. Acho que uma interlocução com o PT em torno de temas centrais, em torno de uma agenda mínima, seria muito saudável a vida brasileira. Se isso lá adiante vai se transformar numa aliança eleitoral é outra questão.

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