Luizianne é reeleita no 1º turno em Fortaleza

05/10 - 20:42

Larissa Morais

A prefeita Luizianne Lins (PT) somou 50,16% dos votos válidos e garantiu a reeleição em Fortaleza, capital do Ceará, neste domingo. Moroni Torgan (DEM) ficou com 25% e a senadora Patrícia Saboya (PDT), com 15,47%.

 

"A casa está arrumada e se refazendo financeiramente. Uma das prioridades da nossa gestão vai ser avançar na área da saúde", prometeu a prefeita, que recebeu duras críticas dos seus adversários durante a campanha justamente nesse setor. "Não é por ter marqueteiro legal, como Duda Mendonça, ou apoio do presidente Lula, pois se não tivesse feito um bom governo nada disso adiantaria."

"Patinho feio” do PT na eleição de 2004, a prefeita Luizianne Lins moderou o discurso e hoje é um dos nomes de maior projeção do partido no País.

A petista enfrentou a oposição dos evangélicos, teve problemas jurídicos com a indicação do candidato a vice-prefeito, Tin Gomes, e não pôde contar com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha.

Arte/US

Quando começaram as especulações sobre a eleição deste ano, Luizianne aparecia atrás de Moroni Torgan. Em pesquisa Datafolha de novembro do ano passado, o ex-deputado estava com 29% das intenções de voto, contra 19% da petista. 

No levantamento do Ibope realizado nos dias 21, 22 e 23 de setembro deste ano, já se desenhava a possibilidade de vitória no primeiro turno. A prefeita aparecia com 30 pontos de vantagem sobre Moroni Torgan – 50% a 20%.

Além do adversário da eleição passada, Moroni Torgan, Luizianne enfrentou a senadora Patrícia Saboya. Foi a disputa da "lôra" contra a "morena", como as duas são conhecidas. A ex-mulher de Ciro Gomes (PSB) saiu do PSB no ano passado para disputar a eleição em Fortaleza, já que seu ex-partido apóia a petista.

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Luizianne vota na Assembléia Legislativa

A desobediência de Ciro à orientação de seu partido em Fortaleza e seu apoio a Patrícia lhe renderam ameaças de expulsão do PSB.  O ex-ministro não mediu palavras para atacar Luizianne. Em junho, o deputado disse na TV que Fortaleza tinha se tornado “um puteiro a céu aberto”.

Na última semana de campanha, Ciro reconheceu que a campanha da prefeita tinha sido “brilhante”, mesmo com a administração “medíocre”. Outro forte aliado de Patrícia foi o senador Tasso Jereissati (PSDB). 

Aproveitando-se do fato de que Ciro foi ministro de Lula, a senadora tentou colar sua imagem à do presidente e foi vitoriosa em uma ação que proibiu o uso de um discurso do líder petista no programa da prefeita.

Como as duas candidatas pertencem a partidos da base aliada do governo federal, Lula não subiu em nenhum palanque nem gravou participação nos programas. Mas até o candidato do DEM tentou se aproveitar da popularidade do presidente, que conseguiu 82,38% dos votos no Ceará no segundo turno de 2006. Moroni Torgan tentou se vincular ao petista ao fazer aliança com o PP, que faz parte da base governista.

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Luizianne e Torgan no debate da TV Jangadeiro

O apoio do PSB a Luizianne, que elegeu o vice-prefeito, o vereador Tin Gomes (PHS), custou a sair. O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro, precisava retribuir o apoio que a petista lhe deu em 2006 e sugeriu indicar o vice. O PT local resistiu e indicou o presidente municipal do partido, Raimundo Ângelo. As irregularidades na convenção resultaram no pedido de impugnação do registro de candidatura, mas a Justiça Eleitoral registrou a chapa. 

Com uma vitória tão significativa, Luizianne credencia-se para alçar vôos mais altos na política. Moroni Torgan a atacou durante a campanha ao dizer que a petista deixaria a prefeitura para disputar o governo estadual ou o Senado em 2010. Ela não descartou a hipótese.

