Major Olímpio (PDT), que era favorito para vice de petista, sofria resistências e levou partidos a se unirem em torno de ex-tucano

Nem policial nem ex-prefeito nem sindicalista. Após semanas de intensas negociações com o PDT, um professor universitário dissidente do PSDB foi definido como candidato a vice-governador na chapa de Aloizio Mercadante (PT) na disputa pelo governo de São Paulo.

A escolha de Antonio “Coca” Ferraz, professor titular de engenharia da USP São Carlos, foi acertada na antevéspera da convenção que vai oficializar, neste sábado, a candidatura do petista ao governo paulista. O nome do ex-tucano começou a ser aventado no início da semana e o pegou de surpresa. Até então ele se preparava para lançar sua candidatura a deputado pelo PDT.

Mercadante com o vice, Antonio ¿Coca¿ Ferraz (PDT)
Cesar Ogata/Divulgação
Mercadante com o vice, Antonio ¿Coca¿ Ferraz (PDT)
Além disso, até o início da semana, apenas quatro nomes, apresentados há semanas pelo PDT, eram analisados pelos petistas, entre eles o do deputado estadual Major Olímpio Gomes, então “favorito” na disputa. Corriam por fora Eunice Cabral, presidente do Sindicato das Costureiras de SP; Manuel Antunes, ex-prefeito de São José de Rio de Preto; e Carlos Hernandes, ex-prefeito de Araçatuba. A pedido do PT, os pedetistas foram forçados a ampliar o leque de opções na tentativa de salvar a aliança.

Considerado linha-dura, com discurso “pesado” em relação à segurança pública e contra o ex-governador Geraldo Alckmin, candidato tucano ao governo, Olímpio sofria resistências tanto no PT como no PDT. Parte de seu discurso, que segundo ele mesmo "assustou" os arquitetos da aliança, é que o governo tucano contribuiu para o fortalecimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo.

Ele diz abertamente ter provas de supostas irregularidades cometidas pelo governo Alckmin na área de segurança. Policial na ativa durante os ataques promovidos pela facção criminosa contra autoridades em 2006, Olímpio afirma ser uma “vítima” do governo Alckmin, que à época dos ataques estava afastado do cargo para concorrer à Presidência. “O Alckmin acha que se livrou de mim, mas não se livrou”, afirma.

Durante o tempo em que seu nome era especulado para a vice, ele se queixou a aliados que jamais se ofereceu ao cargo e se dizia incomodado por não saber se disputaria as eleições para deputado estadual ou para o governo. Reclamava também que muita gente do partido, sobretudo lideranças ligadas à Polícia Militar, já se apresentavam como seus substitutos na Assembleia – inclusive com pedidos de apoio. “Já estavam fazendo missa de corpo presente”, desabafou nesta sexta-feira.

Outra fator que contribuiu para a rejeição ao seu nome dentro do PDT, segundo o deputado, foi o fato de ele ter se filiado apenas recentemente ao partido – até o final do ano passado, ele era do PV. “Agora posso retornar às minhas atividades”.

Mesmo de fora da disputa, Major Olímpio foi citado por Mercadante como possível colaborador no debate sobre segurança pública. A proximidade com o senador nas últimas semanas faz com que ele fosse cotado, inclusive, para ser nomeado secretário em um eventual governo Mercadante.

Durante a pré-campanha, o senador tem feito duros discursos contra o que chama de desvalorização dos policiais e também dos professores da rede pública em São Paulo.

Vice convertido

No fim das negociações, entretanto, prevaleceu a opção por um político neutro, engenheiro com especialidade em transporte urbano, com raízes no interior e ligado à educação. Ex-presidente do diretório municipal do PSDB em Araraquara (SP), Coca se filiou ao PDT há pouco mais de um ano, e teve ainda passagem pelo PTB. O ex-tucano já foi adversário de Edinho Silva, presidente estadual do PT em São Paulo, em 2000, quando ambos disputaram a prefeitura de Araraquara (SP) – depois, Coca se tornou um dos principais críticos do petista, que governou a cidade até 2008.

Segundo Coca, o PSDB dos dias atuais já não é o partido do qual fez parte até três anos atrás. “O PSDB do qual eu pertenci era do Covas, era do Montoro, era mais à esquerda”, disse o candidato, acrescentando que hoje o modelo em que acredita é o “modelo de desenvolvimento que o presidente Lula trouxe ao Brasil”. Ele disse também ser admirador do ex-rival e que compartilha com ele algumas ideias "mais à esquerda".

Desconhecido do eleitor paulista, Coca foi apresentado nesta sexta-feira na sede do PDT-SP como candidato a vice ao lado de Mercadante. No evento, após um curto discurso sobre a escolha, o petista se levantou e se despediu antes mesmo de o agora aliado começar a falar.

Após perceber a gafe, permaneceu na mesa para ouvir o discurso do pedetista, que incluiu esboços de propostas para a campanha e críticas à situação dos pedágios e das estradas paulistas. Ainda citou o poeta da Antiguidade Virgílio, para afirmar que “eles podem porque eles pensam que podem” – tudo para dizer que tem certeza de que os petistas podem vencer as eleições.

Segundo Edinho Silva, ex-adversário de Coca, a opção por seu nome unificou a maior parte do PDT e assegurou a aliança para a candidatura. “Ele tem um belíssimo currículo. O que vale é o projeto”, disse o dirigente petista, sobre as antigas desavenças com o neo-aliado. Para Edinho, ter um dissidente do PSDB como aliado é um exemplo de que há um apelo por mudanças no Estado de São Paulo.

Durante a pré-campanha, Mercadante recebeu apoio de políticos antes ligados aos tucanos, como os vereadores Milton Leite (DEM) Carlos Apolinário, ex-líder do DEM na Câmara Municipal de São Paulo.

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