Com fama de durona, Dilma furou a fila pela sucessão de Lula

Hoje transformada fisicamente, petista buscou na família apoio para entrar na disputa presidencial

Andréia Sadi, iG Brasília |

Ex-ministra linha dura, hoje candidata do PT à Presidência. Escolhida como herdeira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição deste ano, Dilma Rousseff embarca na disputa empenhada em disfarçar as mesmas características que lhe renderam a fama de "dama de ferro" no Palácio do Planalto. De temperamento forte e considerada brava, a menina que estudou em colégio de freira e acabou na militância política contra a ditadura furou a fila no PT pela indicação para disputar a sucessão presidencial.

Hoje, Lula entra em campo para tentar justificar o traço de sua candidata. "Muita gente diz que a Dilma é dura, mas também nem todo mundo precisa ficar se arreganhando o tempo todo. Ser dura é uma das estacas que você utiliza para exercer sua função no poder", disse o presidente, em uma das declarações públicas em apoio à ex-ministra.

Os amigos admitem a caraterística, mas alguns procuram classificá-lo apenas como um reflexo da personalidade forte. Na prática, Dilma vem se submetendo há mais de um ano a um processo para suavizar sua  imagem. Perdeu peso, fez uma mudança drástica no guarda-roupa, trocou os óculos pelas lentes de contato e adotou o uso diário de maquiagem sob medida. Isso tudo para complementar o resultado de uma cirurgia plástica.

O processo foi interrompido pelo tratamento do câncer no sistema linfático que acometeu a petista em abril de 2009 e chegou a despertar no partido rumores de que sua candidatura estava sob risco. Depois do tratamento, Dilma retomou o ritmo de campanha, assim como as mudanças no visual. Amigos e familiares investem na tese de que a transformação é apenas física. “Ela sempre teve o temperamento forte, desde que a conheci com 19 anos. Mas vivi 30 anos com ela assim e muito bem”, diz o advogado Carlos Araújo, ex-marido de Dilma.

Elza Fiúza/ ABr
Antes da transformação a que se submeteu de olho na eleição, Dilma ainda exibia os óculos e as rugas acentuadas no rosto
Filha do engenheiro búlgaro Pedro Rousseff, e da professora Dilma Jane Silva, a ex-ministra teve dois irmãos : Igor e a caçula Zana. Com a perda do pai (em 1962) e a irmã (1976), Dilma fez dos amigos e companheiros sua família. "Eu me considero membro da família dela, tenho uma relação com a mãe dela. É uma companheiraça. Somos muito amigos", diz ele, que separou de Dilma em 1994.

O advogado foi o segundo casamento de Dilma. Em 1967, em Minas Gerais, ela oficializou no civil o relacionamento com Claudio Galeno, após um ano de namoro. O jornalista, cinco anos mais velho, era integrante do movimento Política Operária (Polop). A separação, diz ele, ocorreu em decorrência da luta armada. Perseguidos pela ditadura e na clandestinidade, fugiram de Minas para o Rio. De lá, Galeno foi transferido para Porto Alegre. A petista ficou no Rio - onde conheceu Carlos Araújo, gaúcho e dez anos mais velho.

Araújo fazia parte da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, a VAR-Palmares, que nasceu da fusão de duas outras organizações de luta contra a ditadura - o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a  Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No final de 1969, Dilma mudou-se do Rio de Janeiro para São Paulo, onde acabou sendo presa e torturada nos porões da Oban (Operação Bandeirantes) e do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Ficou detida no presídio de Tiradentes até 1972.

Ainda nos tempos da militância, Dilma teve seu primeiro contato com personagens que hoje ocupam posições estratégicas em sua campanha presidencial. Quando vivia com os sogros em Porto Alegre, Araújo estava preso na ilha das Pedras Brancas junto com Rui Falcão, deputado estadual e atual coordenador de comunicação de sua campanha.

“Dilma ia visitar a gente e sempre levava muito conforto. Era uma convivência mais de final de semana, isso quando não ventava, porque era um barco pequeno e não permitiam a ida das famílias para lá”, conta Falcão. Na campanha, está outro amigo daquela época, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel. Apontado como o homem de confiança da candidata na equipe, é ele quem se encarrega de avisar à petista toda vez que exagera no tom em uma declaração à imprensa ou em um discurso. 

Laços

AE
Recrutada por Lula, Dilma correu para a família em busca de apoio
Foi à família que Dilma correu quando Lula a comunicou que ela seria a candidata do PT. Araújo conta que ela foi a Porto Alegre apenas para buscar o apoio do ex-marido e da filha. A decisão de aceitar a tarefa, diz ele, já estava tomada. "Logo que ela soube, veio aqui contar para mim e para Paula. Ficamos chocados quando ela falou a primeira vez, mas depois entendemos."

O choque se deu principalmente porque Dilma havia acabado de se recuperar do tratamento contra o câncer no sistema linfático, descoberto em 2009. "A gente disse que ela ia se esgotar fisicamente, tudo que uma campanha traz, tentamos adverti-la - mas ela achou que ia se postar bem", completou.

Com a filha, a relação de Dilma é boa. Mas nem sempre foi assim. Com as atenções dos pais voltadas para a militância, a filha se ressentia. "Ela se queixava de que não recebia a atenção que queria na adolescência. Nunca fomos bons pais na verdade. Ela ficava com a empregada. Ela não ficava 24 horas com a filha, mas foi dedicada desde o início", relembrou Araújo. "Hoje somos mais corujas, até por conta do netinho", comemorou. No começo de setembro, Paula deu à luz Gabriel, primeiro neto da petista.

Mania

Assim que deixou a Casa Civil, Dilma escolheu Minas Gerais, onde nasceu, para iniciar a pré-campanha. Durante a visita, realizada em abril, o compositor Márcio Borges recebeu uma ligação da equipe de Dilma. A candidata queria marcar um encontro, para relembrar os velhos tempos. "Foi um encontro em café super charmoso. A Dilminha me chamou de Marcinho Godard - apelido que ninguém me chamava há 30 anos. Ela tem uma memória espantosa", afirmou Borges, fundador do Clube da Esquina.

Dilma tem mania de apelido, confirmou Araújo. Mas não quis contar à reportagem do que se chamavam quando casado. "É ridículo contar, né? Coisa de casal", disse, aos risos, o advogado.

O primeiro marido de Dilma, Claudio Galeno, disse que a característica prova que a candidata é afetuosa e bem humorada. " Sabe que encontrei a Maria Clara, que também foi companheira de Dilma e se encontrou com ela recentemente. Sabe o que ela me contou? Que chamou a Maria Clara de Lili Bombom", diverte-se Galeno.


    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG