Discurso morno e afago a prefeitos dominam sabatina

Os presidenciáveis José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva estiveram juntos mais uma vez na Marcha em Defesa dos Municípios

Andréia Sadi e Priscilla Borges, iG Brasília |

Os principais pré-candidatos na eleição presidencial deste ano apresentaram propostas semelhantes ao responderem perguntas de prefeitos reunidos em Brasília, nesta quarta-feira. Além de afagar as cerca de 4 mil autoridades presentes, Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) defenderam parceria entre todos os entes federados na execução de políticas e fizeram promessas nas áreas da educação e a saúde. Este foi o segundo evento do mês em que trio foi sabatinado.

Organizado pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios), o evento sorteou a ordem dos discursos dos candidatos. Em primeiro lugar, falou Serra, seguido por Marina e Dilma. Cada convidado teve uma hora para responder a nove perguntas.

Os discursos de Dilma e Serra se cruzaram em alguns momentos. Determinado a não se colocar como a antítese do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial deste ano, o pré-candidato do PSDB ao Palácio do Planalto retomou o discurso da união de forças entre os partidos em benefício do País. Na fala, o tucano investiu na tese de que, se eleito, não será o "presidente de um partido".

Assim como o rival tucano, Dilma garantiu que o seu governo será apartidário. “Nós podemos dizer que faremos um governo municipalista. Fizemos um governo baseado no diálogo e na relação republicana, na qual não olhamos filiação partidária”, disse.

Já a senadora do PV afirmou que os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram grandes líderes, mas não avançaram em reformas importantes. “Se fosse fácil, o sociólogo teria feito a reforma política, tributária e previdenciária. Se fosse fácil, o operário teria feito a reforma trabalhista. Isso não foi feito por nenhum deles”, criticou.

Marina Silva emocionou-se ao falar de como se sentia ao disputar a Presidência fora do PT, partido que ajudou a fundar. E disse que abriu mão de uma reeleição certa para o Senado para enfrentar um “golias” que seria a corrida pela Presidência da República. “Não é fácil vir aqui, depois de 30 anos, sem ser mais do PT. Saí pela mesma razões que entrei: a luta pelo desenvolvimento sustentável.

As questões apresentadas em um telão traziam junto com as perguntas reivindicações e propostas dos prefeitos em áreas como saúde, educação, investimentos, carga tributária e, claro, royalties do pré-sal. Confira os principais momentos dos discursos dos três pré-candidatos:

JOSÉ SERRA (PSDB)

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Serra participa da marcha de prefeitos em Brasília
Tributos para a saúde: “Carga tributária no Brasil já é muito alta. Não dá para ficar criando nova contribuição a cada problema. Precisamos de melhor gestão na saúde. Quem paga o preço são estados e principalmente os municípios. Precisamos voltar à aceleração, à criatividade e à parceria verdadeira em função da saúde da população.”

Educação: “Não dá para aprovar uma lei que vai aumentar gastos dos municípios sem ouvi-los. É inconstitucional na minha opinião. Estamos gerando despesa de um lado, mas não estamos dando recursos do outro. Mandar cumprir a totalidade (de atendimento em creches) é um objetivo generoso, mas é preciso dar recursos suficientes. O governo federal fatura politicamente e os municípios desfaturam.”

Descentralização de recursos: “Fui formado em uma escola de defensores da descentralização, dávamos dinheiro para os municípios com base em critérios de democracia e eficiência econômica. No governo de São Paulo, nunca os municípios tiveram tanta atenção e assistência. Os municípios reclamam muito e faz parte. Mas isso nunca aconteceu no meu governo. Tivemos de correr atrás de municípios para fazer os programas que tínhamos recursos para desenvolver. E fizemos isso sem pedir carteirinha partidária para ninguém.”

Pisos salariais: “Não sou contra criar piso para o magistério. Em São Paulo mesmo, já pagamos muito acima do piso. Mas em muitos municípios não é assim. Na medida em que se aprova uma coisa assim, é preciso ter os gastos calculados direito. Não se pode criar despesa sem receita. Não se trata de não fazer, mas de fazer direito.”

Responsabilidade fiscal: “Quem mais contribui para o equilíbrio fiscal do País são os Estados e os municípios. Eles estão seguindo a Lei de Responsabilidade Fiscal, que não se aplica para o governo federal. É uma coisa de louco. Dois entes estão sob a força da lei e um não está. Os municípios não podem se endividar. Os Estados e os municípios pagam a conta das metas fiscais. É irracional. Quem mais investe no País são os municípios.”

Divisão de royalties: “Na minha opinião, essa discussão sobre a divisão dos royalties do pré-sal deveria ter sido deixada para depois das eleições. Isso quebra a unidade do País e cria um clima muito ruim. Sou a favor que Estados e municípios recebam benefícios diretos, mesmo que não tenham pré-sal. O dinheiro dos royalties deve ser destinado principalmente para investimentos. É preciso pensar a distribuição pensando o que se tem e o que virá para não deixar que Estados e municípios dependentes desses recursos entrem em colapso.”

