Cientistas políticos avaliam a força de 'dilmasia' e 'pimentécio'

Especialistas não acreditam no êxito do primeiro movimento, mas falam chances reais para Aécio Neves e Fernando Pimentel

Eduardo Ferrari, iG Minas Gerais |

O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), foi eleito como resultado de uma união política poderosa entre duas das principais lideranças mineiras, o ex-governador Aécio Neves (PSDB) e o ex-prefeito Fernando Pimentel (PT). Cabo eleitoral declarado do atual governador de Minas, o tucano Antônio Anastasia, candidato à reeleição, o prefeito tornou-se novamente um dos símbolos do que Aécio e Pimentel chamam de “política de convergência” entre os dois partidos adversários. Lacerda assumiu, há pouco mais de uma semana, a coordenação do movimento municipalista suprapartidário pró-Dilma Roussef (PT). 

O empenho por Anastasia, para o governo de Minas, e por Dilma, para a Presidência da República, faz Márcio Lacerda ser um dos líderes do movimento que vem sendo chamado de “dilmasia”, que conta com a adesão de petistas e membros de partidos de esquerda contrariados com a escolha do ex-ministro Hélio Costa (PMDB) como candidato ao governo de Minas pela base aliada do governo federal. O prefeito da capital mineira também é um dos símbolos de outro movimento que ganha corpo no Estado, o “pimentécio” para o Senado, em torno das candidaturas de Pimentel e Aécio. 

Oficialmente, Márcio Lacerda é cabo eleitoral da campanha do ex-prefeito petista Pimentel. Mas, como são duas as vagas em disputa para o Senado Federal, ficou fácil para o prefeito apoiar também o ex-governador tucano, de quem era secretário de desenvolvimento econômico quando foi escolhido para ser o nome da convergência nas últimas eleições para a prefeitura de Belo Horizonte. 

Em 2008, Aécio e Pimentel tiveram mais dificuldade do que esperavam para emplacar a tal aliança. O PT de Minas rachou. O ex-prefeito e o ex-ministro Patrus Ananias entraram num confronto público que exigiu a intervenção da cúpula nacional do partido. O PT não aprovou a aliança formal com o PSDB de Aécio Neves, que acabou dando apoio informal à candidatura de Lacerda, que só conseguiu se eleger no segundo turno. 

A forte resistência à proposta de convergência dos dois caciques mineiros acabou jogando por terra o objetivo principal da aliança, que seria o apoio de Aécio para que o petista Pimentel fosse seu sucessor no Palácio da Liberdade. Márcio Lacerda costuma dizer, quando questionado sobre o assunto, que a ferrenha oposição da cúpula petista ficou para trás. O convite para coordenar o movimento municipalista pró-Dilma seria uma das provas disso. 

O “dilmasia” mineiro guarda semelhanças com outro movimento, o “lulécio” que, em 2002 e 2006, justificaram a derrota dos candidatos tucanos à presidência José Serra e Geraldo Alckmin em Minas que é, com 14,5 milhões de votos, o segundo maior colégio eleitoral do País. Tanto em 2002 quanto em 2006, Aécio Neves venceu com facilidade a disputa ao governo do Estado, mas não conseguiu transferir votos para as candidaturas tucanas ao Planalto. 

Nos bastidores, José Serra costuma brincar que o “dilmasia lhe dá azia". Como vencer a resistência dos mineiros – que queriam ver Aécio Neves disputando a Presidência – é uma das perguntas mais frequentes ao candidato tucano, que tem procurado reforçar sua presença no Estado. Outro que não gosta nada das referências ao movimento é, claro, o ex-ministro Hélio Costa. 

"Anastasia pode ficar sozinho", diz sociólogo

Cientistas políticos e sociólogos, porém, não acreditam na força do “dilmasia”. Carlos Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que Anastasia está praticamente estagnado na campanha, embora sua candidatura já esteja anunciada há bastante tempo por Aécio Neves. “Há algo errado na campanha dele”, diz Ranulfo. “Hélio Costa tem a primeira chance real de ganhar a eleição em Minas.” 

As pesquisas são, de fato, favoráveis ao peemedebista. A mais recente, no Instituto Sensus, divulgada no último domingo, atribui a Hélio Costa 43,3% das intenções de voto. Anastasia aparece no levantamento com 21,5% das intenções. A pesquisa foi encomendada pelo PR e divulgada pelo presidente estadual da legenda, Clésio Andrade. 

Há quem duvide até que Aécio Neves vá, de fato, se empenhar pela candidatura de Antônio Anastasia. “Anastasia pode ficar sozinho se chegar ao segundo turno com uma desvantagem muito grande”, aposta Rudá Ricci, sociólogo e professor da PUC-MG. 

Com formação em direito e especialização em administração pública, Antônio Anastasia é o idealizador do “choque de gestão” que marcou os dois mandatos de Aécio. Admirado pelo empresariado mineiro, ele não tem perfil político. Nunca teve militância política e só filiou-se ao PSDB, em 2006, a pedido de Aécio que queria um vice que não fosse obstáculo para seus planos futuros. 

Ricci lembra ainda que as relações do ex-governador de Minas também são boas com o ex-ministro das Comunicações, Hélio Costa. “O grande objetivo de Aécio é um só, se eleger senador com votação recorde.” Para o sociólogo, pouco importa ao neto de Tancredo Neves garantir a vitória de Anastasia, a de José Serra ou a de Itamar Franco (PPS), segundo candidato ao Senado pela coligação que o apóia. 

Segundo ele, erra quem associa a força de Aécio à capacidade do ex-governador de eleger seus aliados na coligação “Somos Minas Gerais”. Para o sociólogo, o melhor cenário para o tucano mineiro é a eleição de Dilma Roussef. Até porque, com a ex-ministra na Presidência são grandes as chances de Pimentel ir para o Ministério e deixar Aécio brilhando sozinho no Senado. “Aécio Neves joga em sim mesmo, suas prioridades são o que importam”, acrescenta Carlos Ranulfo. 

Se não apostam na força do “dilmasia”, já sobre o “pimentécio” os cientistas políticos têm visão diferente. Acreditam no crescimento da força política dos dois mineiros, AécioNeves e Fernando Pimentel, que têm chances reais de chegarem juntos ao Senado. “Essa será a força política do futuro pois o tempo dos paulistas no poder está acabando”, avalia Ricci.

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