Candidatos miram em Cabral no primeiro debate no Rio

Alvo das críticas dos adversários, governador e candidato à reeleição perdeu a paciência e ganhou dois direitos de resposta

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro |

O primeiro debate dos candidatos ao governo do Estado do Rio, na Band, na noite desta quinta-feira (12), foi marcado por críticas e acusações entre os quatro concorrentes presentes ao encontro - Sérgio Cabral (PMDB), Fernando Gabeira (PV), Fernando Peregrino (PR) e Jefferson Moura (PSOL). O principal alvo dos ataques foi o governador Sérgio Cabral, que tenta a reeleição em uma aliança composta por 16 partidos, entre eles o PT.

Cabral foi acusado de permitir corrupção na gestão da saúde; de descumprir promessas de governo como o pagamento do plano de cargos e salários dos servidores; de não investir em educação; e de "misturar o público e o privado" por considerar correto que sua mulher, a primeira-dama Luciana Ancelmo, seja sócia de um escritório de advocacia que defende concessionárias que prestam serviço para o Estado.

Agência Estado
Debate organizado pela Band no Rio com os quatro candidatos ao governo do Estado: Jefferson Moura (PSOL), Cabral (PMDB), Fernando Peregrino (PR) e Fernando Gabeira (PV)
No contra-ataque, o governador perdeu a paciência, revidou as acusações dos rivais e ganhou dois direitos de reposta. Durante os cinco blocos do debate, poucas propostas foram apresentadas pelos candidatos.

Candidatos e companhias

A temperatura subiu logo no primeiro bloco, quando os candidatos tiveram de responder por que queriam governar o Rio de Janeiro. Jefferson Moura deu início ao bombardeio, dividindo a artilharia entre Cabral e Gabeira. "O governador é do PMDB de Sarney e Renan Calheiros; Gabeira está em uma aliança com tucanos e com o DEM do Cesar Maia, da Cidade da Música. Os dois são mais do mesmo", disparou.

Cabral foi o segundo a explicar os motivos que o levam a tentar a reeleição, e também iniciou sua participação com ataque aos concorrentes. "Quando assumi o estado não havia nem R$ 100 milhões em caixa", disse referindo-se à ex-governadora Rosinha Garotinho (PR), antiga aliada e hoje rival, e uma das principais apoiadoras da candidatura de Fernando Peregrino. "Hoje o Rio tem uma agenda econômica de desenvolvimento que é uma das maiores do Brasil. O Rio é o primeiro colocado na recepção de recursos federais", falou, destacando a parceria com o governo Lula.

Na sequência, Peregrino revidou: "Assistimos à máquina publicitária do atual governo deixar a eleição polarizada. O Estado precisa ser resgatado do ponto de vista moral", disse. "Os interesses públicos foram sequestrados pelo setor privado."

Gabeira encerrou a primeira etapa do debate afirmando que o Estado tem "problemas muito sérios", como corrupção. "Quero reorganizar a saúde e combater a corrupção do setor. Quero tirar o Rio da lanterna no ranking nacional de ensino", disse. "Os professores precisam ganhar mais que um cabo eleitoral do governador", alfinetou.

Agência Estado
Líder nas pesquisas de intenção de voto e com chances de vitória no primeiro turno, Cabral (PMDB) foi o alvo dos adversários no debate do Rio
Ex-aliados protagonizam os embates

A partir do segundo bloco, os candidatos puderam fazer perguntas entre si. Fernando Peregrino quis saber se o governador Sérgio Cabral achava "moral" sua mulher, Adriana Ancelmo, ser sócia do escritório de advocacia que representa concessionárias como Metrô e Supervia, responsáveis por serviços de transportes do Rio.

Impaciente, Cabral disse que "lamentava" que esta questão tenha sido levada para o debate. "Minha mulher era advogada quando a conheci e continuará depois que eu deixar o governo", afirmou. "A Supervia, graças ao Casal Garotinho, que você representa, está em petição de miséria."

Ao ser acusado por Peregrino de não responder sobre se achava moral ou não o trabalho de sua mulher como advogada, o governador retrucou com mais ataques. "Lamento profundamente que o candidato do casal Garotinho, cuja prefeita acabou de ser cassada, venha falar da moral da minha mulher", disse, referindo-se ao fato de Rosinha Garotinho ter sido afastada da prefeitura de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, após a Justiça Eleitoral condená-la por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.

Como revide, Peregrino acusou Cabral de "cuspir no prato que comeu", por já ter sido aliado do casal Garotinho, quando todos pertenciam ao PMDB. "O governo que ele falou, de Rosinha e Garotinho, foi o governo que ele se beneficiou. Ele desdiz o que fez, cospe no prato que comeu."

Direito de resposta

No terceiro bloco, Cabral conseguiu dois direitos de reposta para rebater as acusações de Fernando Peregrino. "Quero lamentar que tenham ofendido minha mulher. Peço desculpas se me exaltei, mas são ilações absolutamente irresponsáveis", disse o governador.

