Com megaestrutura de campanha, Dilma não escapou das gafes

Com cabelereiro a tiracolo, Dilma rodou o País ao lado de petistas como José Eduardo Cardozo e José Eduardo Dutra

Andréia Sadi, iG Brasília |

“Se puder comer, coma. Se puder dormir, durma. E se vir um banheiro, entre.” Foi com estas palavras que a candidata petista Dilma Rousseff respondeu a uma pergunta feita por jornalistas no final de agosto, sobre o que fazia para aguentar a rotina e o desgaste da campanha. Aos 62 anos, Dilma encarou uma maratona de viagens nos últimos três meses. Na maioria das vezes, o esquema era o de bate e volta - deslocava-se de Brasília para Estados considerados estratégicos para a campanha e retornava no mesmo dia.

A cada viagem, Dilma fazia ao menos um discurso. Por conta disso, enfrentou problemas de voz diversas vezes ao longo da campanha. Mas nem por isso descuidava do visual, repaginado sob os cuidados do cabelereiro Celso Kamura. Acostumada com o profissional a tiracolo, a candidata se recusou, na última semana da campanha, a posar para um jornal alegando que Kamura estava fora de Brasília.

Desde o início da campanha, não faltou estrutura à candidata do PT. Seguranças, cabeleireiro, jornalistas e assessores foram contratados para turbinar a candidatura da ex-ministra bem antes de a campanha eleitoral ter início. O staff oferecido pelo PT, em tese, lhe asseguraria a blindagem sob medida para que evitasse gafes e tropeços diante das câmeras e lentes dos fotógrafos. Quanto menos exposição, melhor.

Foi assim que a campanha trabalhou desde julho, quando foi dada a largada oficial na eleição. As coletivas foram cronometradas e os ataques aos adversários foram “terceirizados” - seja na voz do presidente Lula ou na do presidente do PT, José Eduardo Dutra. Mas, longe dos holofotes e nos detalhes do dia a dia eleitoral, a campanha e aliados revelaram minúcias que escaparam às lentes.

Eduardo Garcia
Apesar da megaestrutura de campanha, com seguranças, cabelereiro e assessores, petista não escapou das gafes e tropeços
Novata na corrida eleitoral, Dilma se tornou candidata oficial do PT só em junho, mas já cumpria agenda de campanha desde o começo do ano. Em atos oficiais, assim como Lula, ela abordava as realizações do governo, mas cometeu gafes em seus discursos. Em fevereiro, por exemplo, durante evento em Minas, Dilma , confundiu-se e chamou Governador Valadares de Juiz de Fora, outra cidade mineira.

Em seguida, referiu-se às obras de saneamento e habitação que a comitiva presidencial visitou na Vila Palmeiras dizendo que o local era Vila Palmares. Em outra escorregada do gênero, em maio, Dilma disse à rádio CBN que Michel Temer, que ainda não havia sido indicado candidato a vice na sua chapa, era presidente do Senado.

Dilma também trocou mais de uma vez em atos de campanha nomes de políticos. Já chamou, em discursos, o ministro da Educação, Fernando Haddad, de Paulo Haddad, a ex-prefeita Marta Suplicy de Márcia, e o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral (PSB), de Ricardo.No evento do PSB, Dilma confundiu os coordenadores José Eduardo Dutra com José Eduardo Cardozo. Dirigindo-se ao deputado, disse: “Dutra, você veio?” Acostumado com a característica de Dilma, ele brincou: ‘’Dutra, yo?”

No auge da campanha presidencial deste ano, a candidata torceu o pé no último dia 13 ao exercitar-se em uma esteira e passou a usar uma bota ortopédica. “Vou falar pouco porque senão meu pezinho não agüenta”, disse Dilma. Ao deixar a casa no Lago Sul com o motorista, Dilma se queixou pela janela do carro à reportagem do iG : “Dói, viu?”.

Ares oficiais

A série de comícios ao lado do presidente Lula e caminhadas pelo País, por exemplo, ganharam ares de ato oficial. Com forte esquema de segurança e credenciamento prévio, a ex-ministra passava a impressão de estar sempre no figurino de autoridade, despida de qualquer improviso e espontaneidade.

Para falar com jornalistas, nas coletivas diárias, o staff da petista montava - quase sempre no hotel onde ela estava hospedada ou no hangar onde seu jatinho pousava antes dos comícios - um púlpito para microfones e gravadores, no estilo oficial, além de cercadinhos que isolavam a candidata dos jornalistas.

