Eleito deputado, Romário diz que está amarradão com a política

Em entrevista exclusiva ao iG, ex-jogador diz que vai manter a autenticidade e que vão ouvir muito falar dele na Câmara

iG Rio de Janeiro |

Eleito deputado federal, com 146.859 votos, em sua estreia na política, Romário deu ao iG sua primeira entrevista exclusiva após as urnas terem se fechado, ainda em seu comitê, na Barra da Tijuca.

Na conversa, revela estar "amarradão" com política e promete não desonrar seus filhos, para não ouvirem na escola que o pai é "corrupto", "safado". Disse que tem histórico de "polêmico, mas de personalidade" e "cumpridor da palavra" e que não precisa da política para glória, dinheiro ou poder.

Wania Corredo / Agência Globo
Romário, candidato a deputado federal, votou acompanhado da esposa Isabella, no Colégio Joseph Brito, em Parada de Lucas, na zona norte do Rio de Janeiro
O ex-jogador tetracampeão do mundo, em 1994, lembra que cresceu na favela do Jacarezinho e cansou de pedir votos - até de muletas - para outros políticos. Ele entende que muitos sejam descrentes de sua transição do esporte para a política, mas promete se empenhar para ser um político "do bem".

Mantendo o seu estilo franco e direto, Romário conta que vai continuar sendo "autêntico" e que às vezes vai continuar "sem saco" para fazer algumas coisas. "As pessoas vão ter de me entender."

Ídolo acostumado ao assédio, achou curiosa a mudança de relação com os fãs no começo da campanha porque além de oferecer um abraço, tinha também de pedir algo, o voto.

Tido como frio nos gramados, a estreia na política foi marcada por muita tensão. "Estou nervoso para caceta!"

O estreante no tapete verde pede a Deus para ser iluminado para escolher os parceiros certos na Câmara. Não descarta voos mais altos na política, mas diz que, como no futebol, quer ir degrau por degrau.

Leia agora os principais trechos da entrevista exclusiva ao iG .

iG: Por que você resolveu se candidatar a deputado?

Algumas coisas me fizeram entrar na política. Já entrei muito em carro de bombeiro, caminhei até de muleta para ajudar candidatos em caminhada – quando operei a perna – sempre com o objetivo de ajudá-los, sempre para eles fazerem alguma coisa para esses lugares. Pedi por eles. E cheguei a um momento em que disse: Quer saber Quem vai fazer sou eu! Já que eles não fazem porque não querem ou não tem competência, vou fazer. O outro é que nasci na favela, vivi na favela, aos quatro anos fui para a Vila da Penha... As pessoas hoje falam comunidade mas prefiro dizer favela. Nasci no Jacaré, mas vivi lá até os 20 anos, tenho tios e tias que sempre me ajudaram, me educaram. Sei por conhecimento de causa o que é passar necessidade. São duas coisas que vou lutar em Brasília por conhecimento de causa: não é demagogia nem hipocrisia. Sei o que é ser pai de uma criança especial, sou espelho para muitos pais que não têm minha condição financeira. E de jovens carentes que vivem em comunidade. Se não tivesse seguido os conselhos de meu pai talvez não fosse nunca tivesse sido jogador de futebol. Acredito que o esporte pode fazer a diferença. Muitos meninos que nasceram na favela, como eu, talvez nenhum se torne um Romário, mas o esporte vai dar oportunidade para eles serem alguma coisa.

iG: Além das pessoas que o cercavam [após votar], gritavam seu nome e pediam autógrafos, já tinha alguns que falavam: ‘Olha lá, hein, Romário!’

Existem pessoas que, com razão, recriminam, criticam e duvidam da minha atitude, a partir do momento em que eu me tornar político. É bem justo, tem que ser assim. Ninguém é unanimidade. Eu tenho é de mostrar que vou cumprir 100% com minha obrigação como político.

iG: Está tomando gosto pela coisa?

Até hoje, o que eu fiz, estou amarradão, não me arrependo nem um pouco. Eu vou saber agora, dependendo do número de votos, se o que fiz valeu a pena. Ser eleito não significa ter vitória política. Entrei para fazer entre 95 mil e 115 mil votos. Se chegar a esse número estou muito satisfeito. Menos, posso até entrar, mas não talvez não seja uma vitória política.

iG: E você gostou de fazer campanha?

Foram 2 meses e pouco da minha vida... Curti e com certeza adorei. 

iG: A campanha está bastante profissional, com gente especializada. Você está orientado por um consultor político, tem um discurso sério.

Como não sou profissional, fiz questão de que as outras pessoas fossem profissionais. Meu irmão, minha irmã, dois amigos que vestiram a camisa. Foram mais ou menos 60 pessoas. Aprendi com meus assessores. Minhas respostas não foram construídas. Sempre estive totalmente envolvido com crianças especiais e comunidades. Precisamos aproveitar esses quatro, seis anos em de moda do esporte para fazer com que a criançada aproveite o esporte para ter qualidade de vida. O crack está invadindo o Estado, pessoas indo para as drogas e o tráfico. Quero fazer centros esportivos, colégios nas comunidades. Sei que não vou mudar o Brasil nem o Rio, mas tenho o compromisso de ajudar.

Raphael Gomide
Romário posa para fotos ao lado de dois fiscais eleitorais, dois fãs do deputado eleito
iG: Mas vc tinha uma impressão negativa dos políticos...

Eu sou brasileiro. Quando se fala de político, infelizmente é malvisto por todos nós, e eu não vou fugir disso. [Andei em carro de bombeiro por políticos, andei de muletas pedindo votos para candidatos e me decepcionei.] Tenho visto melhora no Brasil nos últimos anos, até por obrigação e medo. Porque agora, realmente vão para a cadeia [políticos corruptos]. A maioria dos políticos que conheci, jovens, tem essa idéia de entrar com para ajudar, porque se não for com esse objetivo, se for mau político, não vai ser reeleito, pode perder o mandato e, o pior: vai ser preso, esculachado, e sua família vai ser mal falada. A pior coisa para um homem – vou falar por mim –, é o seu filho estar na escola e seu filho ouvir: ‘Seu pai é ladrão, é corrupto, é safado.’ Eu tenho fé em Deus que meus filhos não vão passar por isso.
Eu não tenho por que fazer isso, ser ladrão, corrupto. Tenho bastante consciência de que vou errar: médico erra, advogado erro ou jogador de futebol que erra. Sou católico, e oro bastante para que meus erros sejam comuns e possa refazer isso. Você vai ouvir muito falar de mim. Vou brigar muito, vou – desculpe até a expressão – vou sair muito na porrada, mas sempre por uma causa legal, boa. Vou tentar fazer o maior número de amigos na Câmara, para fazer junto as coisas que são do bem.

iG: Você disse que já ajudou políticos e se decepcionou. Por que quis virar você também um político?

Mostrei para as pessoas que essa minha transição de ex-ídolo, ex-jogador de futebol para político, as pessoas entenderam que eu posso fazer uma diferença, pelo meu histórico no futebol. Tenho histórico de polêmico, de problema, mas também de um cara que tem personalidade, cumpridor da palavra. O mais importante: não preciso da política na minha vida mais. Não preciso de glória, dinheiro, poder. Poderia muito bem viver minha vida.

iG: Você já imaginava ter uma votação expressiva, porque é muito grande o assédio na rua? Você sempre andou assim, acenando na rua, como hoje?

É difícil você entender o que vou te falar porque o meu lado é diferente do seu. As pessoas sempre vieram ao Romário pedir foto, autógrafo, beijo e abraço. Continuaram vindo. Só que agora eu também a eles alguma coisa, que é o voto. O começo foi diferente, foi estranho, mas depois que comece a tomar gosto a aceitação foi uma coisa do c..

iG: Você antes, na rua, cumprimentava todo mundo, como hoje, ou era um cara mais reservado?

