Cadeira de vice virou dote nas campanhas eleitorais

Para especialistas, papel do número dois no governo é quase 'decorativo' em comparação ao modelo adotado em outros países

Andréia Sadi, iG Brasília |

De olho na vice-presidência da República, Michel Temer (PMDB), Indio da Costa (DEM) e Guilherme Leal (PV) acumulariam o comando do Senado se suas respectivas chapas fossem vitoriosas nas urnas de outubro. Mas isso se a eleição fosse nos EUA.  No Brasil, os vices têm como função principal substituir o presidente quando em viagens e renúncia, morte ou deposição do cargo por processo de impeachment.

“O dote foi esse, Temer não era o predileto, nem de Dilma, muito menos do Lula. O Indio da Costa, ninguém imaginava, nem ele imaginava. Mas aí o DEM bateu o pé para fechar a composição partidária”, relembra o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB).

O cargo de vice-presidente no Brasil foi oficialmente criado na Constituição de 1891, mas já existia desde 1889. No período de 1891 a 1964, véspera do golpe militar, o vice acumulava a função com a presidência do Senado. Na época conhecida como Era Vargas, o posto foi extinto e só voltou na Constituição de 1946.

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Dilma e Temer: tempo de TV do PMDB pesou na escolha

“O vice era um drama. Na República de 46, votava-se para presidente e para o vice separadamente. Foi o caso da chapa Jan-Jan”, lembrou Barreto. A composição que ficou conhecida como “Jan-Jan” era formada pelos adversários Jânio Quadros e João Goulart. Jânio, apoiado pela UDN, não conseguiu emplacar o seu vice, Milton Campos e dividiu a vitória com João Goulart, do PTB. “É como se, hoje, a Dilma fosse eleita e o Indio da Costa também. Foi um vice traumático”, disse o professor.

José Paulo Martins Júnior, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, concorda com a avaliação, já que considera que a substituição de Jânio por João Goulart após sete meses no poder foi uma guinada ideológica. Quando Jânio renunciou, em 1961, Goulart estava em uma missão diplomática na China. Militares, ministros do governo queriam impedir a posse do vice porque o consideravam ligado aos partidos comunista e socialista. Foi aprovado então o sistema parlamentarista e Jango tomou posse. “Depois do Jango, o Brasil teve outros vices traumáticos e vices que não conseguiram assumir, como o Aleixo na ditadura”, disse.

Eleito vice na chapa de Costa e Silva, em 1966, Pedro Aleixo foi impedido de assumir a Presidência quando o então titular adoeceu. Os militares temiam que o vice, contrário ao AI-5, propusesse a revisão da Constituição de 1967. Em 1970, Aleixo deixou a Arena, partido que dava sustentação à ditadura militar, sem nunca ter ocupado a Presidência da República. “Foi praticamente um golpe no vice. Se ele assumisse, diziam que seria a volta do governo civil. Quando ( Fernando ) Collor caiu com o impeachment, Itamar ( Franco ) ficava dizendo ‘eu não sou o Pedro Aleixo’", conta Barreto.

Agência Estado
Indio entrou na chapa na última hora, em meio à pressão exercida pelo DEM

'Presidente por acidente'

Os vice-presidentes tiveram papel de destaque no Brasil já em 1891, quando o primeiro presidente do País, Deodoro da Fonseca, renunciou e quem assumiu foi o vice Floriano Peixoto. Após Floriano, outros vices ocupariam o principal posto do Executivo brasileiro: Delfim Moreira (1918), Café Filho (1954), João Goulart (1961), José Sarney (1985) e Itamar Franco (1992).

Atual presidente do Senado, José Sarney chegou ao principal cargo do País em 1985. Eleito vice-presidente indiretamente, Sarney, então vice de Tancredo Neves, tomou posse após a morte do último mineiro eleito presidente, Tancredo Neves. “Esta expectativa especial às escolhas dos vices veio com o Sarney e o Itamar”, define Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas.

Itamar substituiu Fernando Collor, acusado de corrupção e afastado do governo após um processo de impeachment. “Foi um processo inédito, dentro da regra do jogo, mas a repercussao do vice hoje se deve muito a estes dois casos”, completou Teixeira.

O que é que o vice tem?

Na hora de definir o companheiro de chapa, os postulantes ao Palácio do Planalto geralmente levam em conta três fatores: um nome que complemente a personalidade do titular, uma escolha com base na composição regional ou o tempo de TV que o partido dará ao candidato. “O primeiro caso é o casamento Lula e José Alencar. Empresário, Alencar ‘tranquilizou’ o eleitorado que ainda achava Lula radical se vencesse a eleição. É parecido com a escolha do Guilherme Leal pela Marina Silva”, comparou Barreto. Para o analista, Leal, dono da Natura e com bom trânsito entre os empresários, “suaviza” o perfil ambientalista da candidata do PV.

No caso de Dilma e Serra, a “venda” do tempo de TV dos partidos dos vice predominou na hora de definir Temer e Indio da Costa. Com o PMDB, Dilma ampliou sua exposição na TV, assim como ocorreu no acerto entre o DEM e o ex-governador de São Paulo. “Temer e Indio, como pessoas, pouco têm a agregar. Quem agrega é o partido. É diferente dos EUA”, afirmou Teixeira.

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Lula e Alencar: parceira desde 2002, quando o presidente foi eleito

O professor comparou os vices da eleição brasileira de 2010 com Sarah Palin, companheira de chapa do candidato derrotado John McCain, em 2008. Ex-governadora do Alasca, Sarah ganhou notoriedade por suas declarações polêmicas durante a disputa com Barack Obama. “A Sarah cumpriu um papel, de uma forma ou de outra. Trouxe o voto conservador. O Indio não. O que ele agrega além do DEM? Se o Serra perder, ele voltará para seu mandato pouco expressivo na Câmara”, explicou.

Para os analistas, quem melhor traduziria o viés regional como determinante na escolha do vice seria o ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB) em uma chapa puro-sangue do PSDB. “Serra não conseguiu usar esta composição porque não convenceu Aécio. Senão, seria Minas Gerais na vice”, disse o professor da UnB. Segundo maior colégio eleitoral do País, o Estado é considerado o fiel da balança de 2010. Duas vezes vice de Lula, Alencar é natural de Muriaé, zona da Mata mineira.

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