"Há vida após o PT", diz Marina Silva

Em visita à redação do iG, senadora assegurou que sua candidatura não será apenas uma ferramenta para marcar posição

iG São Paulo |

Depois de trocar o PT pelo PV para concorrer ao Palácio do Planalto nas eleições deste ano, a senadora Marina Silva (AC) afirma que o fato de ter pertencido ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não a impede de apontar falhas da atual administração federal, como a incapacidade de realizar as reformas estruturais de que o País precisa. Em visita à redação do iG na manhã desta terça-feira, Marina falou sobre sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente e sua decisão de deixar os quadros do PT após três décadas de militância. "Há vida após o PT", disse.

Marina propôs a criação de uma "lista cívica" de candidatos para formar uma Constituinte Exclusiva para concretizar as reformas. Também relembrou as divergências que teve com setores do governo Lula no que se refere ao licenciamento ambiental de projetos de infraestrutura e prometeu combater o fisiologismo que atinge o sistema político brasileiro. Evangélica, a senadora garantiu que não vai transformar sua religião em ferramenta para angariar votos. E disse pretender fazer uma campanha modesta ao falar sobre sua estratégia de arrecadação .

Marina garantiu que sua candidatura presidencial não vai se resumir a uma simples ferramenta para marcar posição. E tomou por base seu desempenho nas pesquisas de opinião para dizer que já ultrapassou esse ponto. "Eu acho que essa história de marcar posição, de certa forma, existe um grupo que é interessado em plantar esse joio. Acho que 12% já é uma posição bem marcada. E isso é apenas o começo", respondeu.

Questionada se não teme ter o mesmo destino da ex-senadora Heloísa Helena (PSOL), que disputou a Presidência colocando-se como alternativa ao PT e ao PSDB e terminou disputando em 2008 um mandato de vereadora, Marina rebateu: "Eu fui vereadora e sempre tive muito orgulho disso".

Terceira colocada nas pesquisas de intenção de voto, atrás do tucano José Serra e da petista Dilma Rousseff, Marina disse estar confiante em sua capacidade de transformar eleitores que hoje simpatizam com suas propostas em adeptos de sua candidatura. "Acho que o cidadão tem liberdade de transformar respeito em atitude prática", afirmou.

Acompanhada do empresário Guilherme Leal, que aceitou ocupar o posto de vice na chapa do PV, Marina também se disse confiante na capacidade de atrair apoio no setor produtivo. "Acho que o empresariado de vanguarda já está inteiramente aliançado", afirmou. "Sinto um grande acolhimento e um grande respeito pelas ideias que nós estamos defendendo", emendou.

Lista cívica

Marina afirmou que estuda a criação de uma “lista cívica” de candidatos, sem necessidade de filiação partidária, para formar uma eventual Constituinte exclusiva para as grandes reformas. O objetivo, disse ela, seria “oxigenar” a política. A Assembleia Constituinte exclusiva seria formada por um curto período, de seis meses ou um ano, por exemplo.

“Defendo também que se crie um modelo novo, uma espécie de lista cívica, como acontece na Itália, talvez uma candidatura avulsa, uma lista de um milhão de pessoas. Você pode sair candidato – estou falando hipoteticamente –, sem vínculo com nenhum partido, para defender o que você acredita, é uma forma de oxigenar [a política]. O que não podemos é nos conformar de que as reformas são importantes [mas não fazê-las]”, disse.

Marina explicou que essa Constituinte não teria na composição o mesmo estilo de pessoas que compõem hoje o Congresso Nacional. “Em uma Constituinte exclusiva, você acha que os mesmos políticos iam querer se eleger, apenas por seis meses?”, questionou.

Reconhecendo que fez parte do governo Lula como ministra do Meio Ambiente, a senadora afirmou que não pode ser responsabilizada pelo fato essa administração não ter realizado as reformas. “Eu não era responsável por essa política das reformas, você há de convir comigo, não tinha poderes para isso. Sempre defendi que as reformas fossem feitas. Não é o fato de estar no governo, sem poderes para isso e defendendo isso, que eu iria sair e agora ficar amordaçada porque estive no governo.”

