Indecisos escolhem candidatos na sorte e até no lixo

Eleitores que chegaram até o dia da decisão sem terem sido convencidos pela campanha se viram no último minuto

Carina Martins, iG São Paulo |

A aposentada Leila Maria Schroeder Defante achou seu voto no lixo. Literalmente. Nem os quase cem milhões de reais previstos para gastos pelos candidatos ao Senado por São Paulo conseguiram pagar marqueteiros que a convencessem de que havia dois nomes que merecessem sua escolha. Ela chegou até a manhã deste domingo (3) com apenas um candidato a senador escolhido com convicção. O segundo voto foi definido quando varria a frente da sua casa, poucas horas antes de votar. "Fui varrer e tinham jogado um santinho - ou melhor, um diabinho - no chão. Aí dei uma lida e decidi", conta. A hesitação de Leila não foi por desdém pelo envolvimento no processo democrático. Ela simplesmente não foi convencida. O critério final da escolha, ela afirma, foi o partido do candidato. Mas isso não tinha sido o suficiente até a chegada da faxina dominical e do último minuto.

Carina Martins, iG São Paulo
As irmãs Nívea Maria Schroeder (esquerda) e Leila Maria Schroeder Defante decidiram alguns votos no domingo de eleição
No último tracking Vox Populi/Band/iG sobre as eleições presidenciais, realizado na véspera do pleito, os indecisos eram 8% do eleitorado. Isso significa que, no retrato final antes da decisão, a fatia da população que não tinha abraçado nenhum dos candidatos era mais do que suficiente para garantir decisões tão importantes quanto a realização ou não de um segundo turno. Para cargos menores e com campanha menos disseminada, como as vagas no Legislativo, a tendência à certeza é ainda menor, especialmente em um ano que requer a escolha de seis nomes.

Assim que se tornou convencida, Leila passou a ser convencedora. Sua irmã, a também aposentada Nívea Maria Schoereder, chegou até o colégio em que vota, na zona leste de São Paulo, sem definir dois dos seis nomes a confirmar na urna. Foi Leila quem passou para a irmã a cola. "Ela me deu um toque na seção mesmo, e eu fui lá e votei", afirma. Leila, que em poucas horas passou de indecisa a cabo eleitoral, explica por que "um toque" dela fez o que meses de campanha não fizeram: "Eu sei dos gostos dela". Não basta dividir o sangue e ter um nome em mente, no entanto, para emplacar um voto entre as Schroeder indecisas. A mãe das duas, Nancy, votou com as filhas na mesma escola e já tinha todos os candidatos escolhidos há tempos. Diz que só não quis influenciar a prole.

Mas se as irmãs tinham dúvidas, sugestões e vontade de trocar opiniões, qual o motivo de não terem feito isso antes? "É que ela mora em Santos e eu em São Paulo. Já gastamos 300 reais por mês de telefone. Se além de fofoca formos falar de política também, meu marido me bota para fora", ri Leila.  Os obstáculos entre a indecisão e o botão "confirma" nem sempre são a falta de um candidato ideal e a conta telefônica pela hora da morte. Às vezes é simplesmente desinformação. "Confesso que acompanho pouco o trabalho dos deputados estaduais e acho que muita gente que diz o contrário está mentindo. Pesquisei e ponderei muitos dos outros candidatos, mas o deputado estadual, não", admite o administrador João Fonseca. "Não tenho orgulho de dizer, mas meu voto para deputado estadual foi na sorte. Não queria anular, nem votar apenas na legenda. Escolhi um número dentro dos partidos que me agradam, testei três opções e fui nele. Não conhecia o nome. Mas anotei e pretendo acompanhar".

A estudante de enfermagem Danielle Marques queria adiar seu voto até o último minuto. Mas o prosaísmo de um almoço dominical fez com que ela acelerasse a nada prosaica escolha de quem quer que governe o País pelos próximos quatro anos. Entrando em seu colégio eleitoral, ela não escondia sua angústica. "Vou pegar a fila ainda dividia entre dois candidatos. O que pode acontecer nesses minutos que justifique minha escolha, seja ela qual for?", questionava. Na saída, Danielle contou como foi o processo que levou ao seu voto. "Tenho a consciência quase tranquila, porque delimitei minha escolha a dois candidatos que considero competentes. Mas, na hora, entre as duas opções, não consegui. Fiz uni-duni-tê e entreguei para o destino", desabafa. A candidatura escolhida por Danielle, ou pelo destino, estimou um gasto de R$ 157 milhões para chegar à Presidência. Na sorte sai bem mais barato.

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