Hélio Costa: o candidato em busca de uma bandeira

Personalista, ex-repórter do Fantástico que lança livro hoje em SP procura consistência política num difícil casamento com o PT

Bernardino Furtado |

Tudo começou com a memória de um rosto e de uma voz marcantes na TV, diretos de Nova York, aos domingos, no programa “Fantástico – O Show da Vida”, a revista dominical da Rede Globo.

Foi com essa credencial que o jornalista Hélio Costa desembarcou no Brasil em 1986 depois de três décadas no exterior para conquistar uma cadeira de deputado na Assembléia Nacional Constituinte.

Agora, candidato pela terceira vez ao governo de Minas Gerais, Hélio Costa (PMDB) tenta colar sua imagem à de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República mais popular da história brasileira e à do PT, que nasceram nas greves operárias do ABC Paulista, na época em que o jornalista reportava histórias espetaculares da ‘América’ na Globo, a TV considerada porta-voz da ditadura pela esquerda de então.

AE
Casamento com o PT: Dilma e Hélio Costa, em evento em Tiradentes

Costa não pensa em descartar o capital de astro televisivo, mesmo sabendo que os eleitores com menos de 30 anos de idade não o tenham visto ou não se lembrem dele no Fantástico. Pelo contrário, o senador lança hoje em São Paulo o livro “Naquele Tempo Fantástico”, sobre a trajetória de correspondente internacional da Globo. No ‘ YouTube ’ há farto materia sobre as reportagens que fez.

Ao mesmo tempo, o candidato se empenha em divulgar a nota 10 que ganhou do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) por ter votado a favor das 10 principais emendas de interesse da classe trabalhadora na Constituinte.

A nota 10 do Diap foi usada como uma espécie de selo de qualidade por vários políticos, alguns controvertidos como o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), personalistas, como Itamar Franco, hoje no PPS depois de pelo menos cinco mudanças de partido, ou que guinaram para partidos conservadores, como César Maia (PFL). O deputado cassado Roberto Jefferson quase chegou lá. Tirou 9,5.

Colega de bancada na Constituinte, o deputado federal petista mineiro Virgílio Guimarães elogia Hélio Costa. “Ele votou tudo conosco. Como estava fora do Brasil havia muito tempo, vinha nos perguntar quais eram as posições defendidas pelos sindicatos de trabalhadores para apoiá-las”.

Reprodução
A capa do livro de Hélico Costa, que será lançado hoje em São Paulo

O petista diz que o jornalista Hélio Costa tinha, pela experiência no exterior, a convicção de que as condições dos trabalhadores no Brasil eram muito ruins. O personalismo ou a falta de apego à vida partidária, motivo de resistência persistente em setores do PT, também marcaram a entrada de Hélio Costa na política. Sem inserção na política brasileira, o jornalista recorreu aos laços que conservou com a cidade natal, Barbacena (MG), por meio de parentes e amigos de juventude.

“Ele veio aqui e se aliou a um grupo político novo, que tinha uma visão desenvolvimentista, uma aspiração mais democrática, em contraposição com o clã dos Andrada, que dominava a política de Barbacena desde o Império”, conta o atual vice-prefeito de Barbacena, Edson Resende (PT), egresso do PSB. Resende lembra que esse grupo elegeu o primeiro deputado estadual, Manoel Conegundes (PMDB), que não era nem Andrada nem Bias Fortes, o outro clã político da cidade, criado nos anos 1880.

A adesão a políticos novos de Barbacena não foi suficiente para superar a fragilidade da pré-candidatura a deputado federal. Hélio Costa recorreu então à força de sua popularidade como repórter do Fantástico. O jornalista J. D. Vital, na época assessor do governador Hélio Garcia, conta que foi procurado pelo jornalista no Palácio dos Despachos. “Ele me disse: Vital fala para o governador que o PMDB não está querendo me dar legenda para disputar”, lembra. “Então eu falei para o Hélio Garcia que o Hélio Costa era um candidato com bom potencial, um repórter internacional de TV muito conhecido e preparado. O governador, então, orientou o partido a colocar o Hélio Costa na lista de candidatos”, conta o ex-assessor de Garcia.

