Em busca do 2º turno, Serra tentou ser mais solto e divertido

Ainda assim, relação com imprensa e aliados teve tropeços ao longo da campanha

Adriano Ceolin, iG Brasília, e Nara Alves, iG São Paulo |

O relógio marca 4 horas da madrugada quando o candidato do PSDB a presidente, José Serra, passa pela sala de desembarque do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Mesmo depois de quase quatro horas de viagem em que dormiu apenas duas, ele decide parar e conversar com algumas pessoas que estão trabalhando àquela hora.

Serra acaba de chegar de Manaus (AM), onde teve um dia cheio de atividades de campanha. Almoçou com empresários, fez uma palestra, deu entrevistas, visitou uma montadora de motos e fez uma caminhada por um bairro de periferia chamado Mutirão. No local, entrou numa academia e participou de uma aula de body jump.

Apenas algumas horas depois de a cena ser registrada por repórteres e publicada no YouTube, Serra conversa animado com funcionárias de cooperativas de táxi na sala de desembarque do Galeão. Ansiosos para chegar ao hotel, assessores de Serra se entreolham com ar de lamento.

Ninguém reclama ou faz cara feia. Todos admiram o candidato, que se manteve animado e “cheio de energia”, como ele mesmo costuma dizer, do início ao fim ao longo da campanha neste primeiro turno. Alguns assessores até adotam suas manias, como passar álcool gel nas mãos após uma atividade na rua.

À distância, gostam de chamar Serra de “o chefe”. Quando se dirigem a ele, usam o formal “governador”. Mas de vez em quando escapa um “Serra” solto. O “chefe” não liga. Mas gosta de atenção e cuidados. O celular fica com o ajudante de ordens, responsável também por uma mochila onde guarda remédios e o energético de guaraná que Serra toma, principalmente, antes de comícios. Quando não há a bebida, toma um refrigerante de guaraná simples e sem gelo.

Serra não chega a retribuir os cuidados, mas pergunta como estão familiares, se estão se alimentando direito e se conseguiram dormir durante o voo. Em Salvador, dentro da van que o leva para visitar o arcebispo de Salvador, o tucano pede o telefone celular ( um Blackberry ) para fazer uma ligação.

Agência Estado
Agora mais solto, Serra ensaia passos de dança em uma caminhada com Alckmin em Osasco, na sexta-feira
O tucano tentou resistir ao uso dos smartphones, mas acabou convencido por uma assessora ainda quando estava no comando do governo do Estado de São Paulo: “O senhor é governador, precisa de um telefone com acesso a emails”. Optou por um da marca Blackberry. “Aquele outro ( iPhone ) tem de passar o dedo na tela”, disse.

Com o telefone na mão, liga para uma das suas principais secretárias. Antes de fazer um pedido, Serra lamenta a morte da irmã dela e pergunta como a mãe reagiu à perda. Ao ouvir da secretária ainda não deu a notícia, o tucano preocupa-se e aconselha a secretária a adiar a conversa.

Para assessores que o acompanham desde o Ministério da Saúde (cargo que ocupou entre 1998 e 2002), o tucano mudou. Dizem que ele está mais atencioso, cordato e até divertido. Se no ministério ascensoristas reclamavam que ele “não dava bom dia”, agora faz questão de saber quem é quem ao seu lado.

Relação com políticos

A ida ao Rio naquela madrugada de sábado, 23 de agosto, tinha como finalidade a participação em uma caminhada no município de Duque de Caxias, a 15 km da capital. O evento tinha a promoção do prefeito José Zito (PSDB), que tenta eleger a filha e a mulher deputada estadual e federal, respectivamente.

A caminhada começou às 11 horas, mas Serra se atrasa, como de costume, e participa só do fim do evento embalado por funks e com o grito “Vem com Zito, Vem”. O jingle do candidato tucano à Presidência não toca, mas ele não reclama. Ao contrário agradece “o apoio” ao prefeito fluminense e participa de oração no meio da rua no fim da caminhada.

