Bandeira tucana, alta do mínimo já guiou discursos contra Serra

Em eleições passadas, candidato do PSDB ao Planalto já questionou viabilidade de aumentos propostos por adversários

Alessandra Oggioni e Daniela Almeida, iG São Paulo |

Antes situação, hoje oposição, o candidato José Serra (PSDB) reforçou na reta final da campanha o discurso pelo aumento da renda, prometeu reajuste de 10% a aposentados, o pagamento do 13º no Bolsa Família e um salário mínimo para R$ 600. No passado, quando era situação, Serra era quem respondia a propostas de adversários por reajustes.

Nas eleições de 2002, quando Serra ambicionava suceder Fernando Henrique Cardoso e manter o PSDB no governo, ele dizia que o aumento do mínimo não era viável economicamente. Naquele ano, o salário de R$ 200 era constante objeto de crítica dos opositores. O então candidato pelo PT, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmava que o País só cresceria com a progressão do mínimo para US$ 100. Anthony Garotinho, candidato pelo PSB, melhorou seu desempenho nas pesquisas depois de propor o valor de R$ 280. Hoje, o freio ao reajuste para R$ 600 vem do próprio PT.

“Isto está errado. É demagogia pura. Ele poderia, como governador e com maioria na Câmara, ter feito um salário maior para São Paulo e não fez”, afirma o deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP). O líder do governo na Câmara avalia as propostas de Serra como “irreais”. E as críticas não param por aí. A criação do 13º também é inviável na opinião de Vaccarezza. “A proposta do Serra de dar 13º para o Bolsa Família é incorreto politicamente, porque o Bolsa-Família não é emprego, é uma ajuda que o Estado dá para as pessoas que estão abaixo da linha de pobreza.”

Já o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, nega que a proposta de aumento seja discurso típico de campanha e garante que o projeto é financeiramente suportável. Ele reconhece, no entanto, que a medida é eficiente do ponto de vista eleitoral. “Foi uma boa proposta para a oposição lá atrás e é uma boa proposta para nós, que estamos na oposição, hoje”, ironiza sobre a mudança de postura de seu partido.

Para o cientista político Carlos Melo, as medidas propostas pela campanha de Serra seriam “um pouco inconsequentes” e as promessas, na verdade, apenas um recurso retórico eleitoral. Ele afirma que, se adotado, o aumento colocaria em risco as contas do Estado e de prefeituras menores, muitas delas dependentes do Fundo de Participação de Municípios (FPM). Do ponto de vista eleitoral, diz ele, nem sempre esse tipo de discurso resulta em votos. “Minha impressão é de que o apelo não é muito grande, até porque senão o presidente hoje seria o Garotinho, que prometeu R$ 280. Afinal, quem ganhou a eleição?”

Impacto

O economista Raul Velloso avalia que o aumento para R$ 600 só seria possível caso outras medidas econômicas fossem adotadas. “O impacto é grande. Seria necessário que o salário mínimo fosse congelado por quatro anos, contratações fossem suspensas. Enfim, seria preciso enxugar gastos.”

Para Velloso, nas prefeituras de pequenos municípios dependentes do FPM e nos Estados com arrecadação menor que São Paulo o salário praticado na realidade seria menor. “O que acaba acontecendo é que as prefeituras não pagam o salário mínimo oficial. Todas encontram formas de drible. Uma delas é terceirizar os serviços.”

No entanto, Velloso não vê grande impacto econômico com relação à criação do 13º para o Bolsa Família, porque o programa tem baixos valores. “Dobrar, quando se paga uma base baixa, não é grande estrago. Tem que ver apenas, nesse horizonte de quatro anos, se o governo está aumentando excessivamente o programa.”

Evolução do salário mínimo

Em reais (R$) desde Abril de 2002

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Fonte: Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, Dieese

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