Eleito deputado federal constituinte com 115 mil votos, Hélio Costa lançou-se à grande aventura de disputar a eleição de governador em1990. Sem espaço no PMDB, na época dominado pelo governador Newton Cardoso, Costa embarcou na legenda recém-criada pelo presidente Fernando Collor, o PRN.

O ex-deputado Nilmário Miranda (PT) pensa que vem da associação a Collor grande parte da ‘birra’ de petistas tradicionais de Minas em relação a Hélio Costa. “Acho também que isso contribuiu para a derrota apertada no segundo turno”, diz Nilmário. Costa ficou dois pontos percentuais atrás do vitorioso Hélio Garcia, na época filiado ao efêmero partido que criou praticamente para si e para um grupo de seguidores fiéis, o PRS.

Coordenador das campanhas para governador dos dois adversários que derrotaram Hélio Costa – além de Hélio Garcia, em 1990, Eduardo Azeredo (PSDB, em 1994 – o assessor político Joaquim Duarte tem outra interpretação para o fracasso. “Ele é muito personalista, ouve pouco e por isso toma decisões políticas vezes erradas, como a de fazer um discurso muito moderno para um eleitorado conservador”, diz Duarte.

O ex-assessor de Hélio Garcia conta um episódio da campanha de 1990 que, segundo ele, teria sido fatal para ex-jornalista do Fantástico. “O Hélio Costa foi para um comício em Teófilo Otoni, uma região de fazendeiros tradicionais. Pregou o associativismo, a mecanização e outras modernidades que viu no exterior. Gravei o discurso e mostrei para o Hélio Garcia. Vinte dias depois, o ex-governador foi à mesma cidade e disse que tinha cheiro de estrume, enquanto Hélio Costa exalava perfume francês e não nunca tinha tocado na teta de uma vaca para ordenhá-la. Arrematou, dizendo para a platéia escolher o melhor candidato”, conta Duarte.

Hélio Costa espantou o trauma da eleição quase ganha de 1990 e voltou a ser candidato em 1994 por outro partido de ocasião, o Partido Progressista (PP), resultado da fusão, no fim de 1993, do PTR com o PST, que não durou dois anos. O personalismo continuava. Embalado pela votação anterior, Hélio Costa quase liquidou a fatura no primeiro turno, com 48,3% dos votos válidos. Foi atropelado na segunda etapa pelo tucano Eduardo Azeredo (PSDB), apoiado pelo governador Hélio Garcia.

Reprodução
Hélio Costa com o ator Paul Newman: reportagens para o dominical da Globo

Embora se esquive de analisar o Hélio Costa político, o ex-diretor de jornalismo da Rede Globo Alberico Souza Cruz observa que, além de Costa, apenas um ex-repórter de televisão se tornou político de importância nacional, o ex-ministro da Previdência e ex-governador gaúcho Antônio Britto, que também estreou como deputado federal constituinte, também pelo PMDB. Alberico ressalva que Britto foi repórter e comentarista de política da Rede Globo em Brasília, enquanto Costa foi um repórter ‘de geral’, que não tinha um foco definido.

Reprodução
O ator Charles Bronson e o jornalista Hélio Costa, nos "tempos fantásticos"

Os petistas menos resistentes à aliança com Hélio Costa acham que a marca de político que passeia no espectro partidário, ideologicamente genérico e personalista foi em parte diluída pela trajetória do peemedebista nos últimos 12 anos. Mais precisamente a partir da segunda eleição para deputado, em 1998, novamente no PMDB, do qual não mais saiu.

“Em 2002, o Hélio Costa elegeu-se senador fazendo campanha para o Lula, embora seu partido estivesse coligado formalmente com o PSDB de José Serra. Foi um aliado importante do PT no Senado e, a partir de 2005, se tornou uma pessoa de equipe, um ministro bem afinado com o presidente”, diz o ex-deputado Nilmário Miranda.

    Leia tudo sobre: Helio CostalivroFantástico

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG