Ao longo dos anos, Serra acumulou admiradores e desafetos

Nos 40 meses em que governou o Estado, Serra cultivou parcerias e inimizades dentro e fora do PSDB

Nara Alves, iG São Paulo |

José Serra foi governador de São Paulo de janeiro de 2007 a abril deste ano. Nesses 40 meses à frente do Palácio dos Bandeirantes, ele cultivou parcerias e inimizades dentro e fora do PSDB. Assim, articulou e viabilizou sua candidatura à Presidência, derrotando internamente o colega paulista Geraldo Alckmin e o mineiro Aécio Neves, que assim como ele foram cotados nos últimos anos como possíveis escolhas do partido para disputar o Palácio do Planalto.

Agora, tucanos paulistas e o mineiro procuram demonstrar unidade em torno do ex-governador. Mas nem sempre foi assim. "O Serra odeia o Alckmin", diz um tucano. Talvez a palavra ódio seja inapropriada por se tratar de uma contenda calculada de estratégia política. Mas a afirmação aponta para o recente histórico de embates entre os dois.

Em 2002, Serra perdeu para Alckmin a indicação para disputar a Presidência pelo PSDB. Em 2008, Alckmin candidatou-se à Prefeitura de São Paulo à revelia de Serra, que articulou nos bastidores a reeleição seu vice, o prefeito Gilberto Kassab (DEM). Depois de duas derrotas, Alckmin conseguiu ser reconduzido por Serra à disputa ao governo paulista, graças a sua força nas pesquisas de intenção de voto.

Em Minas, segundo maior colégio eleitoral do País, a corrente tucana aecista também teve de ceder. O ex-governador Aécio Neves abriu mão das prévias, mas não aceitou ser vice de Serra. O acordo entre os dois previa cooperação mútua para que o PSDB ganhe as eleições de outubro de um jeito ou de outro. Candidato ao Senado aos 50 anos, Aécio é visto dentro da legenda como o herdeiro natural da vaga de candidato à Presidência.

null Palácio dos Bandeirantes

Não foi apenas dentro do PSDB que Serra deixou desafetos. Em outubro de 2007, uma conversa entre o então diretor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), John Neschling, e os músicos foi parar no site de comparilhamento de vídeos YouTube. No vídeo, o maestro escancarou o desentendimento com Serra e o chamou de “mimado” e “autoritário”.

“Existe um mal estar do governo em relação a mim, pessoalmente, por uma questão meramente de querer mandar (...) O Serra é um menino mimado, na verdade, um autoritário, um excelente administrador, mas uma pessoa muito complicada de se lidar”, dizia, no filme. Por dois anos, o maestro que reestruturou a Osesp continuou criticando o governador e, em janeiro de 2009, foi demitido do cargo.

Na educação – área que, segundo Serra, será a prioridade de seu eventual governo como presidente – o candidato também tornou-se alvo de críticas. O ex-secretário de Educação de São Paulo e ex-tucano Gabriel Chalita acusou Serra de desrespeitar professores. “Aí está uma diferença básica: eu respeito os professores, não coloco neles a culpa pelos eventuais fracassos. Culpados são os maus gestores por destruírem políticas públicas, por não terem a humildade de dar continuidade ao que dá certo pelo personalismo hediondo tão mesquinho daqueles que pouco entendem de ética”, disse Chalita ao filiar-se ao PSB, sigla para a qual se transferiu após deixar o PSDB.

AE
Serra sanciona Lei Antifumo em maio de 2009. Atrás, Aloysio Nunes e Ricardo Montoro

Em março, o sindicato dos professores (Apeoesp) realizou greve de 30 dias por reajuste salarial. O governo classificou a paralisação como eleitoreira e não concedeu o aumento. "Nunca tivemos tanta dificuldade em negociar com um governo", diz a presidente da Apeoesp, Izabel Noronha, opositora declarada do governador e filiada ao PT.

A conduta linha dura de Serra é também motivo de elogios. A ex-subprefeita da Lapa e candidata ao Senado pelo PPS, Soninha Francine, defende que “Alckmin poderia ter sido mais agressivo, como Serra foi”, em sua gestão à frente do Estado.

"Ele é rigoroso no gasto, nos aspectos éticos da administração. Ele cobra, mas é muito afetuoso, amigo, solidário", diz o candidato ao Senado, Aloysio Nunes Ferreira, que no auge das tensões entre Serra e Alckmin era apontado pelos aliados do presidenciável como nome certo para a disputa do Palácio dos Bandeirantes.

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