O povo age onde o Estado falha: moradores criam posto de saúde e linha de ônibus

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo | - Atualizada às

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Ações foram motivadas após vários pedidos para o poder público. Especialista diz que há "falha no sistema" de governo

Divulgação
Acampados participam da inaugução posto de saúde popular em ocupação Não Vai Ter Copa

Na zona leste de São Paulo, uma ocupação reúne 3,5 mil famílias a cerca de quatro quilômetros do Itaquerão, palco da abertura da Copa do Mundo. No extremo sul da capital paulista, o bairro Marsilac, distante cerca de 60 quilômetros do centro da capital, abriga 2,5 mil famílias. Os dois pontos têm em comum o exemplo - e trabalho - da população para suprir necessidades básicas que deveriam ser fornecidas pelo Estado.

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Após reiterados e frustrados pedidos ao poder público, os moradores dessas comunidades implantaram, por conta própria, uma linha de ônibus e uma Virada Cultural, em Marsilac, e um posto de saúde comunitário na ocupação batizada de Copa do Povo.

Segundo Heitor Pasquim, militante do Fórum Popular de Saúde, entidade que visa a promoção da saúde nas periferias, a ideia do posto popular na Copa do Povo, promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), surgiu após os moradores verem negadas as revindicações para a implantação de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) no Jardim Helian, onde fica a ocupação.

Voluntários fazem aferição da pressão arterial dos acampados. Foto: Reprodução/FacebookVoluntários fazem aferição da pressão arterial dos acampados. Foto: Reprodução/FacebookVoluntários fazem aferição da pressão arterial dos acampados. Foto: Reprodução/FacebookMoradores inauguram posto em ocupação Não Vai Ter Copa. Foto: DivulgaçãoAssim, como as barracas da ocupação, posto de saúde foi feito de lona em estrutura de bambu. Foto: DivulgaçãoHorta popular foi feita ao lado de posto de saúde. Foto: DivulgaçãoMoradores de Marsilac implantam linha de ônibus no bairro. Foto: Reprodução/YoutubeMoradores realizam Virada Cultural Popular em Marsilac. Foto: Divulgação

“São 30 anos pedindo uma UBS. Essa luta é antiga e sólida. A gente tentou nestes anos todos um diálogo com o governo. Todos os prefeitos prometeram e nenhum fez”, diz Pasquim.

O posto de saúde popular, inaugurado no dia 18 de maio, foi erguido, assim como as barracas do local, com uma lona de plástico em estrutura de bambu. Ao lado foi criada uma horta medicinal com plantas como hortelã, capim-santo, losna e erva cidreira.

“A horta medicinal foi feita com mudas que os próprios acampados levaram. O que a gente fez foi discutir com eles a sistematização e os conhecimentos sobre as plantas”, diz Pasquim.

O funcionamento do posto depende da ajuda de profissionais e estudantes fora da ocupação, como é o caso do enfermeiro Ricardo Barranco, 36 anos, que dedica ao menos uma vez por semana para ir ao local orientar os acampados, principalmente em relação às condições sanitárias, à higiene pessoal e ao controle de pragas e epidemias - como hepatite A (transmitida através de contato com fezes infectadas) e cólera (água e alimentos contaminados).

“A gente vê se as condições sanitárias estão boas, acompanha a construção dos banheiros coletivos - não é só cavar um buraco -, orienta em relação ao descarte de restos de comida para não atrair roedores e tem uma preocupação com incêndios também”, explica Barranco. “A ideia é mostrar para o serviço público que com pouco se pode fazer muito", completa.

Para o médico Josué Rocha, coordenador do MTST e responsável pela ocupação, o posto tem ainda outro objetivo. "Essa atividade, além de prestar um serviço para a população, chama a atenção para o debate. A gente tem privação de todos os direitos", diz. Segundo ele, o posto ainda funciona somente aos fins de semana. "São programadas atividades pelos menos uma vez por semana. Todo final de semana."

Neste sábado (24), apesar do vento forte, que derrubou a barraca do posto, voluntários mediram pressão e glicemia dos moradores. Os equipamentos foram doados, segundo Pasqui, do Fórum Popular da Saúde. 

Entre a programação do posto, a entidade prevê um curso com técnicas de primeiros-socorros. “Estamos programando um curso para que eles possam entender o que é urgência e emergência e possam agir caso ocorra alguma situação. Como por exemplo, em caso de queimadura, eles saibam que não pode colocar borra de café.”

A prefeitura informou em nota que irá implantar duas novas unidades de saúde em Itaquera, onde fica o Jardim Helian. "A SMS [Secretaria Municipal de Saúe] está em fase de elaboração dos projetos executivos, etapa fundamental para licitação das obras", informou. 

Linha de ônibus em Marsilac

Do outro lado da cidade, o problema é falta de transporte público. Moradores do distrito de Marsilac, no extremo sul da capital, não têm uma linha municipal dentro do bairro, e têm que andar cerca de 15 km para chegar a um ponto atendido por uma linha que os leve até o terminal Varginha, de onde podem fazer integração para outras áreas da cidade.

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Segundo a auxiliar de serviços gerais desempregada Renata da Silva Jesus Bispo, 28 anos, que mora no bairro da Ponte Seca, dentro do distrito de Marsilac, desde o ano passado, os moradores da região pedem uma linha circular no bairro e que a falta do transporte inviabiliza a busca por empregos e cursos fora do bairro. “A gente não pode trabalhar fora, tem que trabalhar aqui na roça. Não podemos estudar porque gastamos três horas andando até o ponto de ônibus. Tem gente que mora mais para o fundo e demora até cinco horas”, diz.

Para chamar atenção para o problema, em parceria com o Movimento do Passe Livre, responsável pelas manifestações de junho do ano passado, os moradores alugaram um miniônibus para fazer o trajeto entre o bairro de Mambu e centro de Marsilac, onde passa a linha para o terminal Varginha.

A linha popular circulou por apenas um dia, no dia 11 de abril, e foi viabilizada graças a realização de um bingo na comunidade. O aluguel do ônibus custou R$ 600. “A gente quis mostrar para a prefeitura que a estrada da Ponte Seca tem condições de receber transporte e não seria caro”, disse Renata. Segundo ela, a linha popular fez o trajeto seis vezes e transportou cerca de 500 pessoas.

Acorrentados

No dia 28 de abril, cerca de 40 moradores da região enfrentaram os 60 km que os separam do centro de São Paulo para protestar na porta do prédio da prefeitura, no viaduto do Chá. Três deles se acorrentaram na porta do prédio e uma comissão foi recebida pelo secretário municipal dos Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto.

Os moradores dizem que, neste dia, os representantes da prefeitura prometeram que a linha seria implantada em 20 dias. O prazo venceu e o pedido não foi atendido.

Novamente, os moradores encontraram uma solução criativa para chamar atenção para o problema do bairro. Em tom político, eles organizaram uma Virada Popular, chamada "Virada Popular: cadê o busão?", com a presença de grupos de músicas, como rap e rock, no mesmo dia em que nomes consagrados como a banda Ira! e a cantora Vanessa da Mata se apresentavam na região central. "

A SPTrans, que gerencia os transportes municipais de São Paulo, informou ao iG que estuda a implantação da linha na região, mas não informou data de implantação e nem itinerário da linha. “A viabilização envolve outros órgãos, já que se trata de uma Área de Proteção Ambiental (APA)”, informou em nota.

A moradora Renata afirma que já há uma licença da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para implantação da linha. A SPTrans não se pronunciou sobre o assunto.

“O bairro tem coleta de lixo, tem dois ônibus que fazem o transporte escolar, tem o lixeiro, tem a van do posto de saúde. Por que a gente não tem direito a ter um transporte? A gente não está pedindo nada de graça, a gente tem direito”, diz Renata.

Falha no sistema

Para a doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esther Solano, a atuação da população ao prover serviços que deveriam ser fornecidos pelo Estado indica “falha no sistema”.

“A ausência do Estado é negativa porque dá espaço para outros fenômenos como o crime organizado e o linchamento. O perigo desse tipo de situação é entrar em uma espiral de descrédito. O desgaste da figura do Estado é muito perigosa”.

Para ela, esse descontentamento social é visto, principalmente, em greves e manifestações. “No Brasil, a população não acredita mais no sistema que a representa. É uma falha do sistema político, que gera um abandono e uma crise de identidade do Estado”, conclui a especialista.

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