Disputa distinta e de desafios olímpicos

Sob a perspectiva da Copa de 2014 e dos Jogos de 2016, futuro governador do Rio terá de garantir importantes avanços no Estado

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

Por trás dos problemas mais crônicos do Rio de Janeiro, o governador eleito neste domingo (3) terá dois específicos e inadiáveis desafios: organizar a Copa de 2014 e capacitar o Estado para receber os Jogos Olímpicos, em 2016. Ao longo da campanha pelo Palácio Guanabara, os candidatos foram unânimes em afirmar que os eventos esportivos são uma oportunidade única de obter recursos para enfrentar problemas de infraestrutura, alavancar o desenvolvimento econômico e melhorar a qualidade de vida da população.

Os desafios do Estado vão além dos eventos que prometem atrair a atenção mundial. No último levantamento do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), o Rio de Janeiro ficou na penúltima posição, com 2,8 pontos, à frente do Piauí e empatado com Alagoas, Amapá e Rio Grande do Norte.

Apenas 49,2% dos 92 municípios fluminenses contam com rede de esgoto sanitário, segundo o IBGE, e o número de homicídios é de 41,5 a cada 100 mil habitantes. O desemprego, que em novembro registrou a segunda queda consecutiva, ainda de acordo com o IBGE, ainda atinge 5,7% da população. A rede metroviária, que só atende a capital, com apenas duas linhas, tem 42 quilômetros de extensão, criadas há três décadas.

Ao todo, seis candidatos estão na corrida: o governador Sérgio Cabral (PMDB), pela coligação “Estamos Juntos” que congrega 16 partidos, entre eles o PT; Fernando Gabeira (PV) na chapa “Rio Esperança”, que reúne PSDB, DEM e PPS e Fernando Peregrino (PR), de “A Força do Povo” com o apoio do PTdoB. Jefferson Moura (PSOL), Cyro Garcia (PSTU) e Eduardo Serra (PCB) disputam sozinhos.

Cabral e Gabeira aparecem na frente 

Cabral lidera a corrida com 58% das intenções de voto, seguido de Gabeira, com 18% e Fernando Peregrino, 5%, de acordo com o último levantamento do Instituto Datafolha . Os demais candidatos atravessaram a campanha entre 1% e 2% das intenções, segundo pesquisas.

“Essa liderança do governador faz parte de um pacote: o apoio do governo federal, com destaque para o presidente Lula, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs)”, ressalta o cientista político Wladimir Lombardo Jorge, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

O governador lançou-se à reeleição com 75% de aprovação de seu governo, de acordo com um levantamento do instituto Vox Populi divulgado em março. O maior percentual foi no interior do Rio, 47%, seguido da região metropolitana, 42%. A capital foi a área onde o governador apresentou pior desempenho, 38% de aprovação.

"O governador Sérgio Cabral também conta com muitos votos de conveniência puxados pelas lideranças municipais que, de alguma forma, se sentem compensadas pelo atual governo", acrescenta Marcus Figueiredo, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj.

A cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ingrid Sarti, avalia que a liderança de Cabral ao longo da campanha também se deve ao desempenho dos adversários. "Para mim é inédita a falta de propostas da oposição", diz. "Foram acusações e choramingueira o tempo todo, não apareceu uma proposta que pudesse fazer o eleitor mudar o voto ou refletir sobre uma possível mudança", conclui.  

Propostas

Em busca da reeleição e, consequentemente, do comando das transformações necessárias à realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, Cabral prometeu implantar UPPs em todas das favelas sob domínio de narcotraficantes, sanear 90% da área metropolitana do Rio até 2014; levar o metrô até a Barra da Tijuca (zona oeste) e fazer a Linha 3 para ligar os municípios de Niteroi, São Gonçalo e Itaboraí, na região metropolitana.

Gabeira garantiu manter as UPPs e associá-las a obras sociais e de infraestrutura. Sobre saneamento, disse que é a solução para o esgoto doméstico e que é necessário fazer “pressão nas empresas para diminuir a poluição”. Em relação ao metrô, manifestou-se a favor da Linha 3 e da implantação das barcas até São Gonçalo enquanto a obra não for concluída.

“As propostas do principal candidato da oposição são parecidas com as do governador. Se é assim, a população pensa ‘Se o Cabral já está fazendo, e bem, por que eu vou mudar?’”, diz Vladimir Jorge. “É sempre difícil ser oposição quando você enfrenta um governo bem avaliado”, complementa.

Fernando Peregrino prometeu resgatar programas lançados pelos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho, seus apoiadores, como Cheque Cidadão e Restaurante Popular. “O baixo desempenho do Peregrino pode ser explicado por esse apoio do casal Garotinho, que está desgastado no Estado”, diz o professor Marcus Figueiredo. “Além disso, ele é desconhecido e está em um partido pequeno. O PR não tem capacidade de aglutinação política”, sintetiza.

Jefferson Moura prometeu educação pública de qualidade em horário integral, prioridade para o Programa de Saúde da Família e a revisão das concessões de trens, barcas e metrô. Cyro Garcia prometeu aumentar verbas para a educação, desmilitarizar a PM e reestatizar as concessões do transporte público no Estado. Já Eduardo Serra defendeu a unificação das polícias Civil e Militar, a reestatização dos serviços de trens, barcas e metro e melhores salários para servidores públicos.

“Embora Peregrino apareça com 5% das intenções nas pesquisas, isso revela a capacidade do ex-governador Anthony Garotinho de transferir votos. É mais do que todos os partidos da esquerda – PSTU, PCB, PSOL – conseguiram ao longo da campanha”, analisa Marcus Figueiredo.

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