Cid Gomes: Ciro exagera, mas PMDB foca em espaços de poder

Governador do Ceará, Cid diz em entrevista ao iG que PSB quer chegar à Presidência e que Ciro ainda pode ser candidato

Andréia Sadi, iG Brasília |

Em comum com o irmão Ciro, Cid Gomes carrega o sobrenome e a vocação  para a política. Filiados hoje ao PSB, ambos começaram a carreira no cenário cearense , conquistaram mandatos e passaram por prefeituras da região. Após as experiências municipais, Ciro e Cid decidiram alçar vôos mais altos. Ciro investiu na Presidência; Cid, no governo do Estado. Em 2002, Ciro perdeu a eleição para Lula. Em 2010, foi preterido da disputa pelo PSB a pedido de Lula . Em 2006, Cid levou o governo do Estado e foi reeleito para o cargo no último dia 3. As semelhanças, porém, param por aí em uma primeira observação.

O Ciro polêmico e tom exaltado pouco tem em comum com o Cid geralmente discreto e moderado em suas aparições. Sem a marca registrada do irmão, no entanto, Cid também sobe o tom em declarações. Em entrevista exclusiva ao iG , o governador reeleito do Ceará afirma que o PMDB, partido da base aliada, foca a sua estratégia de crescimento “na ocupação de espaços no governo e em poder”, o que pode caracterizar fisiologismo, mas não concorda com a acusação do irmão de que o partido é um “ajuntamento de assaltantes”.

“Ciro exagera. (..)Uns são bons, outros nem tanto. Ciro acho que exagera quando generaliza quando diz que todos são..não é verdade”, defendeu.

AE
Em família: Cid comemora reeleição com irmão Ciro


Para Cid, o seu partido se comporta se forma diferente. “O PSB, no que eu sonho, não é partido para tentar ampliar em ministério do governo A, B ou C, não. O PSB que eu sonho é chegar a Presidência.”

Abaixo, confira os principais trechos da entrevista com Cid:

iG: PSB sai desta eleição fortalecido. Já elegeu três governadores no primeiro turno e pode eleger mais três agora. Foi também, dos aliados, um dos mais empenhados em pedir voto para a candidata Dilma Rousseff. No governo Lula, o partido ocupou dos ministérios- Portos e Ciência e Tecnologia. No governo Dilma, o PSB terá mais espaço nos ministérios?

Cid Gomes: Bom, espaço se conquista. O PSB tem cumprido a sua tarefa, o seu dever de casa. Governadores, ampliamos a bancada na Câmara- no Ceará dobrou, foi de dois para quatro, Pernambuco dois para cinco, enfim, estamos conquistando. O mais importante é o partido se consolidar como partido nacional. Aí que está o desafio porque o partido está muito concentrado. Espírito Santo eu não diria nem que é força do partido. Foi um talento pessoal do Renato Casagrande se eleger. O desafio do PSB é crescer no Sul e Sudeste.

iG: Mas e os cargos?

CG: Não é muito minha praia, não. Não tenho muito interesse nisso não. Quero uma política boa para o Brasil.

iG:Mas para o partido crescer neste sentido nacional, que o senhor diz, ocupar ministérios também daria uma certa projeção.

CG: Mas eu acho que o melhor crescimento é o da eleição. Não é a partir de ministérios. Isso soa a fisiologismo. Prefiro crescer por baixo, pelo povo. O PSB, no que eu sonho, não é partido para tentar ampliar em ministério do governo A, B ou C, não. O PSB que eu sonho é chegar a Presidência.

iG: E para a presidente da República do PSB, Eduardo Campos? Já estamos falando de 2014?

CG: O Eduardo Campos é um grande companheiro. Para ser candidato majoritário não basta só ter uma liderança no partido. Precisa ter uma liderança popular. Ele tem uma história, muito talento, valor e é um dos nomes, certamente. Brasil tem poucos nomes, você não cita dez nomes com condição de disputar. Ele vem se consolidando.

iG: Quais são os nomes?