O corpo a corpo com a população, prática comum das campanhas, foi substituído pelo Dilmamóvel. O jipe, inspirado no Papamóvel, seria inagurado em 16 de julho, primeiro comício da dupla Dilma e Lula, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Mas, devido ao mau tempo, só foi usado nos comícios seguintes, como em Santa Catarina no Espírito Santo.

A campanha afirma que o carro foi usado para evitar tumulto quando Dilma andasse no meio da população. Por causa do empurra-empurra, a petista chegou a cancelar mais de um compromisso. Foi o que aconteceu em 10 de agosto, em Belo Horizonte. A ex-ministra demorou cerca de cinco minutos para sair do carro e entrar no Café Nice. As atendentes não conseguiram servir o café para a candidata, que acabou recebendo o bule das mãos de fotógrafos que disputavam o espaço com os políticos.

Diante de um tumulto com cinegrafistas, fotógrafos, assessores e candidatos, todos espremidos dentro do café, ela cancelou a agenda. A mudança no roteiro para evitar os tumultos se repetiu em Porto Alegre (RS), São Paulo (SP) e Bauru (SP).

Os homens da candidata

Além de estar cercada por assessores e seguranças, como os que acompanharam ato em Vitória, Dilma viajou nestes últimos meses sempre acompanhada de um integrante do seu trio de coordenadores. Na maioria das vezes, Dutra e José Eduardo Cardozo, secretário-geral do PT, se revezavam na função. O ex-ministro Antonio Palocci não foi a comícios pelo País e se concentrou nos eventos realizados em São Paulo para a candidata.

Nos voos, quando não aproveita para colocar o sono em dia, a petista costuma cantar e jogar conversa fora. Voltando de Recife, no final de agosto, ela aproveitou a viagem para bater papo com Cardozo. O tema: literatura, o que vai ler e o que já leu — como Crime e Castigo , de Fiodor Dostoiévski.

Foi à capital gáucha, onde mora a sua filha, que Dilma retornou mais vezes durante a campanha. Por isso, além do jatinho, contou com o reforço de Clóvis, conhecido como “Gigante”, seu motorista há mais de 16 anos em Porto Alegre. No carro de Gigante, um cd do grupo de rock inglês Pink Floyd tocava no som. Mas Dilma gosta? “Só das faixas calmas”, disse o motorita, que a acompanhou inclusive no dia 9 de setembro, data do nascimento do neto da petista, Gabriel, no hospital Moinhos de Vento.

Agêcia Estado
Dutra foi um dos que acompanhou Dilma nas viagens; Palocci agia nos bastidores e se concentrava na coordenação da campanha

Salto alto

Porto Alegre, quinta-feira, dia 12 de agosto. Na casa onde morou quando saiu da prisão, na avenida Copacabana, à beira do rio Guaíba, Dilma  era esperada. À noite, por volta das 22 horas, a candidata fez uma parada especial, após chegar de Santa Catarina, onde havia participado de uma caminhada durante o dia. Aguardavam-na para jantar na varanda da casa com vista para o rio o ex-marido Carlos Araújo e a filha Paula, então grávida de Gabriel. No cardápio, um filé preparado pelo próprio Araújo.

A dias da estréia da propaganda na TV, o trio conversou sobre política. Paula, funcionária do Ministério Público, autorizou uso de fotos suas no programa da mãe, mas queria aprová-las antes de ir ao ar. Dilma, então, contou aos mais íntimos que estava muito feliz. Já sabia que o Datafolha do dia seguinte a mostraria, pela primeira vez, 8 pontos à frente do adversário José Serra (PSDB). Mas ponderou: precisava se conter em público. Queria evitar o “salto alto”, principalmente na militância contaminada pelo clima de “já ganhou”.

Sexta-feira, 13 de agosto, sede do PDT em Porto Alegre. Embora a pesquisa fosse ser divulgada só à noite, Dilma antecipou o recado em público. “Estou convocando o pessoal para a campanha eleitoral, para não ficar numa situação de acomodamento ( sic ). Não que eles estejam, mas, para evitar”.

Nos bastidores, integrantes mais cautelosos avaliam, no entanto, que, se a eleição não for resolvida no primeiro turno, um dos motivos para explicar a prorrogação da campanha seria exatamente esta euforia que desmobilizou antes da horas alguns setores do PT.

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