Apesar de o evento ser no Rio de Janeiro, a atividade não conta com a participação das principais lideranças do DEM no Estado: o candidato a vice, Indio da Costa, o ex-prefeito carioca e candidato ao Senado, Cesar Maia, e o filho dele Rodrigo Maia, presidente nacional do DEM.

Indio não pode ir porque já havia marcado outra atividade. Na véspera, ele tentou convencer Rodrigo e Cesar Maia a ir. “Mas será que não dá para seu pai passar lá”, disse. Ao ouvir um “não”, o candidato a vice resigna-se. Indio é o integrante do DEM que mais teve afinidade com Serra neste primeiro turno.

No debate realizado em Brasília no dia 23 de setembro, o candidato a vice foi o único integrante do DEM a prestigiar Serra no evento. “Sou o vice. Tenho de me dar bem com ele”, diz Indio. Rodrigo Maia não lamenta a distância do candidato apoiado por seu partido. “Estou fazendo minha parte, que é pedir voto”, disse.

No início da campanha, o coordenador-geral e presidente do PSDB, Sérgio Guerra, anunciou a criação de um conselho político integrado pelos presidentes dos partidos da aliança (PSDB, DEM e PPS). A instância nunca funcionou e o próprio Sérgio Guerra parou de falar com Serra com frequência.

Principal concorrente de Serra dentro do PSDB para ficar com a vaga de candidato a presidente, o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves é outro que participa pouco das decisões de campanha. É visto com desconfiança pelo grupo de Serra, principalmente porque já declarou publicamente ter “afinidade com setores do PT”.

AE
Na prática, o ex-governador de Minas Aécio Neves também tem pouca participação na tomada de decisões da campanha tucana
Apesar disso, Serra não é refratário aos conselhos do mineiro, principalmente quando está no território do ex-governador. Na sexta-feira, 24 de setembro, o candidato a presidente foi a Diamantina (MG) fazer campanha ao lado de Aécio. Antes dar uma entrevista na principal praça da cidade, os dois entram num bar e tomam um chope junto com Antonio Anastasia, candidato ao governo de Minas pelo PSDB.

Aécio fala para Serra. “Fala da generosidade de JK”. Serra ouve e concorda com a cabeça. Termina o chope, passa um colírio nos olhos e depois ainda pede um cafezinho. Minutos depois disse em entrevista: “É um homem que governou o Brasil com competência, generosidade, com tolerância. Nunca tratou adversário como inimigo”. Aécio assentiu com a cabeça e sorriu.

Contato com a imprensa

Com seu novo smartphone, Serra passou a registrar, a partir de seu ponto de vista, suas caminhadas pelo Brasil. Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Serra fez um vídeo do churrasquinho na laje na favela Ouro Preto. Ele gravou sua conversa com a dona da casa e brincou com os fotógrafos e cinegrafistas que se arriscavam pelo lado de fora para conseguir a melhor imagem do candidato. Serra apontou a câmera para a cara de cada repórter e, como um narrador, apresentou os profissionais pelo nome.

Os chamados “carrapatos”, jornalistas que acompanham candidatos diariamente por diversos Estados, se acostumaram a se amontoar em volta de Serra para conseguir, ao menos, ouvir o que ele tinha a dizer. Ou o que ele não tinha a dizer, especialmente sobre “estratégia, pesquisa e fofoca”, como ele mesmo listava. Se algum repórter insistia na pergunta sobre algum desses três temas, Serra era categórico: “Não comento”.

Em entrevista à Rede CNT, Serra se irritou com as perguntas da jornalista Márcia Peltier. "Faz de conta que eu não vim", disse. Informalmente, sua assessoria justificou o aborrecimento do candidato dizendo que, além do habitual mau humor matinal de Serra, naquele dia ele enfrentava uma indisposição estomacal.

Mas Márcia foi uma exceção. Para repórteres mulheres, Serra reserva um tratamento especial e não se furta a galantear, ao vivo e em rede nacional, algumas delas. Entre as respostas durante uma coletiva de imprensa, gosta de elogiar os olhos azuis de uma, ou os cabelos de outra. Para a apresentadora Sabrina Sato, do Pânico, Serra disse: “O que eu mais gosto é do jeito como você me olha”.

    Leia tudo sobre: eleições

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG