Derrota de Serra abre espaço para Aécio e Alckmin no PSDB

Partido agora pode vir a ter como principais líderes o senador eleito por Minas e o governador eleito de São Paulo

Adriano Ceolin, iG Brasília, e Nara Alves, iG São Paulo |

Antes mesmo da divulgação do resultado final da eleição presidencial, o PSDB já estudava um rumo a ser tomado após 2010. É dada como inevitável a condução do ex-governador mineiro Aécio Neves à presidência do partido. Ao mesmo tempo, é certo que ele, querendo ou não, irá rivalizar com o governador eleito em São Paulo, Geraldo Alckmin.

O principal articulador para levar Aécio à presidência do PSDB é o deputado federal Nárcio Rodrigues, presidente do diretório tucano em Minas Gerais. Ele já declarou publicamente “ser natural” a transformação de Aécio em novo dirigente da sigla. O atual presidente da legenda, senador Sérgio Guerra (SE), já deixou claro que o cargo está à disposição de Aécio. Depois de Lula e do PT, Aécio foi o grande vencedor da eleição ao conseguir eleger o sucessor Antonio Anastasia e o aliado no Senado Itamar Franco (PPS).

ANDRÉ LESSA/AE
Aécio, que resistiu em ser vice de Serra, é cotado agora para assumir a presidência do PSDB
No segundo turno, os tucanos reconhecem que Aécio se movimentou para ajudar Serra. O mineiro, porém, sempre disse que não dava garantias de vitória em seu Estado. Foi na segunda etapa da eleição que Aécio deu seus primeiros passos para nacionalizar seu nome: visitou Estados em que havia candidatos do PSDB em disputa no segundo turno.

O iG acompanhou a viagem de Aécio a Goiânia, onde fez campanha para o tucano Marconi Perillo. Em discurso empolgado em cima de um carro de som, Aécio chegou a dizer que ele, em Brasília, seria um “quarto senador por Goiás”. Antes, porém, não deixou de elogiar os senadores reeleitos Lucia Vânia (PSDB) e Demóstenes Torres (DEM).

Alckmin também teve agendas fora de São Paulo. Desautorizou assessores e aliados a falar publicamente sobre seu futuro secretariado em São Paulo, evitou dar entrevistas para não ser questionado sobre o assunto e se concentrou quase que exclusivamente na campanha de Serra. Essa dedicação, que surpreendeu até mesmo correligionários, deverá ter recompensas no futuro próximo. Candidato derrotado ao Palácio do Planalto em 2006, Alckmin é mais conhecido que Aécio nacionalmente. Governador eleito pela segunda vez, ele não deve entrar em queda de braço com o senador mineiro, mas não deixará de participar do jogo.

Tucanos paulistas lembram que Alckmin rivalizou internamente com Serra como candidato a presidente em 2006 e, em 2008, foi candidato a prefeito apesar de a ala serrista do partido ter apoiado a reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Alckmin ficou pelo caminho e a disputa à prefeitura foi decidida no segundo turno entre Kassab e a petista Marta Suplicy, eleita neste ano senadora por São Paulo

Na oportunidade, Sérgio Guerra foi solidário a Alckmin. Por isso não é descartada também a permanência de Guerra no posto. Ele sempre manteve boa relação com Aécio. Com poucas chances de se reeleger senador, optou por concorrer a uma vaga de deputado federal por Pernambuco.

Sobre a possibilidade de Aécio se tornar presidente do PSDB, Guerra responde rapidamente: “Cedo meu lugar para ele a hora que ele quiser”. Nos bastidores, trabalha para ganhar o apoio do próprio Aécio para ficar no cargo. “Aécio era o meu candidato a presidente. Achava que ele deveria ter insistido em ser candidato. Não porque eu era contra o Serra, mas sim porque eu achava que isso era importante para o fortalecimento do PSDB”, completou.

Planos

Aécio optou por ser candidato ao Senado em novembro passado. Até meados de maio, acreditou-se que ele poderia aceitar o convite para ser o vice de Serra. Ledo engano. O ex-governador traça um caminho próprio para chegar ao comando do Palácio do Planalto.

Esse caminho teve início há 10 anos, quando Aécio se articulou para se tornar presidente da Presidência da Câmara dos Deputados. À época, era líder do partido na Casa e o então PFL, com o deputado Inocêncio Oliveira (PE), era o candidato do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-1998) ao posto.

AE
Alckmin agora assumirá a maior máquina pública estadual do País
O tucano mineiro aglutinou forças em outras siglas e minou o principal aliado do PSDB até então. Ganhou a Presidência da Câmara e pavimentou sua eleição para o governo de Minas Gerais, cargo que havia sido do seu avô, Tancredo Neves, antes de ele se eleger presidente da República pelo Colégio Eleitoral em 1985.

Aécio elegeu-se ao governo de Minas nas duas eleições que disputou. De imediato, passou a rivalizar com Serra. Chegou a defender as prévias para ser o candidato a presidente em 2010. Em novembro passado, no entanto, recuou. Preferiu disputar o Senado e, ao contrário do que esperavam lideranças tucanas, não quer ser vice.

Alckmin, por sua vez, já teve a oportunidade de representar o PSDB em uma corrida presidencial. Assim como Aécio, disputou internamente com Serra. Mas a articulação interna que comandou no partido à época, combinada à insegurança de Serra quanto a disputar novamente a Presidência com Lula fizeram com que Alckmin ficasse com a vaga em 2006. Serra ficou com a vaga para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes.

Derrotado e sem mandato, Alckmin acabou aceitando um secretariado na gestão de Serra no governo paulista. Agora, entretanto, volta a se cacifar internamente ao comandar o maior colégio eleitoral do País.

Mudança

A colegas de partido, o deputado Cláudio Diaz, presidente tucano do diretório do Rio Grande do Sul, diz ver uma vontade mudança no partido. “Certa pedi para ser recebido por Serra quando ele era governador de São Paulo. Fiquei esperando horas e nada”, contou Diaz. “Numa outra oportunidade, informei a equipe do Aécio que estava em Minas. Ele me convidou para tomar um café na sede do governo e passou a tarde inteira conversando comigo sobre política”, completou.

Sérgio Guerra também é um dos que defendem uma reformulação do PSDB. “Isso é natural após as eleições. Mas vamos tudo com calma”, disse. Atual senador que preferiu disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, Guerra foi coordenador-geral da campanha de Serra. Mas, ao longo da campanha, perdeu poder e praticamente deixou de ser ouvido pelo candidato.

Atual líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PR) cobra mudanças. “Nós temos de discutir o que nós queremos para o partido. Que partido é esse? Voltar as nossas origens, estar mais próximo das aspirações sociais, não de forma nenhuma sofrer essa tentação de elitização. Tem de ser um partido popular”, disse.

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