Dilma terá agora desafio de controlar seu próprio governo

Presidente eleita terá desafio de controlar apetite do PT, do PMDB e de outras siglas aliadas

Andréia Sadi, iG Brasília | 31/10/2010 20:14

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Levada à Presidência pelos braços do presidente Luiz Inácio Lula da SilvaDilma Rousseff sai das urnas tendo como um de seus primeiros desafios assumir o controle de seu próprio governo e assegurar que seu primeiro time seja composto por nomes de sua confiança. Dilma passou boa parte da campanha desautorizando a “partilha” antecipada do futuro governo, que fora lançada pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB), mas agora terá de lidar com o apetite do PT, PMDB e outros partidos aliados. De quebra, terá de administrar as pressões de grupos que começaram a se articular antes e durante a campanha de olho em cargos no novo ministério.

Novata no PT, Dilma tende a encontrar no partido um dos principais obstáculos. A presidente-eleita está longe de ter o controle que Lula exerce sob a sigla - alguns não hesitam em chamá-lo de “dono do partido” e terá de mostrar que pode conter pressões de algumas alas por vagas na Esplanada.

Longe da coordenação da campanha, um dos principais expoentes do PT e ex-ministro da Casa Civil José Dirceu irritou integrantes da campanha ao declarar, em meio à eleição, que a vitória de Dilma era mais importante que a de Lula porque o PT teria mais espaço num futuro governo. Nos bastidores, porém, integrantes do próprio staff petista admitem que a declaração tende a rondar a candidata já nas primeiras movimentações para a montagem da equipe ministerial.

Para administrar as pressões do partido e emplacar nomes além da cota, Dilma contará com a ajuda do presidente do PT, José Eduardo Dutra. Componente da trinca de coordenadores com carta branca durante a campanha, Dutra conquistou a confiança e simpatia da ex-ministra durante o ano e é visto como conciliador dentro da Executiva do partido.

Foto: AP

Dilma Rousseff durante o primeiro pronunciamento como presidenta eleita

Por conta do seu desempenho na campanha, integrantes avaliam que Dutra entrou na lista dos cotados por Dilma para ocupar uma vaga no ministério, mas assessores de Lula avaliam que, se ele permanecer no comando do PT, estará fortalecido para cumprir papel de destaque em uma eventual reforma política.

No bolsão do PT, o nome do deputado federal José Eduardo Cardozo (PT-SP) é tido como certo para integrar a equipe de Dilma. Cardozo, que abriu mão da reeleição, começou a campanha sem muita influência, mas ganhou destaque e se tornou um dos três braços direitos de Dilma na campanha. Hoje, ele é o mais cotado para o ministério da Justiça.

Cotas

Na equipe de campanha, Dilma teve em sua cota pessoal nomes como ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Alessandro Teixeira, e o ex-assessor Giles Azevedo. A ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra também integrava o círculo de confiança da petista, mas as denúncias sobre um esquema de tráfico de influência no governo resultaram em sua demissão do cargo no auge do primeiro turno da corrida presidencial.

As denúncias que eclodiram ao longo da campanha também enfraqueceram Pimentel. Embora não tenha sofrido um abalo tão forte quanto o de Erenice, ele se viu obrigado a sair de cena após o episódio sobre a suposta produção de dossiês para prejudicar o tucano José Serra. Amigo de longa data da petista, Pimentel não deve ficar fora do ministério, mas perdeu força na lista de cotados para ocupar a Casa Civil.

No time de confiança da petista, saíram ilesos Giles Azevedo e Alessandro Teixeira. Discreto e avesso a entrevistas, Giles foi assessor de Dilma na Casa Civil e raramente aparece em eventos. Oficialmente, sua principal incumbência na campanha foi organizar a agenda da candidata e seu nome é tido como praticamente certo para chefia de gabinete. Teixeira, por sua vez, foi escalado na campanha para ajudar o assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia a pensar o programa de governo de Dilma. Entre os ministérios cotados para o presidente da Apex, está o de Micro e Pequena Empresa, promessa de campanha de Dilma.

Sem Erenice e Pimentel no páreo, o ex-ministro Antonio Palocci é o mais cotado para assumir a Casa Civil. Coordenador da campanha de Dilma, Palocci foi indicado por Lula. O ex-ministro, no entanto, só teria aceito a função depois de Dilma formalizar o convite. Aconteceu em um jantar no Palácio do Alvorada, em setembro de 2009, na presença de Gilberto Carvalho e Franklin Martins. Sentaram-se Lula, Dilma e Palocci.

Segundo relatos, Lula retomou a conversa e Palocci, então, pediu: “Eu gostaria de ouvir a candidata”. E Dilma respondeu: “Já está tudo combinado, eu estou te convidando”. Ainda assim, não foi só Palocci que se cacifou para a Casa Civil com a queda de Erenice. O nome ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, também passou a circular nos bastidores como possível chefe da pasta.

Faturas

Além da queda de braço com o PT, Dilma terá de driblar o PMDB. Em mais de um discurso, o vice Michel Temer (PMDB-SP) deu o sinal: o partido não quer se coadjuvante no novo governo Dilma. A conta, segundo peemedebistas, é simples: a vitória de Dilma deve-se muito à aliança selada entre os dois partidos. Antes de fechar um acordo, as executivas de PT e PMDB chegaram a condicionar a coligação a um acerto entre seus diretórios regionais.

Em nome da aliança, o PT cedeu às pressões do PMDB em Estados no primeiro turno, como o Maranhão, em que o partido de Dilma havia selado apoio a Flavio Dino (PCdoB), mas precisou recuar após pressão do presidente do Senado, José Sarney (PMDB). Em contrapartida, o PMDB prometeu empenho em regiões onde o PSDB estava em vantagem.

No governo Lula, o PMDB acumulou seis ministérios e comandou orçamento superior a R$ 100 bilhões. No novo cenário, o partido sonha com mais espaço, incluindo uma vaga na coordenação política do governo. Além do primeiro escalão, o partido planeja indicações para estatais e agências reguladoras.

Um dos coordenadores da campanha presidencial, o ex-governador Moreira Franco encantou os petistas e já é citado como ministeriável na pasta de Cidades. Preterido como vice de Dilma, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também deve marcar posição no novo governo petista.

Cristão novo no PMDB, Meirelles é cotado para continuar no Banco Central, mas tem dito a interlocutores petistas que não aguentará mais quatro anos no cargo. Sem o BC, outras apostas para Meirelles são Fazenda e Planejamento. No Congresso, o PMDB tem o nome de Henrique Eduardo Alves para presidência da Câmara, mas sabe que a briga será com o PT, que tem como principal postulante o deputado Cândido Vaccarezza (SP).

Um dos principais partidos aliados de Lula, o PSB também deve reivindicar mais espaço no novo governo de Dilma. Durante o segundo mandato do presidente, o PSB, comandado por Eduardo Campos, ocupou dois ministérios - Ciência e Tecnologia e Portos, este último uma indicação de Ciro Gomes (PSB-CE). Ciro queria disputar a Presidência em 2010. A pedido do presidente Lula, o PSB vetou a candidatura de Ciro e trabalhou para eleger Dilma. Agora, o partido quer ampliar sua força no governo da petista. Um dos focos de investimento do partido é ocupar o Ministério de Integração Nacional, o que ampliaria para três os cargos na Esplanada.

O PSB sai desta eleição fortalecido. Elegeu três governadores no primeiro turno e garantiu mais três estados no segundo turno: Amapá, Paraíba e Piauí.

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