Dilmasia perde força no segundo turno das eleições em Minas

Cientistas políticos acreditam que eleitor votou na continuidade e foi menos influenciado do que se pensa por Lula e Aécio

Eduardo Ferrari, iG Minas Gerais |

Rodrigo Lima/Nitro
Apoio de Anastasia e Aécio não é garantia de vitória de Serra em Minas Gerais
Quando a eleição para o governo de Minas entrou no último mês, cientistas políticos se perguntavam se o ex-governador Aécio Neves conseguiria fazer com Antônio Anastasia (PSDB) o que o presidente Lula havia feito com Dilma Rousseff. Agora, passado 3 de outubro, a pergunta que o analistas tentam responder é se Lula conseguirá fazer por Dilma o que Aécio fez por Anastasia.

O paralelo entre Aécio e Lula vem desde 2006, quando ambos passaram a ter alto índice de aprovação de seus governos. Naquele ano, Aécio teve 70% dos votos válidos para o governo de Minas e seu principal adversário, o petista Nilmário Miranda, mesmo com o apoio de Lula, ficou com menos de 30%. Por sua vez, enquanto Lula foi o preferido de mais de 60% dos mineiros à época, o candidato tucano à Presidência Geraldo Alckmin, mesmo apoiado por Aécio, não passou de 40%. Este fenômeno ficou conhecido como "Lulécio".

Nas eleições deste ano, a história se repetiu com a “Dilmasia” - que incentivava o eleitor a escolher novamente os candidatos da continuidade de Aécio e Lula. O resultado das urnas confirmou a tendência: Anastasia foi eleito em primeiro turno com 63% dos votos válidos e Dilma Rousseff venceu em Minas com 55%. Assim como Alckmin, o candidato à Presidência José Serra (PSDB), apoiado por Aécio, ficou com 30% e o adversário de Anastasia, o ex-ministro Hélio Costa (PMDB), apoiado por Lula, ficou com 34% dos votos válidos.

Para o cientista político Malco Camargos, também professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), as eleições em Minas mostram uma lógica distinta para a disputa estadual e para a federal: “Raramente o leitor mineiro vota ‘casado’. A eleição mostrou mais uma vez que sua lógica não é essa. Não se trata de votar em candidatos apoiados por alguém, seja para o governo do estado ou para o Federal, mas de um desejo de continuidade no eleitor por governos que ele julga serem positivos”, explica.

Camargos chega a duvidar que o movimento chamado de “Dilmasia” exista de fato e que o apoio de cabos eleitorais famosos tem menos importância no resultado das eleições do que os políticos acreditam. “Não existiu uma articulação política de Aécio e Lula para incentivar o voto nos candidatos Dilma e Anastasia. Eles jamais declararam publicamente que o eleitor deveria votar em um para um cargo e em outro para o outro cargo. Chego a duvidar que mesmo veladamente eles (Lula e Aécio) tenham incentivado isso. O resultado das eleições é resultado da vontade do eleitor de ter continuidade nas políticas estaduais e federais”, afirma o cientista político.


Em 2006, mesmo com o apoio de Aécio Neves já reeleito governador, o candidato Geraldo Alckmin teve menos votos no segundo turno em Minas do que teve no primeiro. De 40% dos votos válidos, perdeu quase 10 pontos percentuais e ficou com 30%. Enquanto isso, Lula superou 60% dos votos válidos no estado e se reelegeu à Presidência. Para o cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carlos Ranulfo, o apoio de um político, mesmo popular, num segundo turno tem peso diferente quando acontece na disputa para o primeiro. “A eleição em segundo turno é muito curta. Não há tempo para comícios. Essa eleição é definida na televisão. Se no primeiro alguns candidatos dão pouco valor ao debate televisivo, no segundo tudo muda e o que o candidato diz nos programas de TV podem mudar o resultado da disputa”, diz.

Para cientista político, Dilma ainda é favorita em Minas

Ranulfo também afirma que o movimento “Dilmasia” não existe mais. Para ele, com a decisão da eleição mineira em turno único, o eleitor não tem mais o dilema de votar em um candidato de um partido ou coligação para um cargo e votar em seu adversário, de outro partido ou coligação, para outro cargo. “Se a eleição em Minas tivesse segundo turno, o cenário poderia ser diferente e talvez até beneficiasse o candidato José Serra. Mas, sem disputa estadual, não há palanque para o tucano mostrar que tem o apoio de Aécio e Anastasia”.

Para Ranulfo, Dilma continua a favorita em Minas Gerais, mas ainda é difícil saber se Serra irá repetir a performance de Alckmin em 2006 - ter menos votos no segundo turno do que no primeiro - porque essas foram eleições “diferentes”. “A grande novidade dessa eleição não é Aécio Neves, seu desempenho era esperado. A novidade são os eleitores de Marina Silva. Foram eles que provocaram o segundo turno e são eles que vão decidir essa eleição”, diz.

Segundo o cientista político, o apoio de Aécio Neves é importante para qualquer candidato porque “ele comprovou nas urnas que tem o eleitor mineiro com ele”, mas não será esse apoio que irá mudar a vontade de continuidade que o eleitor demonstrou em Minas: “Dilma também terá do lado dela muito políticos importantes. O eleitor mostrou que não basta ter a declaração de voto de um cabo eleitoral popular, o que vai pesar é o próprio candidato e o que ele representa”, afirma Ranulfo.

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