Nunca fui de andar muito na rua. Depende do momento e do que vou fazer. Se vou a um evento tenho que saber que, porque sou quem eu sou, lá vou dar autógrafo, abraço, bater foto. Mas infelizmente, teve momentos na vida que, mesmo sabendo que estava indo para aquele lugar, não estava com muito saco. E sempre fui muito autêntico. Aí vem o ‘marrento’, o ‘antipático’, o ‘mascarado’. E o político também tem dia que não está legal. E vou continuar sendo autêntico. E vou continuar sendo autêntico. Vou fazer minha obrigação de político: fazer o bem para o povo, minha concepção é essa. As pessoas tem de entender que vai ter determinado dia em que o Romário político também não vai estar muito com saco de dar beijo, abraço, até logo, e as pessoas vão ter que me entender. Estou sendo bem sincero contigo. É a vida.

iG: Você sempre votou, votou nas últimas eleições? Sempre votou em parada de Lucas? E por que não mudou a zona eleitoral para a Barra da Tijuca [onde mora]?

“Sempre votei em Parada de Lucas. Há duas eleições, a Bella [Isabella, sua mulher] me perguntou por que não mudava meu voto para cá. Aí disse: Sabe o que acontece? As pessoas me vêem muito pouco lá. Então, minha ida lá se torna, mais ou menos um evento para eles lá. Era o motivo para eu continuar lá. Hoje é a prova de que eu acertei. Mas eu não vou lá só agora porque sou candidato. Frequento favela, jogo pelada, ouço funk, participo de eventos beneficentes em comunidade, a imprensa não sabe, não tem nada novo para mim.

iG: A BMW [X6] que você usou para votar é blindada?

[A BMW] Não é [blindado], nunca foi nem nunca vou precisar!

iG: Você vai encontrar um monte de fãs lá no Congresso, não?

Espero ter fãs no Congresso, mas principalmente companheiros para projetos do bem.

iG: Seus irmãos, que atuaram na sua campanha, vão trabalhar no seu gabinete?

Meu irmão, minha irmã, participaram da minha campanha agora. Eles têm a vida deles, meu irmão trabalha no América, minha irmã tem a vida dela... Vao continuar fazendo o que fazem.

iG: Você chegou a conversar com o Roberto Dinamite [ex-atacante e ídolo do Vasco da Gama, time onde Romário começou como profissional], por exemplo, que tem trajetória semelhante à sua?

Andei com eles, com o Roberto Dinamite – conversei com ele um pouco -, andei com o Bebeto. Conversei com o Roberto, troquei uma ideia. São mais dois parceiros que vou ter nessa nova caminhada. Fazer parceiros, no futebol, sempre foi interessante, e agora muito mais.

iG: Você está ansioso? Quantos votos acha que terá? [antes do fim da apuração]

Estou nervoso para caceta! P., o coração está disparado, meu irmão... Os palavrões, se puder não botar, que nessa hora falo palavrão para caceta... Minha assessora está com a mão na cabeça ali... P. que o pariu... Nervoso, né? Para ver o que vai acontecer. Ansioso. Acho que vou ter de 120 mil a 180 mil votos.”

iG: Com quem você aprendeu mais política nessa campanha?

Muita gente me ajudou. Não sei se sou melhor ou pior do que ninguém. Sempre aprendi tudo na prática e, a partir de 2 de fevereiro, praticando, vou aprender com os que sabem, e fazer parcerias com políticos do bem. Como no futebol tem jogadores do bem, tem políticos que não são do bem. Tenho fé e rezo para ser iluminado, para Deus me dar sabedoria e eu escolher os certos.

iG: Tendo sucesso nesta eleição, você pensa em se candidatar a outros postos, como por exemplo, senador, governador, presidente?

No futebol, vamos botar isso para o futebol Comecei no infantil do Olaria, e queria ganhar a competição do infantil no Olaria. Depois, no juvenil do Vasco, queria ser o melhor jogador e artilheiro. As coisas na minha vida foram assim: degrau por degrau. Estou vindo para deputado federal. Meu objetivo principal é cumprir os quatro anos, ter o melhor resultado possível. Se lá na frente eu tomar gosto, posso pensar em outra coisa. Mas hoje o objetivo é deputado federal. Não tenho nada que passe na minha idéia. 

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