Acerto de contas: “Hoje, a União e os Estados podem tirar recursos dos municípios. O contrário não pode acontecer. É lado enfraquecido. Digo franca, aberta e claramente que sou a favor do encontro de contas. É preciso discutir junto com vocês.”

Calamidades: “Quero criar uma força nacional permanente para cuidar de calamidades. Preparada cientificamente para enfrentá-las. Temos de fazer um mapeamento definitivo sobre as áreas de risco no Brasil para planejarmos ações preventivas em cooperação com estados e municípios. Tem de ser uma instituição nacional não-politizada porque a realidade não se comporta politicamente. Os recursos para esse fim seriam contingenciados durante um ano.”

Emendas individuais de parlamentares: “Precisamos acabar com a romaria de prefeitos com pires na mão. Houve re-centralização de receitas para a União. Sobre impedir emendas individuais, essa proposta não é viável. No mundo inteiro, os parlamentos e congressos interferem nisso. O Congresso jamais aprovaria a abolição de emendas individuais.”

MARINA SILVA (PV)

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Marina responde às perguntas dos prefeitos em Brasília
Novos tributos: “Uma nova contribuição só pode ser pensada com a reforma tributária. Não podemos mais fazer puxadinhos tributários e não encararmos a reforma tributária. Se fosse fácil, o sociólogo teria feito a reforma política, tributária e previdenciária. Se fosse fácil, o operário teria feito a reforma trabalhista. Por isso, temos que formar uma Constituinte e fazer as reformas que o Brasil precisa.”

Prefeitos: “Não dá para continuar fazendo com que as prefeituras assumam responsabilidades sem que os valores dessas responsabilidades sejam igualmente repassados. É necessário garantir que recursos possam ser destinados da forma mais republicana possível. Pires na mão não pode mais ocorrer.”

Vaga no Legislativo: “Não quero ficar 24 anos no Senado, porque quando você fica muito tempo no Senado você fica igual a um bonsai. Paradinho, pequenininho, numa mesa e vão cortando suas raízes. É melhor ser uma relva no campo do que um bonsai no palácio.”

Calamidades: “Esses efeitos não são naturais, das mudanças climáticas. Sábios são aqueles que aprendem com os erros dos outros. Estúpidos são aqueles que não aprendem com os próprios erros. Nós não estamos nem na fase dos estúpidos. Nós já erramos aqui. Aprendamos com os nossos erros e a não dar continuidade à morte anunciada de centenas de pessoas a cada ano.”

PV x PT: "Não é fácil vir aqui pela primeira vez em 30 anos sem ser mais do PT."

Biografia: "A educação é o que faz a diferença na vida de uma pessoa. Digo isso porque fui analfabeta até os 16 anos. E sei o que é para um pai, para uma mãe, não saber o que será do futuro do seu filho."

DILMA ROUSSEFF (PT)

Prefeitos: “Faremos governo municipalista. Fizemos um governo baseado no diálogo e na relação republicana, na qual não olhamos a filiação partidária, a origem do prefeito e a região onde o prefeito está. Nós fizemos uma política articulada com todos vocês, porque vimos em vocês representantes legítimos do povo brasileiro. Se teve um governo que não quis que os prefeitos tivessem uma perda, foi o governo do presidente Lula."

Bondade com o chapéu alheio: “Eu sou contra fazer bondade com o chapéu alheio. Sou a favor do diálogo para discutir como é que a gente distribui os ônus e os bônus do Brasil. Acho que com o diálogo isso se faz. Não se faz, nem com cães, nem com a polícia.”

Bolsa Família: “Se teve um governo que se comprometeu com programas sociais, foi o nosso. Eu queria falar do Bolsa Família. Fizemos uma ótima parceria com os municípios sem a qual este programa não seria o melhor programa de rede de proteção. Eu não tenho nenhuma modéstia em falar isso. Acho que temos que ter orgulho disso.”

Educação: “Fazer creche é a forma que nós temos de atacar na raiz a desigualdade. (...) Este é um programa que pode salvar uma geração. Eu posso assegurar a vocês uma coisa: eu não farei qualquer economia com a questão da creche.”

Royalties do petróleo: “Eu acho que nós temos que buscar entendimento porque é uma questão complexa (...) Olhem sempre os recursos da partilha que é aí que está a grande questão do Brasil. (...) Aí que está nosso passaporte para o futuro (...) Não estou desfazendo dos royalties, acho que vocês devem brigar também pelos royalties da mineração.”

Futuro: “Nós temos hoje condição de avançar mais. Avançar mais porque nós abrimos esta possibilidade que eu chamo de nova era de prosperidade.”

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