Cabral quis saber de Jefferson Moura o que ele achava sobre o grau de investimentos atribuídos ao Estado pela agência de classificação de riscos Standard & Poor's. O socialista desviou da pergunta e disse que faria uma auditoria nas contas de Cabral, caso fosse eleito.

O governador aproveitou a deixa para destacar realizações de seu governo. Disse que abriu novos concursos públicos e que concedeu reajustes para áreas como o magistério.

Moura respondeu que também é servidor estadual e que Cabral conversava pouco com a categoria que, segundo ele, "não estaria feliz com o governo". "O senhor, quando era presidente da Alerj, aprovou o plano de cargos e salários para os servidores do Estado. O senhor foi eleito e não cumpriu o que assinou", retrucou.

Ex-Gabeira

Apesar do embate com o governador Sérgio Cabral, Jefferson Moura não poupou Fernando Gabeira, insistindo condenar a aliança do verde com PSDB e DEM.

Gabeira retrucou que é candidato de uma coligação e que luta contra "forças muito fortes" no Rio de Janeiro. "Para isso eu preciso de apoio. Mas quero dizer que não vai haver fisiologismo no meu governo. Quem quiser me apoiar na luta contra essas forças poderosas será bem vindo. Até sonhei que vocês viriam me acompanhar", rebateu, sarcástico.

Moura arrancou risadas da plateia, formada por assessores dos candidatos, ao responder que não apoiaria Gabeira. "Antes só do que mal acompanhado", falou. Em seguida, acusou o verde de abrir mão de seu passado de lutas para "dar as mãos a uma coligação com Cesar Maia, dos escândalos de Brasília, da Cidade da Música".

Moura finalizou a ostensiva contra o verde com uma das expressões mais comentadas ao fim do debate. "O senhor parece um ex-Gabeira”, cunhou.

O candidato do PV retrucou: "Para chegarmos ao poder não podemos ficar com um romantismo de esquerda que já passou. Não somos adolescentes, os adolescentes gostam de firmar diferença", disse Gabeira. “O ex-Gabeira é aquele que não quer promover uma revolução socialista que acabou com Cuba, acabou com a Coreia do Norte, com a Rússia”, respondeu.

Saúde em foco

Gabeira e Peregrino fizeram uma "dobradinha" ao criticar a gestão de Cabral na área de saúde do governo do Rio. Peregrino acusou as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), inauguradas no governo do peemedebista, de serem superfaturadas, enquanto o verde destacou as denúncias de superfaturamento na compra de remédios na Secretaria Estadual de Saúde.

"O governador não explicou o que aconteceu. Fingiu que não era com ele, como fingem os coronéis do PMDB que ele representa", criticou Gabeira.

Peregrino lembrou que, ao longo da gestão, Cabral chamou médicos que faltavam ao trabalho de "vagabundos", xingou um jovem de 17 anos de “otário” e perguntou se essa atitude do governador era "preconceito, desequilíbrio ou destempero".

Em resposta, Sérgio Cabral disse, sem citar nomes, que rebebeu uma "aliança maldita" dos aliados do candidato do PR, Rosinha e Anthony Garotinho.

Peregrino, então, acusou o governador de ser "preconceituoso" com os mais pobres. "Ele (Cabral) só sobrevoa a cidade e o Estado de helicóptero, não vê o que a população carente vive todo dia".

Na tréplica, Cabral falou: "Peregrino e Gabeira: Garotinho e Cesar Maia... Quando assumi, o deserto na saúde era total. O secretário de Garotinho havia sido preso e os hospitais estavam um caos na cidade administrada por Cesar Maia", falou. "Hoje nós não temos isso."

Em seu segundo direito de resposta, Cabral refutou as acusações de superfaturamento na compra de remédios. Ele defendeu o pregão eletrônico implantado em sua gestão, como forma de garantir mais transparência nas licitações.

Candidatos criticam, mas prometem continuidade

Ao responder a uma pergunta de Sérgio Cabral sobre as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), Fernando Peregrino disse que elas "não atendem às populações". "É preciso prender os bandidos e armas, e isso não tem sido feito". O candidato, contudo, prometeu dar continuidade à política. "Não vou acabar com UPPs, vou ampliar com serviços públicos", falou.

Já Gabeira elogiou UPAs, mas criticou a falta de diagnóstico e de realização de cirurgias eletivas. O verde prometeu aumentar em 60% a folha de pagamentos dos funcionários da saúde, caso seja eleito.

Cabral destacou o que considera benefícios do bilhete único (que permite ao usuário usar duas conduções - trem, barcas, ônibus ou metrô - no período de 2 horas por R$ 4,40 ), num dos poucos momentos em que defenderam suas propostas de governo.

Jefferson Moura foi o único que não prometeu continuidade aos programas implantados por Sérgio Cabral, como UPAs e UPPs.

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