CG: Vamos encher as duas mãos com nomes. No PSDB, a do Serra deverá ser a última. Você então fica com Geraldo Alckmin , Aécio Neves e talvez Beto Richa. No PT, Dilma e Lula. Talvez o Jacques Wagner. No PMDB, não conseguem fazer um nome nacional e dificilmente fará. No PSB, Ciro e Eduardo. Para o futuro, Marina Silva. Enfim, não consigo encher as mãos com 10.

iG: Ciro ainda está no jogo?

CG: Claro que sim. O Ciro tem uma partida que para o Eduardo é um grande desafio. Isso é sadio, natural que queira ascender quem está na vida pública. Mas o Ciro já tem alguns anos de história. Um nome muito mais conhecido que Aécio, por exemplo. Contra o Ciro, pesa uma certa má vontade da mídia nacional. Mas, já vimos isso em pesquisa, esse conceito que mídia faz do Ciro não é coisa que consiga penetrar no pensamento médio dos brasileiros.

iG: Mas o senhor tem um perfil diferente do Ciro. O senhor é mais moderado e Ciro é conhecido pelas declarações mais polêmicas. Isso é má vontade da mídia?

CG: Você tem duas coisas aí. O Ciro tem um comportamento mais ousado. Muitas vezes, polêmico e isso é característica de quem é o batedor, vai na frente. Esta é a vida do Ciro. Ele sempre precisou desbravar, nunca ganhou nada de mão beijada. Diferente de mim que já tinha caminhos semi-abertos. Como eu não tenho o talento que ele tem, eu compenso de outra forma. Eu ouço mais, contemporizo mais. Um vai desbravando na frente, outro vai aqui atrás ajeitando as coisas. Eu não existiria sem ele. Enfim, ele chegou na condição que chegou por este talento. Porque é polêmica e ousada. Se fosse mais acomodado, não teria.

iG: Ele faria diferença na eleição, como fez a Marina Silva?

CG: Eu penso que se ele tivesse sido candidato-muito fácil falar agora, na verdade. Se você tivesse me entrevistando 20 dias antes da eleição, eu diria ‘Lula que estava correto, o Ciro que estava errado. Tinha que apostar tudo no 1º turno’. Mas o Brasil tem disso. Nos últimos 15 dias, acabou surgindo aí um terceiro nome. Brasil não queria essa coisa plebiscitária, de PT e PSDB. Era isso que Ciro dizia. Ele teria, fácil falar agora, ele tiraria mais votos de Serra. Ciro não teria a postura que Marina teve no segundo turno. Votaria no Ciro, mas não gostaria de viver esse dilema.

Mas está bom agora o clima. Paramos os 15 primeiros dias, foram doídos, baqueia, todo mundo achou que Dilma fosse ganhar no primeiro turno. Política é feita assim. Estava todo mundo de moral baixíssimo.

iG: Sobre a campanha de Dilma. O senhor disse que a expectativa era ganhar no primeiro turno, o que não aconteceu. Na segunda fase, a campanha decidiu abrir a coordenação, já que uma das reclamações dos aliados era a concentração das decisões nãos mãos dos petistas. Isto de fato aconteceu ou foi uma mudança da boca para fora?

CG: Não só o fato de ter segundo turno foi uma boa lição como naturalmente a ouvida de opiniões foi importante. Foram revistas muitas coisas.

iG: O Ciro, por exemplo, compõe este novo grupo. O que exatamente ele faz?

CG: Não é só o Ciro. Eu, por exemplo, fiz três ou quatro sugestões e me senti contemplado. Mas veja bem. Campanha não pode ter ilusão de que vai ser uma assembléia que vai decidir os rumos. Precisa ser um núcleo mais integrado e cuide. Tem opinião para todos os gostos e muitas delas improdutivas. Tem gente que abre a boca para falar cada coisa.

iG: Quem, por exemplo?

CG: Não vou te falar. Mas discurso você vê para todos os lados. Muitas vaidades. Tudo parte da política.

iG: O senhor concorda com a idéia de que Collor e Sarney são alianças “incômodas” de Dilma Rousseff e do PT?

