Sem garantia de candidatura, ex-governador pede votos para Serra e se programa para inaugurar 60 pontos de apoio

Passa das 20h30. Joaquim Domingos Roriz está sentado em uma cadeira de plástico, daquelas em que se pede cerveja em bar. Ao lado do deputado Jofran Frejat (PR-DF), o ex-governador do Distrito Federal por quatro mandatos tem uma expressão séria, compenetrada. Por alguns minutos, leva a mão direita à boca, o dedão pressiona uma das bochechas. Parece alheio ao discurso da candidata ao Senado Maria de Lourdes Abadia (PSDB-DF) e à gritaria das duas dezenas de militantes que se aglomeram diante do palanque improvisado à beira da Avenida Central, no Núcleo Bandeirante.

Quando os olhos de Roriz se apequenam, uma adolescente, agarrada a uma bandeira com o nome do candidato, se desespera: “Ele ‘tá’ quase dormindo”, grita ela, como se quisesse despertá-lo de um sono profundo.

Inabalável, o ex-governador leva a mão da bochecha para a orelha e volta a consultar seus pensamentos. Ao inaugurar o sexto comitê de campanha em apenas três dias, o candidato de 74 anos exibe, no palanque, a naturalidade e a calma de quem se aconchega a um bar com os amigos após o expediente.

Até o fim da campanha, Roriz e seu séquito de candidatos pretendem inaugurar 60 comitês, a maior parte situada em cidades satélites. O iG acompanhou a inauguração de quatro deles esta semana. A ideia, diz um assessor ligado à campanha, é “entrar no estilo caminhão de mudança”: inaugurações curtas, de cerca 30 minutos, de dois comitês por dia. Os sábados ficam reservados para comícios maiores e os domingos, para caminhadas.

No Núcleo Bandeirante, o espaço fica ao lado de uma distribuidora de materiais higiênicos e produtos químicos. Ontem, no comitê da Candangolândia, o cartaz de cerca de três metros com a foto de Roriz abraçado a Jofran, seu vice, Abadia e Alberto Fraga – que também postula uma cadeira no Senado -, dividia espaço com camisas e algumas roupas íntimas estendidas em um varal.

"Processos me dão força", diz ex-governador

Mas também há pontos de apoio do candidato vizinhos a cabeleireiro, serralheria, lan house. Os comitês são, em geral, cedidos por “amigos”, segundo o próprio Roriz, que o vistam em casa para oferecer o espaço. A sensação de quem passa pela inauguração é similar à de quem comparece a um rodeio: tem música, holofotes e pelo menos um locutor para incendiar os militantes.

Alguns palanques originam cenas curiosas. Em Riacho Fundo I, o tablado, de tão apertado, abrigava um candidato por vez – o que tornava a arte de falar ao microfone um exercício de sobe-e-desce aparentemente incômodo. Apenas o ex-governador, sempre o último a falar, mantinha a serenidade.

“É onde ele se sente mais confortável”, confidencia um interlocutor da campanha. De posse do microfone, o ex-governador pede, timidamente, votos para o candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Seu partido, o PSC, apóia a adversária do tucano, a petista Dilma Rousseff.

Afastado do cenário político desde que renunciou ao Senado, em 2007, sob acusações de corrupção, Roriz sente-se confortável para falar, ao seu jeito, sobre o assunto. “Estou cheio de processos. Mas esses processos me dão força, me dão coragem”, entoa, dentro de uma camisa social e calça e jaqueta jeans, sendo em seguida aplaudido por militantes.

Embora fale como candidato, Roriz aguarda julgamento do Tribunal Regional Eleitoral (TER-DF) em relação aos pedidos de impugnação de sua candidatura. As primeiras sessões do tribunal ocorrerão entre 26 e 30 de julho. Até sair a decisão, as cidades satélites serão brindadas, diariamente, com festa, bandeiras e mais decibéis do que o tímpano pode comportar.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.