Guerra religiosa contraria 500 anos de história, diz Dilma

No Amparo Maternal, em S.Paulo, petista reclama de 'campanha orquestrada' para que debate fique restrito a temas como o aborto

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff , disse neste sábado que existe uma campanha orquestrada para que o debate eleitoral do segundo turno fique restrito a temas religiosos como o aborto e impeça a discussão de outros temas importantes para o País. Segundo Dilma, que evitou apontar os autores desta campanha, há uma tentativa de criar um clima de divisão religiosa que nunca ocorreu no Brasil e pode levar à divisão da população.

"Houve um processo nesta eleição que contraria tudo que o Brasil conseguiu construir ao longo de seus mais de 500 anos de vida. Somos um país que nunca teve conflito religioso. Querer criar contradição religiosa onde não tem é criar um clima de divisão no País. É algo que não honra a nossa democracia a tentativa de construir esta eleição em cima de divergências religiosas", disse ela.

Alvo de críticas de setores da imprensa que no primeiro turno acusaram o PT de atentar contra a liberdade de expressão, Dilma disse que o direito à opção religiosa é tão importante quanto a liberdade de imprensa.

"Tenho clareza que o Estado é laico e é obrigado a respeitar todas as diversidades culturais e religiosas deste país, tanto as religiões cristãs quanto as de outras matrizes. É uma questão de liberdade", afirmou. De acordo com Dilma, a onda de boatos que circulou nos meios religiosos é uma ação proposital para evitar que a campanha aborde outros temas.

"Tem uma deliberada tentativa de fazer com que a gente entre só nesta pauta", disse ela.
Questionada sobre quem seria o responsável pela onda de boatos, Dilma evitou fazer acusações mas disse que se a boataria persistir no segundo turno só pode ser obra do tucano José Serra. "Antes havia dez candidatos e não dava para saber de onde vinha. Agora só tem dois. Se continuar esta rede de boatos e intrigas, só pode vir do meu adversário", afirmou.

Embora tenha negado que a visita à maternidade Amparo Maternal - que tem 70 anos de existência e é ligada à Igreja católica - faça parte da estratégia de defesa contra os boatos de cunho religioso, Dilma voltou a falar sobre o aborto.

"Não vou liberar o aborto porque não é o aborto liberado que está acontecendo no Brasil. Minha proposta é assegurar que as meninas e as mulheres jovens tenham apoio para ter seus filhos, que elas não tenham que esconder sua gravidez, que os pais e as mães não as expulsem de casa, que elas não tenham a coisa horrorosa que chama medo e sejam obrigadas a chegar a este ponto que é a eliminação da vida", disse.

Dilma usou uma passagem bíblica para dizer que é hipocrisia fingir que não existe aborto ilegal no País. "Se não se criar isso (a consciência de que existe aborto ilegal) nós somos aquilo que a Bíblia chamou de sepulcro caiado, caia mas continua no fundo sendo sepulcro. Isso chama hipocrisia, é fingir que não vê que isso acontece e acontece em todos os bairros pobres deste País", afirmou.

Privatizações

A campanha de Dilma avalia que a candidata já perdeu tempo demais falando sobre assuntos religiosos. Isso tem impedido que a candidata entre na agenda que interessa a ela e que já está definida, dizer que Dilma e Serra tem a mesma posição sobre aborto e partir para o debate sobre as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.

"O primeiro ato do candidato adversário foi fazer um discurso defendendo as privatizações e propondo mudança no marco regulatório do Pré-Sal. O primeiro ponto que diferencia os dois candidatos já foi colocado. Este é o debate que nós queremos fazer", disse o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha.

Além das privatizações, a campanha de Dilma pretende fazer a desconstrução dos quatro anos do governo Serra em São Paulo mostrando supostas falhas administrativas do tucano e explorando o fato de que somados os votos de Dilma e Marina Silva (PV), quase 60% dos paulistas votaram contra Serra no primeiro turno.

Dilma disse também que já recebeu as propostas encaminhadas por Marina, vai fazer uma ampla discussão na campanha sobre como incorporá-las a seu programa de governo, e lembrou que as sugestões de Marina estão mais afinadas com sua campanha do que com a de Serra. "As propostas da Marina tem mais a ver conosco do que com o nosso adversário. Vamos travar especificamente uma grande discussão a este respeito, bastante respeitosa", disse Dilma.

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