Dutra: 'Se você perguntar se quero ser senador, diria: lógico'

Presidente nacional do PT é cotado para assumir no Senado a cadeira de Antonio Valadares, que pode ir para o ministério

Ricardo Galhardo, enviado, e Andréia Sadi, iG Brasília |

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, brinca com o apelido que ganhou do PMDB e caiu no gosto da presidenta eleita Dilma Rousseff durante a campanha. Um dos “três porquinhos” da petista, Dutra é considerado um homem de confiança da ex-candidata e foi indicado para estabelecer o diálogo com partidos aliados durante a transição.

No comando do PT, Dutra é cotado nos bastidores do partido para assumir uma vaga no Senado no ano que vem. O petista é suplente do senador eleito Antonio Valadares, do PSB, que, na operação, poderia ocupar um cargo no ministério de Dilma.

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O presidente nacional do PT virou um dos homens de confiança de Dilma Rousseff

Em entrevista ao iG , Dutra admite que gostaria de ir para o Senado, mas diz que isso não depende dele. “Seja como presidente do PT, como senador ou ocupando cargo no governo o importante é dar minha contribuição para a Dilma, ou melhor presidenta Dilma, tem que acostumar”, afirmou.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista:

iG – Na semana que vem o senhor terá uma série de conversas com os partidos aliados. Como serão essas conversas. Elas vão tratar da partilha dos cargos no governo Dilma?

José Eduardo Dutra – Estamos fazendo conversas preliminares. Não vai entrar em partilha de cargos até porque não tenho poder para isso. A presidenta Dilma solicitou que eu iniciasse conversas com os partidos para ouvir demandas, pleitos etc. Tenho a intenção de fazer todas essas conversas até o fim da semana que vem para que quando ela voltar da viagem com o presidente Lula possa ter um panorama geral.

iG – Com quais partidos o senhor conversou até agora?

Dutra - Por enquanto conversamos só com o PMDB. As outras conversas serão todas na semana que vem.

iG – Vocês conversaram sobre cargos?

Dutra - Não. Foi uma conversa genérica, mais para afirmar o sentimento dos dois partidos que é convergente, pela unidade,construtivo, não queremos criar problemas para o governo no início. Neste sentido tocamos no assunto da eleição para a presidência da Câmara. Não queremos deixar as duas coisas se misturarem. Não vai se usar a discussão sobre a mesa da Câmara para ter compensação no governo. São duas coisas separadas mas que interessam ao governo e à base aliada. Não é bom que logo no início do governo os dois maiores partidos entrem numa disputa. Com base nisso o Michel Temer propôs, e nós estamos pensando nisso, a idéia de firmar um protocolo entre os presidentes dos dois partidos semelhante àquele que foi feito quatro anos atrás onde se acerta que não haverá disputa entre PT e PMDB e que haverá um revezamento. No primeiro biênio ficaria um partido e no segundo outro. A gente não iria antecipar neste momento quem começa. Até porque isso tem que envolver os deputados.

iG – O senhor prefere que o PT comece este revezamento?

Dutra – Sou suspeito para falar. Sou presidente do PT. Sei que a bancada do PT prefere começar.

iG – Este protocolo é um documento? O Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) já deu entrevistas dizendo que não abre mão.

Dutra - É um documento que seria assinado pelos dois presidentes. Agora, a posição do Michel Temer não é de intransigência. Ele nunca colocou que o PMDB não abre mão disso ou daquilo. O mais importante é que a partir do momento em que se confirme o revezamento não haja mais disputa. Não tem sentido abrir uma disputa só para ver quem vai ser o primeiro. Se isso acontecer será muita incompetência da nossa parte.

iG – Enquanto isso os candidatos estão se reforçando. O presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), já disse que vai apoiar Candido Vacarezza (PT).

Dutra - Este é um processo que na medida do possível tem que ser consensual não só na bancada do governo mas até com a oposição. Se os dois maiores partidos chegam a um consenso não há porque não buscar esse consenso também com a oposição. Não é uma questão de composição do governo mas da mesa do Parlamento. A partir do momento em que a mesa é composta de acordo com a proporcionalidade das bancadas os partidos de oposição também terão assento. Quanto ao Rodrigo Maia ele está se antecipando ao próprio PT porque o Vacarezza não é o único nome.

iG – Pode haver disputa interna no PT?

Dutra - A partir do momento que chegarmos a um acordo com o PMDB é nossa obrigação conseguirmos um consenso interno. Não é possível abrir uma votação dentro da bancada para depois ir para a disputa na mesa.

iG – A inclusão de Temer na coordenação da transição foi uma imposição do PMDB?

Dutra - Não. Já estava previsto exatamente pelo fato de ele ser o vice. Acontece que estão dando uma importância indevida a essa comissão de transição porque talvez esteja um pouco na cabeça das pessoas a transição de 2002, que tinha coordenadores de diversas áreas e muitos deles acabaram virando ministros. A própria Dilma, Palocci, Humberto Costa. Só que naquela época era uma transição entre governos diferentes e agora é entre governos de continuidade política. Esta comissão não tem a mesma importância entre aspas daquela de 2006. É uma comissão técnica, os nomes são técnicos, e na maioria são pessoas que saíram dos ministérios para participar da campanha e agora vão fazer a transição. Eles vão coletar informações porque existe uma série de medidas a serem tomadas nos primeiros 100 dias e as informações precisam ser passadas.

iG – A coordenação tem discutido as primeiras ações do governo?

