Contador parecia forçado a 'esquentar' procuração, diz aposentado

Em depoimento à Polícia Civil, aposentado afirma acreditar que servidora da Receita e marido eram 'vítimas' do suposto esquema

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

O aposentado Edson Pedro dos Santos, de 51 anos, disse acreditar que o contador que o procurou para supostamente “esquentar” uma procuração que autorizava o acesso às suas declarações fiscais estava sendo “forçado” a justificar o crime. Santos prestou depoimento nesta segunda-feira à Delegacia Seccional da Polícia Civil em Santo André, que investiga o caso, e depois conversou com os jornalistas.

O contador, José Carlos Cano Larios, é marido da servidora da Receita Ana Maria Caroto Cano, envolvida na quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do presidenciável tucano José Serra. O contato entre Larios e Edson dos Santos ocorreu na semana passada, na casa do aposentado, em Mauá, na Grande São Paulo, onde ocorreu a maioria das violações de sigilo fiscal apuradas até agora. Santos disse que o contador ofereceu a ele um termo para assinatura em que seria declarado que ele autorizou o acesso às informações sigilosas ocorrido em agosto de 2009.

Santos levou o caso à polícia após desconfiar do argumento usado pelo contador: o de que o acesso aos dados ocorreu para providenciar a declaração de seu imposto de renda referente a 2010. “O contador que me procurou, dava para perceber, era uma vítima como eu. Só queria justificar algo. Provavelmente, a esposa dele seja uma vítima também”, disse o aposentado, que afirmou esperar que o “verdadeiro criminoso” seja identificado. “O que eu pude ver é que ele ( José Carlos ) estava fazendo algo que ele não queria. Não era o desejo dele”, afirmou. Para o aposentado, o emissário era uma pessoa aparentemente trabalhadora, “humilde e de boa índole”. “Ele entrou na minha casa, ficou conversando, tomou café e tentou explicar o fato. Falou da esposa e tentou mostrar por que ele estava me procurando”, disse.

Sem entender o que estava acontecendo, Edson dos Santos, que até então só havia ouvido falar do o caso das violações pelo noticiário, procurou a polícia em Mauá, na quinta-feira. No mesmo dia, ele combinou de se encontrar com o contador em uma área próxima a um posto de gasolina na cidade, onde aconteceu o flagrante. Larios foi então levado à polícia para prestar esclarecimentos.

No depoimento, o aposentado disse desconhecer o motivo do seu envolvimento no caso e negou ter relações com outras vítimas de quebra de sigilo fiscal. Ele afirmou não ter atuação política neste ano, mas contou que disputou as eleições de 2008 quando se candidatou a vereador em Mauá. Filiado ao PPS há cerca de quatro anos, ele teve apenas 93 votos e não se elegeu.

O aposentado disse ainda não ter sido coagido a assinar o termo. No entanto, admitiu que teme pela sua segurança a partir de agora. Santos disse ter resolvido denunciar o contador porque “se deixar, te jogam o laço e jogam para onde querem”. “Não vou me curvar. O verdadeiro culpado, acho, que nunca vai aparecer”, afirmou. O aposentado disse que ainda tenta entender por que foi envolvido no caso e diz não acreditar que o crime tenha sido tramado apenas pelo PT. “É um grupo de pessoas que está atuando”, afirmou.

Tabelião

Na mesma delegacia, foi ouvido, também nesta segunda-feira, o tabelião Fabio Tadeu Bisognin, responsável pelo cartório do 16º Tabelião de Notas de São Paulo, que teve o selo forjado na procuração falsa usada para retirada dos dados fiscais de Verônica Serra e do marido dela, Alexandre Bourgeois.

A exemplo do que já havia declarado à Polícia Federal na semana passada, Bisognin disse que a falsificação do documento era "grosseira". Ele afirmou ao delegado José Emilio Pescarmona, que investiga o caso, que a assinatura contida no documento não confere com nenhuma assinatura de nenhum escrevente do tabelião. Disse também que nem Verônica nem o marido dela possuem firma reconhecida no cartório. Ele delcarou ter encaminhado um ofício à Corregedoria da Receita Federal sobre o caso para instauração de um procedimento administrativo.

Segundo ele, a escolha do 16º Tabelião foi “aleatória”. “Poderiam ter escolhido qualquer cartório”. Entre as falsificações contidas no requerimento, afirmou Bisognin, estão um erro na grafia do sobrenome do tabelião e o fato de o código de segurança do reconhecimento de firma não ter sido reconhecido pelo sistema de informática do cartório.

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