Ex-ministro lembra reportagens, comenta início de sua trajetória política e, no que tem de melhor, revela bastidores da Globo

Quase um quarto de século depois de ter trocado o jornalismo pela política, Hélio Costa mostra, em "Lembranças de um Tempo Fantástico", que não perdeu a embocadura conquistada como correspondente estrangeiro da TV Globo. Em seu livro de memórias dos tempos televisivos, as histórias desfiadas prendem a atenção do leitor, como faziam com o telespectador suas reportagens especiais que costumavam fechar o “Fantástico”.

Hélio Costa lembra coberturas que marcaram época, comenta o início de sua trajetória política e, no que o livro tem de melhor, revela bastidores da Globo.

A capa do livro de Hélico Costa, que será lançado hoje em São Paulo
Reprodução
A capa do livro de Hélico Costa, que será lançado hoje em São Paulo

A reconstrução de reportagens, no entanto, nem sempre funciona. Ao abordar, por exemplo, sua cobertura de maior repercussão – o caso do garoto americano, vítima de grave deficiência do sistema imunológico, que vivia dentro de uma bolha de plástico esterilizada – Hélio Costa pouco acrescenta ao que foi ao ar.

O maior problema do livro é a supervalorização de seu trabalho. Alguns casos demonstram apenas cabotinismo. Diz ele: “No fim de 1984, no auge da campanha pelas ‘Diretas Já’, eu fui responsável pelo apressamento da decisão de Tancredo em concordar com a eleição no Colégio Eleitoral”. O fato: ele entrevistou Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas, que lhe disse que aceitaria ser candidato também numa eleição indireta. Isso, segundo Hélio Costa, “mudou os rumos da campanha oposicionista”.

Em primeiro lugar, em fins de 1984 não havia mais Diretas Já – o movimento havia sido derrotado pelo Congresso em abril daquele ano. Em segundo, o mais importante: Tancredo Neves estava determinado a ser o candidato indireto desde antes da derrota da emenda no Congresso. Era ele que tinha chances reais, e não Ulysses. Ou seja, a entrevista de Hélio Costa pode ter rendido uma manchete na ocasião, mas esteve longe de mudar o rumo da história.

Em outros depoimentos, o político se sobrepõe ao jornalista: ele se recorda com orgulho de sua eleição como deputado constituinte em 1986, mas não registra que aquele pleito entrou para a história do Brasil como estelionato eleitoral, com a vitória avassaladora do PMDB provocada pela sobrevida artificial do Plano Cruzado – que acabou dias depois da votação.

Depois de inflacionar seu papel público, Hélio Costa compensa o leitor com boas narrativas sobre os poderosos da Globo. Um dos mais alentados capítulos é o que trata de Roberto Marinho. Nem todas as histórias são novas, mas algumas contribuem para compor o perfil do empresário, um homem capaz de importar uma máquina de frozen yogurt para servir convidados ou mandar fazer ferraduras com uma superborracha para permitir que um velho cavalo voltasse a andar – dois casos que passaram pela intermediação do autor. São histórias como essas, vividas longe das câmeras e dos palanques, que salvam o livro.

LEMBRANÇAS DE UM TEMPO FANTÁSTICO
Autor: Hélio Costa / Editora Saraiva - Selo Benvirá
2010 / 1ª edição / 262 páginas / R$ 34,90

* Oscar Pilagallo é jornalista e autor de A história do Brasil do Século 20, A Aventura do Dinheiro e Folha Explica Roberto Carlos, entre outros livros.

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