Dutra – As reuniões até agora são muito mais burocráticas, de encerramento da campanha, de quem é que vai continuar sendo aproveitado, quem fecha tal contrato, como entregar o prédio, como resolver a moradia da Dilma etc. Não discutimos estratégia de governo até porque a Dilma não tomou a iniciativa de conversar sobre isso.

iG – Nem a estratégia para os primeiros 100 dias?

Dutra – Ainda não, porque a Dilma passou estes dias dando entrevistas, vai descansar e depois vai viajar com o presidente Lula. Acho que ela quer ter uma primeira conversa com o presidente Lula. Eles vão viajar juntos e terão muito tempo para conversar. Acho que a partir disso ela vai começar a conversar conosco. Acredito que ela tenha uma formatação na cabeça mas ainda não externou isso.

iG – Onde ela vai morar até a posse?

Dutra – Estamos vendo a hipótese de ela ir para a Granja do Torto. Lula foi para lá em 2002. Porque na casa onde ela mora daqui a pouco vai ser expulsa pelos vizinhos. É impossível aquela muvuca em um local residencial.

iG – Os outros partidos da base também manifestaram interesse de participar da transição?

Dutra - Esta é uma fase muito restrita. Não tem sentido querer repetir agora o conselho político que existiu na campanha ( formado por todos os partidos da coligação ). Vamos conversar individualmente com cada partido. Vai chegar o momento em que a Dilma vai conversar com os partidos e ela poderá, a depender da dinâmica do processo, propor uma reunião coletiva com os partidos.

iG – É verdade que a presidenta quer apenas uma pessoa de cada partido para negociar os cargos?

Dutra - O ideal é ter um processo de negociação com um interlocutor. Para evitar ficar dividindo, senão você conversa com o grupo “A” do partido “A”, o grupo “B” do partido “B” etc. Um conjunto de conversas que já demorado porque são dez partidos de você transforma em três grupos por partido se torna impossível.

iG – Os partidos já indicaram estes nomes?

Dutra – Estou procurando os presidentes. Já conversei por telefone com todos eles e acertei que vou conversar com todos na semana que vem. Cada presidente tem legitimidade de levar na conversa quem ele quiser. O que não podemos é negociar em paralelo.

iG – Como será o processo no PT?

Dutra – Vamos ter uma reunião com um grupo da Executiva na terça-feira, uma reunião de toda a executiva dia 18 e do Diretório Nacional 19 e 20. O mais provável é que no âmbito do PT se tire uma comissão que vai ouvir as diversas correntes e apresentar para mim as demandas internas. Agora, o PT tem que entender que já tem a presidenta.

iG – Estes acenos da presidenta para a oposição podem resultar em algo concreto?

Dutra – Fui senador de oposição por oito anos em uma relação entre governo e oposição de Fla x Flu. O que vinha da oposição era tratorado e o que o governo apresentava a oposição era contra. Depois tivemos mais oito anos de governo Lula com a mesma situação. Já deu, né? Está 1 a 1. É possível construir uma relação na qual sem entrar em um processo de cooptação e sem exigir que oposição abra mão não diria nem do direito mas da quase obrigação de fazer oposição, fiscalizar o governo e tentar se qualificar perante a população para deixar de ser oposição daqui quatro anos, é possível sem prejuízo disso construir uma relação republicana e que possibilite que em determinadas propostas a oposição analise do ponto de vista do interesse do País. O mesmo vale da parte do governo em relação às propostas da oposição. Agora, quem tem que fazer o gesto é quem ganha.

iG – O senhor é o primeiro suplente do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). É verdade que ele pode assumir um cargo no governo para que o senhor assuma a vaga no Senado?

Dutra – Ouvi especulações de que o Valadares iria para um ministério mas isso não depende de mim, depende do PSB. Se o PSB vier a indicar o Valadares para um ministério, houver um acordo com a Dilma e isso acontecer, eu vou para o Senado. Mas dentro da minha lógica isso não está colocado como objetivo. Sou presidente do PT e tenho mais três anos de mandato. Quando deixei a BR Distribuidora meu objetivo era voltar à atividade política e partidária.

iG – O senhor prefere ficar na presidência do PT ou ir para o governo?

Dutra – Não tenho preferência e isso não é demagogia. Seja como presidente do PT, como senador ou ocupando cargo no governo o importante é dar minha contribuição para a Dilma, ou melhor presidenta Dilma, tem que acostumar.

iG – O senhor não seria um bom nome para ajudar a presidenta no Senado?

Dutra – Se você me perguntar se eu gostaria de ir para o Senado eu diria “lógico”. Fiquei lá oito anos, gosto de lá, tenho bom trânsito lá mas isso não depende de mim. Não fui eleito senador

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