Dilma descarta privatizações, mas quer concessões

Garantindo que não mexerá em empresas como Petrobras, Dilma mostra que não descarta capital privado em projetos públicos

Silvana Mautone, especial para o iG, de Nova York |

A pré-candidata do governo à Presidência, Dilma Rousseff (PT), garantiu que não privatizará a Petrobras, as empresas do setor elétrico e os bancos públicos, mas defendeu a participação do capital privado, nacional e estrangeiro, em novos projetos e concessões públicas. Esta foi a linha de uma palestra de mais de uma hora feita pela petista para investidores em Nova York, na manhã desta sexta-feira.

No seu discurso e na entrevista coletiva concedida a jornalistas após o evento, ela defendeu a política econômica e social do governo Lula e a atuação do Banco Central, além de apresentar várias medidas que adotará na economia caso seja eleita. Entre outros temas, ela falou ainda sobre inflação, crescimento econômico, reforma fiscal e até sobre a crise do Irã e a comunidade internacional, que o presidente Lula tentou mediar na semana passada. O evento foi promovido pela BM&FBovespa.


Banco Central

Dilma Rousseff disse que, se eleita, manterá o estatus de ministro ao presidente do Banco Central, iniciativa tomada pelo atual governo. Segundo ela, já que uma lei formalizando a independência do BC dificilmente teria apoio dos partidos, o estatus de ministro aliado à garantia de independência operacional ao BC é fundamental para o sucesso de uma política econômica.

A ex-ministra fez uma clara crítica ao seu principal adversário, o pré-candidato do PSDB, José Serra. Dilma disse que concorda que o BC não é a "Santa Sé", mas que a instituição é quem melhor tem conhecimento sobre o mercado para tomar qualquer decisão referente a juros. Na semana passada, Serra disse que o BC não é nenhuma "Santa Sé" e que deve ser criticado quando cometer erros. Na sua opinião, o BC falhou por não ter baixado mais a taxa de juros no passado, quando o cenário econômico internacional estava mais favorável. Na ocasião, Serra disse que, se eleito presidente, manifestará aos integrantes do banco sua posição caso discorde das medidas tomadas pelo órgão. Ao defender a independência do BC, a ex-ministra foi aplaudida pela platéia composta de investidores.

Inflação

Dilma defendeu a diminuição da meta de inflação, que neste ano e no próximo está definida em 4,5%, mas disse que a queda tem de ser gradual. Ela qualificou como "absolutamente virtuosa" a decisão do Banco Central no mês passado de elevar a taxa de juros em 0,75 ponto percentual para controlar o aumento dos preços.


Crescimento sustentável

Questionada por jornalistas se o crescimento do Brasil é como um "carro desenfreado", Dilma disse que o desempenho da economia está baseado em fatores como a ampliação de reservas do governo e a redução da relação dívida/PIB. A pergunta foi feita porque a revista inglesa The Economist publicou uma matéria na sua edição desta semana na qual questiona a sustenbailidade do crescimento do Brasil, porque "o Brasil não é a China".

A publicação diz que os investimentos do governo federal adotados após a crise de 2008 deveriam ser temporários mas se tornaram permanentes. "A economia está começando a parecer um carro da Toyota com o acelerador grudado no chão", diz o texto, em uma alusão aos recentes problemas da montadora japonesa, que teve de anunciar o maior recall da sua história devido a problemas no freio de seus veículos.

"Temos uma trajetória de queda da relação dívida/PIB e também um déficit nominal decrescente", afirmou Dilma. "Não se pode avaliar a economia brasileira como um descontrole ou desenfreio." Ela disse que muitos analistas trabalham com uma estimativa de crescimento da economia brasileira acima da projetada pelo governo, que é de 6% a 7% ao ano. A matéria da The Economist afirma que um crescimento acima de 5% seria uma situação insustentável para o Brasil.

De acordo com a pré-candidata do PT, comparar o Brasil a um carro desenfreado não faz sentido porque "o nosso tem (freio)". "Tem US$ 250 bilhões de reservas que nós acumulamos. Um carro desenfreado não tem essa trajetória fiscal que nós temos. Um carro desenfreado não tem um controle da inflação que nós temos. E mais: um carro desenfreado não tem um motorista que é capaz de num ano eleitoral subir os juros na contra-corrente do que fizeram nos anos anteriores a nós, nos governos anteriores, em que se esperava passar a eleição para dar as más notícias", disse Dilma, em referência à decisão do Banco Central brasileiro, que elevou a taxa de juros pela primeira vez em quase dois anos no mês passado numa tentativa de combater o aumento da inflação.


Privatizações

Durante coletiva de imprensa com jornalistas ao final do evento, Dilma fez questão de afirmar que, se eleita, não privatizará a Petrobras, a Eletrobras e todas as outras empresas do setor elétrico, assim como os bancos públicos. "Eu e o governo do presidente Lula somos favoráveis a concessões para o setor privado de novas hidrelétricas, rodovias, sempre quando for mais barato por concessões do que por obras públicas."

Ela defendeu ainda uma ampliação das fontes de financiamento para novos investimentos, o que na sua opinião será um dos maiores desafios do próximo governo. Segundo Dilma, além dos bancos públicos, os recursos devem vir de fundos de previdência privada, de empréstimos de bancos nacionais e internacionais e do próprio mercado de capitais, como emissões de ações e fundos de debêntures.

Para Dilma, os bancos públicos já estão próximos do seu limite de capacidade de financiamento, por isso a importância de novas fontes de recursos. A sua declaração, porém, contradiz o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que na última segunda-feira afirmou, também em Nova York, que os bancos do governo poderiam voltar a ampliar a oferta de financiamentos caso a crise da Grécia se agrave e afete o Brasil.

Capitalização da Petrobras

Questionada sobre o processo de capitalização da Petrobras, que deve fazer uma nova emissão de ações no mercado internacional até o início de agosto, Dilma disse acreditar que não faltarão interessados nos papéis da empresa. "Agora tem é muita gente que quer financiar a Petrobras. É o tipo de coisa que não vai faltar", afirmou. Na sua opinião, a operação não corre o risco de enfrentar a mesma dificuldade que ocorreu no final de 2008, no início da crise financeira nos Estados Unidos, logo após a quebra do banco Lehman Brothers, quando a estatal tentou captar dinheiro no mercado internacional, mas conseguiu apenas recursos com os chineses. "Naquela época, nenhuma viva alma conseguiu", disse Dilma.

Irã

Sobre as críticas da imprensa internacional com relação à atuação da diplomacia brasileira, que tentou mediar a crise entre o Irã e a comunidade internacionbal, com participação direta do presidente Lula, mas não interferiu em desentendimentos entre a Argentina e o Uruguai nem na crise política em Honduras, Dilma disse que não há sentido nessas comparações. A questão foi levantada nesta semana pelo jornal americano Miami Herald.

Segundo Dilma, o caso entre os dois países do Mercosul se resume a uma disputa comercial e ambiental -- há divergências quanto à construção de fábricas de papel e celulose na fronteira. "Apesar disso, os dois países ainda mantêm relações, não deixaram de se falar, não há nenhum risco de guerra", afirmou. Sobre Honduras, a pré-candidata disse que claramente a situação é um golpe de estado, já que o presidente eleito foi deposto, e não pode ser comparada ao risco de uma guerra internacional, que é o caso do Irã. "O mundo não precisa de uma nova guerra do tipo da que ocorreu no Iraque. Buscamos uma diplomacia que busca o diálogo e a paz."

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