Com campanha profissional e politizada, Romário é eleito deputado federal

Candidato novato teve aulas de política com sociólogo. Equipe tinha ex-militantes do PCB. Ele deu ao iG primeira entrevista eleito

iG Rio de Janeiro |

“Estou nervoso pra caceta, ansioso”, diz o candidato novato Romário (PSB), às 18h deste domingo, ainda sem a confirmação de sua eleição para deputado federal do Rio, como um dos dez mais votados do Estado. Longe do frio atacante matador da pequena área, o neófito na política acordou tenso, foi votar tenso e assim ficou até a confirmação da eleição, com mais de 140 mil votos. Ele concedeu ao iG sua primeira entrevista após o fim da votação para deputado federal, em seu comitê eleitoral, na Barra da Tijuca.

Com uma campanha profissional, política e tocada por ex-militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o ex-jogador da seleção brasileira Romário (PSB), 44, foi o sétimo deputado federal mais votado do Rio, em sua estreia. Seus mais de 140 mil votos ficaram dentro de seu “chute”, preciso: entre 120 mil e 180 mil eleitores. Nada mal para um estreante. “Como não sou profissional [na política], fiz questão de que as outras pessoas fossem profissionais. Afora meu irmão, minha irmã, dois amigos que vestiram a camisa”, disse Romário.

Raphael Gomide
Tenso, o ex-jogador Romário, novato na política, chega para votar em Parada de Lucas, no subúrbio do Rio. Ele se elegeu deputado federal
O ex-atleta contou com a ajuda de um mentor político, o sociólogo Márcio Saraiva, que lhe deu assessoria e “aulas” de política e do funcionamento do Congresso e da atividade de parlamentar. “Na campanha, tem gente oriunda do PCB, do MR-8, das organizações de esquerda dos anos 80”, explicou Saraiva. “Meu trabalho foi ajudá-lo na composição do discurso, municiá-lo de informações e dados”, disse.

A equipe de Romário tinha três assessores de imprensa, fotógrafa, designer, e muitos advogados, com quem se reuniu nesta tarde. No comitê, havia cerca de 30 pessoas às 17h deste domingo. Nesse momento, o ambiente enfumaçado cheirava a charuto cubano, fumado por Romário, que distribuía ordens.

Neste dia decisivo, o tetracampeão acordou cedo para seus padrões, 7h30, como revelou a mulher, Isabella. Como marcado com a imprensa, chegou pontualmente às 10h30 na sua seção eleitoral, em Parada de Lucas, subúrbio do Rio, na região onde foi criado. Parou com sua BMW X6 na calçada e foi votar, parando no caminho seis vezes antes de atravessar a rua. “Quero ver se depois ele não vai se esquecer da gente”, disse uma senhora, na porta da seção eleitoral.

Na zona eleitoral, tirou foto com a coordenadora eleitoral e com um fiscal. “Ele é o cara”, dizia seu santinho de campanha, ilustrado com uma foto sua com a camisa amarela da seleção e os braços abertos. Apesar dos autógrafos e fotos, chegou nitidamente tenso para votar. “Ele está nervoso, não está acostumado, acordou cedo”, disse Isabella Bittencourt, 31, sua mulher, enquanto o marido estava na fila, olhar sério. Ela usava um colar de ouro com a assinatura de Romário gravada.

Raphael Gomide
Carro de Romário é cercado por moradores e eleitores de Cordovil, subúrbio do Rio. O tetracampeão foi eleito deputado federal
O ex-jogador demorou dez minutos, posou para mais fotos, deu rápida e protocolar entrevista e saiu de carro por Cordovil, bairro vizinho, cumprimentando eleitores. A reportagem do iG o acompanhou. O assédio é incessante. Todos o reconhecem e a maioria acena ou fala algo. “Romário!” “Fala, Romário!” “Dá-lhe, baixinho!”

De dentro do carro, Romário buzinava e acenava, com o vidro aberto. “Não é ele não... É sim!”, disse o serralheiro Daniel Camilo da Silva, que votou no ídolo. “Fala, baixinho!”, gritou na rua um homem com roupa e crachá de fiscal eleitoral. “Quê isso, Romário na área!”, disse um homem, sorrindo. “Oi, gostoso!”, berrou uma mulher, depois que Romário passou, no carro, ao lado da mulher, Isabella. “Filho da p.!”, falou outro. “Votei em tu [sic] hoje, hein?” O carro para no engarrafamento em uma rua típica de subúrbio carioca, com intenso tráfego de carros e pessoas. “É ele mesmo? É!” “Fala, peixe, olha o peixe aí!”

“Fala, baixinho! Larga esse carro, vem andar na rua!” De fato, a BMW X6 2009/2010 prata chamava a atenção quase tanto quanto o próprio Romário. “[A BMW] Não é [blindado], nunca foi nem nunca vou precisar”, quis esclarecer o ex-jogador ao iG. “Olhe o carro do Romário!” Mais à frente, outro: “Carrão, hein?” E mais um: “Ó o carrão! Com dinheiro é bom!” “Olha o ‘carrinho’ dele...”

Raphael Gomide
Sério e calado, Romário espera para votar na sua seção eleitoral na estreia como candidato a deputado
O dia-a-dia da campanha era assim e consumiu seu preparo físico de ex-jogador. Na semana passada, reclamou de exaustão aos assessores. “Ele disse que correu mais na campanha que no campo”, disse uma assessora. Na campanha, acordou frequentemente às 6h, 6h30, muito antes das 9h30, 10h que costuma acordar. “Isso começou em 13 de julho, no dia seguinte ao fim da Copa do Mundo, quando fui à Central, às 6h. De lá para cá, afora duas saídas para o exterior, estive direto em campanha, corri mais de 30 municípios, com uma campanha pé no chão”, afirmou. Mas ele não tem dúvidas. “Adorei a campanha, não me arrependo nem um pouco, estou amarradão”, disse Romário ao iG .

Suas plataformas são apoio a crianças portadoras de deficiências – ele tem uma filha, ivy, com síndrome de Down – e esporte para crianças e jovens pobres.

Talvez pelo coaching, a irreverência e a contestação dos tempos de futebol deram lugar a um Romário sério e grave, sem sorrisos nem brincadeiras, embora ainda com alguns palavrões.

Raphael Gomide
Romário posa para fotos ao lado de dois fiscais eleitorais, dois fãs do deputado eleito
Márcio Saraiva tem dúvidas se Romário vai gostar da vida parlamentar, mas não duvida de seu potencial eleitoral – acreditava poder chegar a 800 mil votos, com uma campanha mais rica. E sonha com uma eleição para o Senado, para o governo ou até para presidente. “Por que não? Lula começou como simples metalúrgico... Quem diria nos anos 80 que Lula seria presidente?”

Romário é menos ambicioso, por ora. “Não vou mudar o Brasil nem o Rio, mas tenho o compromisso de ajudar. No futebol, comecei no infantil do Olaria, e queria ganhar a competição. Depois, no juvenil do Vasco, queria ser o melhor jogador e artilheiro. Vou fazer degrau por degrau. Meu objetivo principal é cumprir os quatro anos, da melhor maneira possível. Se lá na frente tomar gosto, posso ver. Agora, não tenho nada mais na minha idéia”, disse. Acabou a conversa eleito.

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