Boatos, ofensas e mentiras ganharam a internet na eleição

Rumores e acusações falsas foram recorrentes em campanhas passadas, mas ganharam peso com o avanço da web

Matheus Pichonelli e Rodrigo Rodrigues, iG São Paulo |

Terrorista, antirreligiosa e “a favor de morte de criancinhas” de um lado. Privatista, amigo do general Augusto Pichonet e “exterminador” de programas sociais, de outro. Com a difusão da internet, e de redes sociais como Facebook e Twitter, notícias falsas relacionadas aos dois principais candidatos à Presidência multiplicaram-se neste ano e ganharam peso suficiente para causar estragos nas campanhas tanto de Dilma Rousseff (PT) como de José Serra (PSDB).

A onda de boatos e desinformações levou os presidenciáveis a criar, nas páginas oficiais de suas campanhas, seções específicas para desmentir rumores ao longo das eleições.

Embora não tivessem a mesma capilaridade observada hoje com a internet, boatos e rumores foram recorrentes em todas as eleições realizadas no Brasil desde a redemocratização. Em 1989, na primeira eleição direta para presidente após 20 anos de regime militar, o principal alvo foi o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que disputava com o hoje senador Fernando Collor de Mello.

Na ocasião, Lula passou parte da campanha explicando rumores de que, por exemplo, se negava a reconhecer a paternidade ou pagar pensão à filha Lurian, fruto do romance com a enfermeira Miriam Cordeiro. O então líder sindical foi acusado na propaganda eleitoral na televisão de ter pedido à ex-namorada que fizesse um aborto.

Agência Estado
Em novembro de 1989, Lula apareceu em São Paulo ao lado da filha Lurian, que nasceu do relacionamento com Miriam Cordeiro
Na mesma eleição, Lula e o PT foram acusados de ligação com o sequestro do empresário Abílio Diniz às vésperas do pleito. Isso porque um dos sequestradores aparecia em vídeo vestindo a camisa do partido. Para completar, o petista foi acusado de ter um projeto para invadir igrejas e proibir cultos religiosos no País. Até mesmo uma circular, assinada por uma falsa juventude petista, foi distribuída na campanha, pregando a luta armada. O documento chegou a ser citado por Collor ao longo da campanha.

Anos depois, quando já havia sido eleito presidente e tentava a reeleição, em 2006, a campanha petista usaria o mesmo método que condenou no passado: escalou lideranças para espalhar rumores de que, caso eleito presidente, o adversário Geraldo Alckmin (PSDB) promoveria privatizações de empresas estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras. O boato colou e, pouco depois, o tucano apareceu em público com boné com o slogan do BB para afastar a imagem de “privatista”. Como reação, Alckmin chegou a acusar o presidente de “mentir” e propagar “a boataria, boatos mentirosos”, durante um debate na TV.

Além da fama de “privatistas”, propagandeada pelos adversários do PT, tucanos também já foram alvo de boatos, como em 1985, quando Fernando Henrique Cardoso, então candidato a prefeito de São Paulo, foi perguntado em um debate se acreditava em Deus e se esquivou, respondendo apenas que respeitava “as várias religiões do povo”. Adversários exploraram exaustivamente a declaração, alegando que FHC era ateu. No fim, quem se saiu vitorioso nas urnas foi seu adversário, Jânio Quadros.

Estopim

Em alguns casos, declarações dos candidatos e fatos verídicos acabaram servindo de estopim para os ataques dos adversários. Quando foi candidato à Prefeitura de São Paulo em 1992, o hoje deputado Paulo Maluf (PP-SP) viu a campanha do rival petista Eduardo Suplicy (PT-SP) veicular exaustivamente sua frase “Estupra, mas não mata”, dita durante um debate em 1989. Maluf conseguiu se eleger, mas sempre se queixou dizendo que a fala foi tirada do contexto.

Dez anos depois, foi Maluf quem usou a mesma tática contra Soninha Francine, que disputava com ele a Prefeitura de São Paulo, em 2008. Ele aproveitou que a rival tinha declarado a uma revista que já tinha fumado maconha para difundir a tese de que ela seria a favor das drogas.

Agência Estado
Marta Suplicy causou polêmica ao levar à TV programa que questionava se Kassab era casado e tinha filhos, em uma insinuação sobre a opção sexual do prefeito
Na mesma eleição, a campanha da petista Marta Suplicy à prefeitura foi mais longe. No horário eleitoral gratuito, a equipe de Marta veiculou um vídeo em que perguntava se Kassab era casado ou tinha filhos, em uma insinuação sobre a opção sexual do prefeito, que concorria à reeleição pelo DEM. Este ano, ao ser questionada pelo jornalista Kennedy Alencar sobre o episódio, Marta pediu publicamente desculpas a Kassab.

Coordenador da campanha petista na época, o hoje vereador em São Paulo José Américo (PT) afirma que a eleição de 1989 foi mais “grosseira” se comparada com a disputa atual. Hoje, por outro lado, o impacto dos rumores é bem maior. “Antes falavam que Lula tinha casa no Morumbi, mas (o boato) tinha efeito pequeno. Poucos acreditavam. As pessoas iam para as ruas e diziam que iríamos dividir as casas”, diz.

O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), presidente nacional do partido e atual coordenador da campanha tucana à Presidência, diz ainda que vê um descontrole no que é propagado por apoiadores na internet e nas redes sociais.

    Leia tudo sobre: eleições dilmaeleições serrapleito 2010

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG