FHC critica debate religioso na eleição presidencial

'Candidatos não devem confundir questões de Estado com questões confessionais', diz ex-presidente

Nara Alves, iG São Paulo |

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que participa hoje em São Paulo de um encontro entre integrantes do Partido Verde e o presidenciável tucano José Serra , criticou a inclusão de temas religiosos na campanha eleitoral. “Candidatos não devem confundir questões de Estado com questões confessionais, que são pessoais e não políticas”, afirmou.

"A discussão sobre o aborto vai ocorrer em todos os países. Não é eleitoral. Como a questão das drogas, não é eleitoral, não pode ser eleitoral. É uma questão de outra natureza. Não quero agregar nem um tipo de elemento nessa discussão porque eu seria contraditório com o que afirmei no início. Eu acho que esses temas não devem ser temas politizados", afirmou.

O ex-presidente pregou o afastamento de temas religiosos da política. "Veja o que acontece nas guerras de religião no Oriente Médio, o preconceito contra religiões na Europa, contra muçulmanos. Não é bom. O Brasil é um País que se caracterizou pelo oposto, a convivência de diferentes pontos de vista, a cultura da tolerância. Acho que o Brasil devia insistir nisso", disse.

FHC saiu derrotado da eleição de 1985, em que disputou a Prefeitura de São Paulo pelo PMDB, em meio ao debate sobre religião. Na época, quando concedia uma entrevista a uma emissora de TV, o então candidato foi questionado se acreditava em Deus. Fernando Henrique respondeu que esta era uma questão de foro íntimo. À frente nas pesquisas, FHC acabou sendo derrotado por Jânio Quadros, cuja campanha explorou a resposta de FHC chamando-o de “ateu”. Para ele, neste ano "é diferente". "Naquele tempo não foi assim. O Boris Casoy ( entrevistador ), de quem sou amigo até hoje, não tinha a intenção eleitoral, tinha outro tipo de intenção", explicou.

Um dos articuladores do encontro de hoje entre Serra e o PV, o ex-presidente afirmou que os dois partidos têm uma ligação histórica. “Fui o primeiro a concordar com o Greenpeace”, disse Fernando Henrique. Questionado sobre a sua ausência nas propagandas de campanha de Serra, o ex-presidente ressaltou que nunca foi cabo eleitoral por achar que isso não é uma função compatível à de um ex-presidente.

Cafezinho com Lula

Fernando Henrique Cardoso propôs ao presidente Lula que, após o fim de seu mandato, tomassem um café. "Eu não propus debate, eu propus que ele viesse conversar comigo como conversava no passado. Quero que ele, olhando na minha cara, diga as coisas que ele diz sem que eu esteja presente. Eu quero ver ele dizer quer foi a favor do Plano Real. Eu quero ver ele dizer que tudo começou no governo Lula e que ele assumiu o governo numa situação desesperadora", disse.

O ex-presidente tucano afirmou que ajudou a combater a fuga de capitais quando Lula tomou posse. "Eu ajudei no futuro governo Lula até no sentido de buscar condições financeiras para ele. Eu quero conversar com ele cara a cara, não na propaganda eleitoral, como líderes responsáveis. Eu reconheço as coisas boas que ele fez. Não precisa negar o que foi feito no passado para se afirmar no presente".

"Por isso eu digo: 'ô, Lula, vamos tomar um café? Presidente, não vá contribuir para dividir o Brasil, o Brasil precisa de unidade.' Pode haver diversidade, mas não a perseguição. Um é bom o outro é mau. Eu vou matar meu adversário. Aí não dá. Isso leva a mau resultado. Nós temos um futuro possivelmente brilhante no Brasil e nós estamos todos nós construindo os fundamentos desse futuro. Então por que nós vamos contaminar essa possibilidade de um futuro de convivência que nós preservamos?", questionou.

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