O primeiro mandato

Assim que assumiu, Luizianne fez barulho ao anunciar uma operação de emergência de 60 dias para tapar buracos e limpar a cidade, a “Fortaleza Bela”.

Um dos maiores escândalos em seu governo foi a festa de réveillon promovida pela prefeitura em 2006. Houve suspeita de superfaturamento do evento que custou R$ 2,2 milhões. A prefeitura alegou ter gasto R$ 150 mil, e o restante teria vindo de patrocínios. 

Outra polêmica foi o veto da prefeita a um projeto de lei que obrigava bibliotecas de escolas municipais a terem um exemplar da Bíblia. Como a medida repercutiu mal, Luizianne recuou e derrubou o veto em outubro de 2007.

- Divulgação
A prefeita em atividade de campanha

O autor do projeto foi o pastor da Igreja Universal do Reino de Deus Gelson Ferraz (PRB). Aí começou a briga de Luizianne com os evangélicos. Na campanha deste ano, a Comaduec (Convenção de Ministros das Assembléias de Deus Unidas do Estado do Ceará) espalhou cartazes pela cidade pedindo que os eleitores não votassem na petista. A propaganda lembrava o episódio do veto: "Luizianne é contra a Bíblia e o povo de Deus. Diga não a Luizianne". Na reta final da campanha, a entidade declarou apoio a Patrícia Saboya.

A surpresa de 2004

Luizianne era desconhecida no País quando foi a “zebra” da eleição de 2004 e surpreendeu os caciques petistas ao ganhar a prefeitura. A então deputada foi eleita com 56,21% dos votos válidos, contra 43,79% de Moroni Torgan.

A petista começou com apenas dois partidos em sua coligação, PT e PSB. Uma pesquisa do Datafolha no final de julho de 2004 dá uma idéia do salto. A candidata tinha apenas 3% das intenções de voto, contra 28% de Inácio Arruda, 23% de Moroni Torgan e 21% de Antônio Cambraia (PSDB).

O PT nacional decidiu então apoiar Inácio Arruda (PCdoB), que havia sido derrotado no segundo turno em 2000. Durante toda a campanha, a cúpula do partido ignorou Luizianne, mas, quando chegou ao segundo turno, a direção se rendeu. 

Membro da ala esquerda do PT, Luizianne tinha sido contrária à reforma da Previdência e à expulsão da então senadora Heloísa Helena do partido. Na posse, vestida de vermelho, falou em socialismo, rebeldia, resistência e liberdade.

Como imposição para aceitá-la, o PT nacional decidiu que a candidata precisava defender o governo federal, e não criticá-lo. Dois anos depois, Luizianne já estava coordenando a campanha à reeleição de Lula no Nordeste e indicou o vice de Cid Gomes (PSB) na disputa pelo governo estadual. 

As diferenças entre a campanha deste ano e a de 2004 ficam mais claras nas estimativas de gastos. Enquanto na primeira eleição Luizianne disse ter gasto R$ 1,05 milhão, este ano a previsão foi de despesas dez vezes maiores: R$ 10 milhões.

Quem é Luizianne

Militante do PT desde 1989, Luizianne Lins foi ativista do movimento estudantil na época do Fora Collor – foi presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Ceará no auge da mobilização, em 1992.

Após o movimento estudantil, a prefeita foi a vereadora mais votada do PT em 1996 e conseguiu a reeleição em 2000. Luizianne se destacou pela atuação em temas relacionados ao turismo sexual e à mulher. Em 2002, a petista elegeu-se deputada estadual, mas deixou o mandato em 2004, quando foi eleita prefeita. 

Jornalista, a petista é professora licenciada do curso de comunicação social da UFC. Antes, foi funcionária da Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização (Emlurb) por dez anos e vice-coordenadora do Datafolha no Ceará.

Divulgação

Reeleita no 1º turno
Petista Luizianne Lins superou Moroni Torgan com folga na capital cearense

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