Licenciamento ambiental

Em 2008, Marina optou por deixar o posto de ministra do Meio Ambiente em meio a pressões para que agilizasse o licenciamento ambiental de projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), gerenciado na época por Dilma, então ministra da Casa Civil.

"Meu princípio era licenciar os empreendimentos de forma correta, e foram licenciados os mais difíceis", argumentou. Dizendo considerar que a emissão de licenças ocorreu sim de forma ágil, ela repetiu a frase dita na época em que deixou o governo. "É como eu disse. Perco o pescoço mas não perco o juízo. Porque depois a sociedade vai cobrar e vai cobrar caro."

Marina garantiu que não deixará a pressão política se sobrepor aos pontos que considera fundamentais na condução do governo, caso venha a se eleger presidente em outubro. "Isso não é republicano. Alguém quer sorfrer pressão política quando precisa de um transplante de coração para fazer um transplante de rim?"

Fisiologismo

Marina prometeu combater o fisiologismo que guia boa parte dos partidos e parlamentares no País. Admitindo que o problema existe inclusive em sua própria legenda, o PV, ela defendeu que o Brasil não pode ficar refém dessa prática. "Existe uma qualidade política neste País que não pode ficar refém disso", afirmou Marina, que destacou, entretanto, que não enquadra a maioria da classe política nesse comportamento. "Não estou dizendo que os membros do PV são perfeitos, assim como os do PSDB não são e do PT não são. Mas todos do PV não são imperfeitos. Do PSDB e do PT não são imperfeitos."

Marina afirmou que, quando o PV se comprometeu a recusar a legenda a quem for condenado em segunda instância, demonstrou que está disposto a combater a corrpupção e o fisiologismo no País. "Acho que isto é um começo", declarou.

Questionada sobre o fato de ter em seu partido o deputado Zequinha Sarney (PV-MA), Marina disse ser contra "generalizações" decorrentes do fato de ele ser filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), protagonista do escândalo dos atos secretos. "O Zequinha não pode ser confundido com seu pai. As pessoas pegam o Zequinha por ser filho do presidente Sarney e o episódio do Senado e tentam fazer essa generalização."

Religião

Dizendo ser uma “uma missionária” evangélica, Marina negou que vá usar sua religião como ferramenta para angariar votos na corrida presidencial. “Nunca fiz isso quando era católica nem vou fazer como evangélica", afirmou Marina, que era católica e chegou a viver em um convento com o intuito de ser freira, mas tornou-se seguidora da Assembleia de Deus.

Ela ponderou, entretanto, que, se fosse artista ou acadêmica, a resposta a uma pergunta como esta seria automática. "As pessoas vão se identificar, não posso privar a comunidade cristã evangélica, seria subtrair um direito deles. Mas não vou usar púlpitos para fazer campanha nem satanizar candidaturas, como fizeram com Lula, dizendo que ia acabar com as famílias, queimar a Bíblia. No púlpito, vou falar de fé”, disse a senadora.

A amiga de faculdade e ex-companheira no PT do Acre Júlia Feitosa dissera ao iG que a dedicação da pré-candidata à fé é tão grande que acredita que ela possa largar a política para se dedicar a ser “missionária” evangélica.

Arrecadação

Ciente de que não terá as mesmas condições que seus rivais de abastecer financeiramente sua candidatura, Marina prometeu uma campanha sem exageros. "Nossa campanha será uma campanha modesta", declarou, evitando dar uma projeção de quanto pretende gastar na campanha. Rejeitando a tese de que o vice Guilherme Leal seria uma "fonte de recursos", ela afirmou que o plano é ter "muitos contribuindo com pouco" e "alguns poucos contribuindo com um pouco mais".

*Com Clarissa Oliveira e Raphael Gomide

    Leia tudo sobre: marina silvadilmaserraguilherme lealpac

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG