Escândalos e denúncias guiam debate na TV

Serra e Marina adotaram discurso ético contra Dilma, que disse não aceitar ser julgada por denúncias contra terceiros

Ricardo Galhardo, Nara Alves, Rodrigo Rodrigues, iG São Paulo |

Sob ataques dos adversários por conta de denúncias de corrupção que marcaram o governo e suspeitas de irregularidades cometidas por seus aliados, a presidenciável petista Dilma Rousseff disse não aceitar ser julgada por acusações que recaem sobre terceiros. A petista passou boa parte do debate organizado na noite deste domingo pela Rede TV! rebatendo o discurso ético encampado por seus principais rivais na corrida ao Palácio do Planalto.

Tanto o tucano José Serra quanto a candidata do PV, Marina Silva , confirmaram as expectativas e subiram o tom contra Dilma durante o debate. Ainda assim, evitaram tomar a iniciativa de mencionar pela primeira vez as denúncias trazidas pela revista Veja deste fim demana, envolvendo em um susposto esquema de lobby o filho da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. 

Considerada uma das pessoas de confiança de Dilma, Erenice é apontada como uma das favoritas da petista para compor um eventual ministério. De acordo com a revista, o filho da ministra estaria por trás de um esquema de intermediação de contratos no governo, em troca da cobrança de "taxas de sucesso".

Coube à jornalista Renata Lo Prete trazer à tona o caso, perguntando a Dilma se ela estaria disposta a colocar "a mão no fogo" por sua antiga secretária-executiva. "Não vou aceitar que se julgue minha pessoa baseado no que aconteceu com o filho de uma ex-assessora minha", reagiu Dilma, ao afirmar que o assunto "cheira a manobra eleitoreira". "Eu tenho até hoje a melhor e maior impressão da ministra Erenice", reiterou a petista. Ela defendeu a investigação do episódio e a punição dos culpados, caso as denúncias sejam confirmadas.

Serra teve sua primeira oportunidade de subir o tom contra Dilma logo na abertura do debate. Foi o segundo a responder a uma pergunta sobre quais considera serem os sucessos e fracassos do atual governo. Enquanto Dilma viu a chance de investir na tese de que o governo soube crescer com distribuição de renda, Serra engatou: "Os maiores fracassos foram os casos do mensalão, o dossiê dos aloprados e agora essas violações na Receita", afirmou o tucano, em referência à crise política de 2005, à tentativa de compra de um dossiê contra tucanos na eleição de 2006 e ao recente vazamento de dados sigilosos de tucanos na Receita Federal.

Pouco depois, Serra aproveitou uma pergunta que fez ao candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, para subir novamente o tom. "Há descalabros dentro do governo que passam batido", disse. "O governo acoberta os companheiros e persegue a oposição. A democracia do PT e da Dilma é usar o aparato legal para proteger companheiros."

O confronto entre Serra e Dilma prosseguiu no restante do debate. Questionado sobre o fato de só ter se pronunciado agora sobre vazamentos de informações sigilosas da Receita apesar de possuir informações sobre o caso desde janeiro, Serra disse só suspeitava das irregularidades. “Quebra de sigilo de dentro do meu partido e de gente próxima, da minha filha. Eu suspeitava, não sabia disso. Não cabia a mim colocar rumores. No momento que quebraram a atividade privada da minha filha, o que eu devia fazer? Agradecer ao PT, agradecer à campanha da Dilma? A gente viu inclusive que foi um militante petista que fez isso, o Fernando Pimentel. O que eu ia fazer ficar assim ( gesto de braços cruzados )?”. A menção a Pimentel se refere a notícias veiculadas sobre o suposto envolvimento do ex-prefeito de Belo Horizonte na montagem de uma equipe dentro da campanha petista que seria encarregada de levantar informações contra tucanos

O tom das críticas trocadas pelo tucano e pela petista no debate rendeu direitos de resposta para os dois lados. Ao utilizar o tempo que ganhou para rebater críticas sobre as denúncias de corrupção,  Dilma acusou Serra de querer "ganhar no tapetão, porque não consegue convencer o povo brasileiro”. Ela citou a legislação eleitoral para dizer que está sendo caluniada por Serra - artigo 323 do Código Eleitoral, que fala sobre “divulgar, na propaganda, fatos que sabe inverídicos, em relação a partidos ou candidatos e capazes de exercerem influência perante o eleitorado”, com previsão de prisão ou pagamento de multa. Depois disso, foi a vez de Serra ganhar o direito de responder à adversária. "Questões que envolvem democracia e moralidade não se resolvem com brabeza", reagiu o tucano. 

Direitos de resposta

As críticas de Serra, entretanto, não se restringiram às denúncias de corrupção. Ele criticou, por exemplo, o relacionamento do atual governo com o Irã, alegando que a administração federal diz ter “amizade e carinho” pelo presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Dilma reagiu dizendo-se uma defensora dos direitos humanos, enquanto Serra descreveu a rival como "evasiva".

“As pessoas do Brasil sabem que eu não sou caluniador e evasivo. Todo mundo conhece quem eu sou, no seu caso ( Dilma ) realmente não dá para dizer se você é caluniadora ou evasiva. Agora, evasiva já dá para saber que é”, ironizou o tucano. Em meio à troca de ataques, Dilma disse ao tucano age como "dono da verdade" e comparou a discussão à derrota surpreendente dos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã. “Não subestime ninguém candidato, você não é melhor do que ninguém”, disse.

Serra, por sua vez, foi indagado por jornalistas sobre o fato de ter utilizado a imagem do presidente Lula em seu programa no horário eleitoral gratuito. “Eu não sou e nunca fui de considerar oposição como inimiga, uma especialidade do PT. (...) Ele ( Lula ) é um homem que tem experiência, tem história e disputou muitas eleições e fiz um paralelo comigo, que também fiz isso.”

Ainda assim, o tema das denúncias contra aliados de Dilma foi retomado até o último bloco. E, nas considerações finais, Dilma recorreu até ao neto Gabriel, que nasceu esta semana.  “Tudo que eu puder dar para o meu neto, gostaria de dar para as crianças do Brasil”, afirmou.

*Colaboraram Alessandra Oggioni e Cíntia Acayaba

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