Da Mooca, Serra traz a paixão por futebol e a torcida das tias

Filho de imigrantes italianos, tucano cresceu cercado por mulheres, entre elas a tia Carmelita, que torce pelo sobrinho 'Zé'

Nara Alves, iG São Paulo |

A Mooca antiga, bairro operário na zona leste da capital paulista frequentemente lembrado por José Serra em seus discursos, já não existe mais. Poucas pequenas vilas ainda resistem em meio a estabelecimentos comerciais e prédios erguidos nas principais vias da região onde o candidato tucano ao Palácio do Planalto foi criado pela mãe, Serafina Chirico Serra, a avó Carmela e as tias Carmelita e Teresa.

O pai, o italiano Francisco Serra, assim como o avô Steffano, era dono de uma barraca de frutas no Mercado Municipal da Cantareira e ganhava o equivalente a três ou quatro salários mínimos nos valores atuais. No lançamento da pré-candidatura, em Brasília, Francisco foi lembrado por Serra em um dos pontos altos de seu discurso.

"Meu pai carregava caixas de frutas para que um dia eu pudesse carregar caixas de livros", disse. Dentro das caixas, o pai levava abacaxis. “O seu Chico, como a gente o chamava, estava sempre de avental branco e vendia só abacaxi”, lembra o comerciante Roberto Machado, que na adolescência trabalhou como uma espécie de office-boy da barraca de Francisco.

ARQUIVO PESSOAL
Serra com a mãe, Serafina, aos 3 meses
“Quando o Palmeiras perdia, principalmente do Corinthians, a gente brincava muito. Seu Chico, palmeirense roxo, ficava bravo e xingava todo mundo”, lembra Roberto. A paixão pelo Palmeiras foi herdada pelo filho. O presidente do Palmeiras, Luiz Gonzaga Belluzzo, garante que Serra "reclama de um jogador ou de outro, mas não xinga o juiz".

A amizade entre Serra e Belluzzo é de longa data. Os dois se conheceram no movimento estudantil, na década de 60, quando Serra era estudante de Economia na Universidade de São Paulo e presidente da União Nacional dos Estudantes.

"Conversamos muito sobre política econômica, quase nunca sobre futebol”, conta Belluzzo. O assunto futebol pode não ser frequente nas conversas o presidente do Palmeiras, mas é pauta corriqueira nas entrevistas e discursos que Serra faz na campanha presidencial. “Ele gosta de falar de futebol. É como o Lula. No caso deles, não estão instrumentalizando, como uma maneira de se aproximar das pessoas. É uma coisa natural, não é artificial”, disse Belluzzo.

Tia Carmelita

Com a morte de Francisco em 1981 e de Serafina em 2007, as tias tornaram-se as únicas referências da ligação de Serra com suas origens no bairro operário. Como muitos moradores da Mooca, as tias do presidenciável tucano deixaram a casa da vila onde viviam, mas não deixaram a vizinhança. Mudaram-se para um apartamento dentro de um condomínio fechado a uma quadra dali.

O edifício onde moram as tias Carmelita e Teresa, ambas com mais de 80 anos, tem ares modernos, bem diferente das casas construídas para os imigrantes operários das indústrias locais no início do século 20. A casa da família tinha um quarto, sala, uma pequena cozinha e banheiro no quintal. Já o novo edifício, próximo à escola estadual em que Serra estudou, tem um grande corredor de entrada, dois portões e portaria com vidros escuros.

Dona Carmelita recebeu a reportagem do iG no portão do condomínio calçando sapatilhas azuis e vestida de vermelho. Assim que desceu foi logo dizendo que não podia dar entrevistas. “Você é repórter? Eu não posso dar entrevista. Desculpe”, adiantou-se. E, esperta, justificou: “Não posso ser molestada porque eu fico nervosa, me faz mal. Quando você tiver 80 anos vai entender”. E desculpou-se gentilmente pela segunda vez.

Solteirona, Carmelita considera José Serra, ou “Zé”, o filho que nunca teve. “Sou solteirona, mas eu tenho um filho que é ele. Tudo de bom tem que acontecer com ele e vai acontecer”, disse. Filho único, "Zé" foi criado pelas três tias e a avó Carmela porque sua mãe, Serafina, tinha problemas de saúde e vivia de cama.

Por ocasião da transmissão de cargo do Ministério da Saúde, em 1998, Carmelita contou a interlocutores que Serra, quando criança, dizia querer ser presidente. Anos depois, quando questionado pelo jornalista Teodomiro Braga sobre a veracidade da declaração da tia, o agora presidenciável minimizou. “Às vezes acho que meus familiares, mesmo com sinceridade, refazem um pouco a história. Coisas de tias...”

AE
Rua da Mooca, na zona leste da capital paulista, em 1956 e em 2009
As tias, embora participem dos momentos mais importantes da vida de Serra, agora evitam a imprensa. Os assessores envolvidos na campanha presidencial também não estão autorizados a passar informações sobre familiares de Serra.

Na despedida do Palácio dos Bandeirantes, no último dia 31 de março, o então governador reservou a abertura das saudações para a família: “Minha mulher Monica, meus filhos Verônica e Luciano, minhas tias e meus netos”. Sentada na primeira fila, Carmelita aplaudiu energicamente o discurso, que durou quase uma hora. Ao final do evento, quando abordada por um jornalista, desconversou e disse que não poderia dar entrevista por estar com dor de garganta.

“Estou afastada. Isso é profissional, é coisa do serviço dele”, afirmou Carmelita ao iG . Além disso, explicou ela, “já sabem tudo sobre a vida dele”. Desculpou-se pela terceira vez e subiu para seu apartamento.

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