CG: Quando o Ciro, em 2002, era candidato e os ACM decidiram apoiar o Ciro, ave Maria, quase que o mundo se acaba. Quando o PFL (hoje DEM) cogitou de apoiar sem coligar com o Ciro o Roberto Freire (PPS) teve um chilique. Impediu. E hoje? Estão todos juntos lá. Não o ACM velho, mas está o ACM Neto e apoiando o Serra. E pronto, não tem problema? Quando é para apoiar o Serra...E o Quércia? Agora, está lá com Serra e não tem problema? Ora, só tem problema apoio com Dilma? Ora, é brincadeira.

iG: Sobre o PMDB...

CG: Não, é que Serra vive falando de Collor , Sarney...Se estivessem com ele, não tem problema nenhuma. Agora, estão com Dilma, aí não pode. E a grande mídia vai na linha. Por que não reclama do Quercia, ACM apoiando Serra?

iG: Mas sobre o PMDB. Ciro chamou o partido de um ajuntamento de assaltantes. O senhor concorda?

CG: Ciro exagera. Ele exagera. O PMDB é um ajuntamento de seções regionais, não tem liderança nacional do PMDB. Por exemplo, a seção da Paraíba, a do Rio Grande do Norte. Tanto é que você viu aí no cenário nacional. Uns são bons, outros nem tanto. Ciro acho que exagera quando generaliza e diz que todos são (ajuntamento de assaltantes). Não é verdade. Enfim, qual era a pergunta mesmo? (risos)

iG: O senhor disse que PMDB não tem liderança nacional. E o Michel Temer, vice de Dilma?

CG: Nacional? Não. Ele foi guindado a ser expressão na chapa de Dilma. Mas Temer não exerce liderança popular. Vai dizer que ele tem liderança para reunir pessoas em um comício? Sabemos que não. Mas não estou falando mal. Estou dizendo a verdade. O PMDB não tem liderança popular.

iG: Comparando os partidos. O senhor disse que o PSB prefere crescer nas urnas..

CG: O PMDB já prefere outro. O PMDB foca nos Estados, não tem unidade nacional nem ideológica e foca a estratégia de crescimento na ocupação de espaços em governos, em poder. Isso não é ilegítimo, não, é estratégia.

iG: É fisiologismo?

CG: Pode ser, pode se transformar em fisiologismo. Mas não necessariamente é fisiologismo. Se você ocupar o espaço e passa a mal versar, aí sim. Até chegar ao poder, não. É uma estratégia clara do PMDB ao longo da sua História. No primeiro governo Lula, uma banda do PMDB esteve aqui, outra na oposição. Depois, inverteu.

iG: Agora sobre o cenário no Ceará. O senhor sempre foi amigo de Tasso Jereissati (PSDB), derrotado na eleição do Senado. Na semana passada, ele chegou a aparecer na propaganda do Serra falando que seria mais vitorioso se Serra vencesse se tivesse sido eleito para o Congresso.

CG: Ele disse isso no programa do Serra?

iG: Disse. Ao invés de Tasso, o senhor apoio José Pimentel (PT) e Eunicio Oliveira (PMDB, que acabaram eleitos. Como está a relação de vocês?

CG: Nós temos uma relação política e de proximidade muito mais do que isso. De reconhecer nele um papel fundamental na política do Ceará. (..) Nesta eleição, eu vim ao Lula aqui falar que Tasso era bom para mim e que ele seria bom para Dilma lá, Tasso neutralizaria os prefeitos do PSDB no Estado. Lula não quis me dizer não e disse que conversaria com o PT no Ceará. Ai neste período, Tasso “despiroca” , lançou candidato próprio e eu fiquei no pior dos mundos. Porque eu vim pedir isso ao Lula e o cara por quem estou trabalhando (Tasso) me abandona. Então, PT ficou com o Senado e PMDB com outra vaga. (...) Não conversei mais com ele depois disso. Ele ficou o tempo todo tentando polarizar comigo e eu não deixei.

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