Após gestão tumultuada, Yeda deixa governo com grande reprovação

Buscando a reeleição, governadora que amargou maiores índices de rejeição do País fica em terceiro lugar no Rio Grande do Sul

Alexandre Haubrich, iG Porto Alegre |

O primeiro ato da peça tragicômica em cartaz nos últimos quatro anos no Rio Grande do Sul foi protagonizado pela governadora Yeda Crusius (PSDB) ainda antes de tomar posse. Recém-eleita, Yeda pediu ao governo do Estado à época, de Germano Rigotto (PMDB), para que apresentasse proposta de aumento do ICMS. O descumprimento de uma das principais promessas de campanha, de não aumentar impostos, fez com que a governadora rompesse com seu vice, Paulo Feijó (DEM), antes mesmo da posse.

O último ato foi protagonizado pelos eleitores, que deram a Yeda apenas o terceiro lugar nas eleições deste domingo. É certo que ela recebeu o voto de mais de 1,150 milhão de pessoas, mas o desempenho não foi suficiente nem para levá-la ao segundo turno. Foi Tarso Genro quem venceu a disputa ao governo no primeiro turno, com mais de 54% dos votos válidos. Em segundo, ficou José Fogaça (PMDB), com 27,7%.

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Yeda Crusius (PSDB) vota no Rio Grande do Sul
Entre esses dois atos, acumularam-se denúncias e polêmicas com partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais, além do próprio vice. O rompimento com Feijó foi total, e o empresário tornou-se uma das principais vozes da oposição ao governo, o que obrigou Yeda a evitar ao máximo sair do Estado para não ter que passar o governo a ele. A própria campanha dela se restringiu aos horários fora do expediente, pois, caso deixasse o governo para dedicar-se às eleições, Feijó assumiria.

O pedido de Yeda a Rigotto, que resultou no rompimento com Feijó, não foi atendido. Já empossada, a governadora encaminhou a solicitação à Assembleia Legislativa, que também negou o aumento de impostos, com até mesmo alguns deputados da base da governadora votando contra o pacote proposto. Tudo isso ainda no primeiro ano de governo.

Denúncias de corrupção

Em novembro de 2007, começaram a surgir denúncias de corrupção, começando pela Operação Rodin, da Polícia Federal, que apontou desvios de R$ 44 milhões no Detran do Rio Grande do Sul, por meio de superfaturamento de licitações. O empresário Lair Ferst, ligado à cúpula da campanha de Yeda, foi preso, e três meses depois foi instalada uma CPI na Assembleia Legislativa, onde foi denunciado o pagamento, por Ferst, de R$ 400 mil referentes a uma casa adquirida pela governadora por R$ 750 mil.

Mais duas denúncias em sequência: um ex-secretário de segurança afirma que Yeda sabia do esquema de fraudes no Detran e não fez nada para investigar, e Feijó grava uma conversa na qual o chefe da Casa Civil, Cezar Busatto, admite que partidos aliados eram financiados por órgãos públicos. Busatto foi afastado.

Após essas denúncias, PSOL e PV pediram à Assembléia o impeachment da governadora, pleito que acabou arquivado. Os mesmos partidos entraram também com representação no Ministério Público de Contas pedindo que fosse investigada a compra da casa de Yeda, que, segundo eles, não estaria compatível com os salários dela e do marido, o professor Carlos Crusius. A representação foi arquivada e o nome da governadora retirado dos investigados pela CPI do Detran.

Iniciou-se, então, um movimento por todo o Estado, batizado de “Fora Yeda”. Com manifestações de estudantes e sindicatos no interior e em Porto Alegre, culminou com um protesto em frente à casa da governadora. O ato acabou com sete pessoas presas, entre elas a presidente do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS-Sindicato), Rejane Oliveira, e a vereadora de Porto Alegre Fernanda Melchionna (PSOL).

As relações já ruins entre Yeda e o CPERS se deterioraram, e a candidata à reeleição foi a única não convidada pelo sindicato para um debate durante a campanha. Uma faixa pendurada na fachada da sede do CPERS contava os dias para o fim do mandato de Yeda. A falta de diálogo com os professores e as “escolas de lata”, contêineres improvisados onde algumas crianças estavam tendo aula por falta de escolas, foram algumas das críticas constantes nesses quatro anos.

Em agosto de 2009, o Ministério Público Federal entrou com ação de improbidade administrativa contra a governadora, e a Assembleia Legislativa instaurou nova CPI para apurar as suspeitas de corrupção.

Déficit zero

Em meio a todo esse desequilíbrio político, Yeda buscava o equilíbrio das contas do Estado. O propagado “déficit zero” foi usado como principal mote da primeira parte da campanha à reeleição, mas, criticado por todos os adversários por ter sido obtido à custa do funcionalismo público e de mais investimentos, não conseguiu emplacar para levar Yeda ao segundo turno.

Nos momentos finais da campanha, a governadora buscou outros números que apresentavam bons resultados econômicos e sociais no Estado. Crescimento acima do Brasil e investimentos maiores do que os de governos anteriores, do PT e do PMDB, viraram hinos da campanha peessedebista, mas, com as outras campanhas já estabilizadas, não foi o suficiente.

Alguns dos investimentos trazidos por Yeda ao Rio Grande do Sul também foram cercados de polêmica e decisões políticas. A chegada de empresas de celulose ao Estado, por exemplo, foi fortemente criticada por ambientalistas. O licenciamento ambiental teria sido apressado por pressões políticas e contrariado decisões de técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

A relação do governo com os movimentos sociais foi tumultuada, especialmente quando o Coronel Paulo Roberto Mendes esteve à frente da Brigada Militar. De pouco diálogo com manifestantes, o Coronel Mendes chefiou diversas ações da Brigada que terminaram em agressões a participantes de protestos ou ocupações de terra. Já com o Coronel Mendes fora do comando, mas ainda como conselheiro de Yeda e promovido pela governadora a Juiz do Tribunal Militar, o sem-terra Elton Brum foi assassinado com tiros nas costas, em 2009, em confronto de integrantes do MST com policiais militares.

Depois de quatro anos tumultuados, com índices de reprovação chegando a quase 50% em agosto durante o governo, deixa o Piratini a governadora que se elegeu em uma eleição na qual peemedebistas votaram no PSDB para tirar o PT do segundo turno. O déficit zero e os números de crescimento divulgados pouco antes das eleições não foram suficientes para reeleger a paulista Yeda Crusius governadora dos gaúchos.

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